{"id":12592,"date":"2019-12-13T11:54:56","date_gmt":"2019-12-13T14:54:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.amazoniasocioambiental.org\/radar\/eldorado-tragico\/"},"modified":"2019-12-13T11:59:54","modified_gmt":"2019-12-13T14:59:54","slug":"eldorado-tragico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/radar\/eldorado-tragico\/","title":{"rendered":"Eldorado tr\u00e1gico: os caminhos violentos do garimpo no pa\u00eds de Maduro"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Por Paula Ram\u00f3n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/\">Revista Piau\u00ed<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Edi\u00e7\u00e3o 159 &#8211; Dezembro de 2019<\/strong><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<span class=\"capitalize\">C<\/span>heguei a Ciudad Guayana, no Sudeste da Venezuela, no in\u00edcio da noite. Era ter\u00e7a-feira, mas havia poucos carros circulando. As ruas, quase \u00e0s escuras devido \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, tamb\u00e9m estavam silenciosas. Tanto assim que na entrada do hotel era poss\u00edvel ouvir os grilos no jardim. \u201cAs pessoas se recolhem cedo\u201d, disse J\u00fanior Hern\u00e1ndez, o motorista que me acompanhava na cidade. \u201cPor causa da viol\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 muitos locais abertos depois das oito da noite.\u201d<\/p>\n<div id=\"piaui-1161732687\" class=\"piaui-miolopost\">\n<div id=\"banner-300x250-area\" class=\"ad\" data-google-query-id=\"CMHdvdjvsuYCFSUG1AodzlwI9g\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/27954005\/folha\/revista_piaui\/neste_mes_0__container__\">\n<div class=\"post-inner\">\n<p>De fato. Quando sa\u00edmos para jantar, encontramos aberta apenas uma\u00a0<em>arepera<\/em>, quase vazia, onde me chamou a aten\u00e7\u00e3o um cartaz que dizia: \u201cProibido usar armas de fogo neste espa\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p><em>Areperas<\/em>\u00a0s\u00e3o pequenos estabelecimentos, parecidos com lanchonetes, que servem\u00a0<em>arepas<\/em>, o tradicional p\u00e3o de milho, com recheios variados: carne louca,\u00a0<em>pel\u00faa<\/em>\u00a0(queijo amarelo com carne) ou\u00a0<em>domin\u00f3<\/em>\u00a0(feij\u00e3o com queijo). Pedi um cl\u00e1ssico da cozinha regional,\u00a0<em>arepa<\/em>\u00a0com queijo\u00a0<em>guayan\u00e9s<\/em>, e um suco de maracuj\u00e1. Minha conta deu 70 mil bol\u00edvares, ou cerca de 3,50 d\u00f3lares, no c\u00e2mbio do dia \u2013 quase duas vezes o sal\u00e1rio m\u00ednimo oficial da Venezuela, que era 40 mil bol\u00edvares no in\u00edcio de outubro, quando fui para l\u00e1 (hoje \u00e9 150 mil bol\u00edvares).<\/p>\n<p>Logo depois de nos sentarmos em uma das mesas de madeira com toalhas verdes, entraram na\u00a0<em>arepera<\/em>\u00a0tr\u00eas homens, um deles com uma pistola autom\u00e1tica bem vis\u00edvel na cintura. \u201cS\u00e3o policiais\u201d, comentou Hern\u00e1ndez. Perguntei como sabia disso, pois os homens n\u00e3o estavam fardados, e ele respondeu: \u201cA caminhonete branca estacionada ali na frente.\u201d Nessa regi\u00e3o, todo mundo teme as caminhonetes brancas, em geral usadas por membros de algum corpo armado do governo de Nicol\u00e1s Maduro. S\u00e3o muitos os relatos de deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias, extors\u00f5es e execu\u00e7\u00f5es cometidas por essas for\u00e7as de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Voltamos ao hotel atravessando as ruas escuras e sem tr\u00e2nsito. No caminho, vejo v\u00e1rias constru\u00e7\u00f5es interrompidas, restos sinistros dos tempos de bonan\u00e7a na Venezuela. Em frente ao hotel de tr\u00eas andares, quatro homens sentados em cadeiras de pl\u00e1stico cuidavam da seguran\u00e7a do local.<\/p>\n<p>De dia, Ciudad Guayana \u00e9 muito diferente. Quando deixo o hotel depois do caf\u00e9 da manh\u00e3, me deparo com um tr\u00e2nsito agitado, lojas bem abastecidas, gente comprando comida e rem\u00e9dios, restaurantes e padarias funcionando sem contratempos. Exceto pelas filas quilom\u00e9tricas nos postos de gasolina e caixas eletr\u00f4nicos, eu poderia esquecer por alguns minutos que estou na Venezuela, pa\u00eds onde quase tudo entrou em colapso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">C<\/span>iudad Guayana \u00e9 uma cidade planejada que reuniu em 1961 duas localidades preexistentes, Puerto Ordaz e San F\u00e9lix, al\u00e9m de outras comunidades menores. Foi o mais ambicioso projeto urban\u00edstico-industrial j\u00e1 realizado na Venezuela, uma aposta no futuro radiante que estaria reservado ao pa\u00eds. N\u00e3o \u00e0 toa, nas escolas costumava ser chamada de Bras\u00edlia venezuelana, por causa de suas avenidas largas, zonas habitacionais e parques. \u201cCiudad Guayana foi provavelmente a primeira tentativa de montar uma equipe multidisciplinar de economistas, cientistas sociais, advogados, urbanistas, arquitetos, engenheiros e outros para planejar uma nova cidade\u201d, explica Donald Appleyard no livro\u00a0<em>Planning a Pluralistic City<\/em>. Hoje, \u00e9 a sexta cidade mais populosa do pa\u00eds e a primeira do estado de Bol\u00edvar, com quase 1 milh\u00e3o de habitantes, muitos dos quais ainda n\u00e3o a veem como a sua cidade e preferem dizer que moram em Puerto Ordaz ou San F\u00e9lix \u2013 que s\u00e3o agora apenas dois dos distritos, embora tenham sido a origem de tudo.<\/p>\n<p>Encravada entre as margens dos rios Caron\u00ed e Orinoco, a antiga cidade de Puerto Ordaz foi fundada em 1952 para abrigar os empregados da Orinoco Mining Company, uma subsidi\u00e1ria da norte-americana US Steel que se instalou na regi\u00e3o para explorar as jazidas de ferro descobertas na segunda metade do s\u00e9culo XIX. O nome homenageia o explorador espanhol Diego de Ordaz, que no in\u00edcio do s\u00e9culo XVI comandou malogradas expedi\u00e7\u00f5es \u00e0quele territ\u00f3rio em busca do m\u00edtico Eldorado.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o mineral e os rios caudalosos fizeram dessa \u00e1rea uma das mais promissoras para a economia da Venezuela. \u201cHavia todo o potencial hidrel\u00e9trico do Rio Caron\u00ed, e depois come\u00e7ou a explora\u00e7\u00e3o do ferro. Essa combina\u00e7\u00e3o deu lugar \u00e0 grande sider\u00fargica dos anos 1950, e a partir da\u00ed veio tudo. Do ponto de vista dos recursos, parecia realmente um Eldorado, pois foi descoberto um depois do outro: a\u00e7o, alum\u00ednio, ouro\u2026\u201d, descreveu a engenheira e urbanista Mar\u00eda Nuria De Cesaris, que se mudou para Ciudad Guayana em 1979 e trabalhou em projetos de desenvolvimento da cidade.<\/p>\n<p>Em 1960, o governo criou a Corpora\u00e7\u00e3o Venezuelana de Guayana (CVG) com o objetivo de desenvolver a regi\u00e3o, cujas jazidas de v\u00e1rios metais prometiam ser uma alternativa ao petr\u00f3leo, que monopolizava a economia do pa\u00eds desde a sua descoberta no come\u00e7o do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Quando Ciudad Guayana floresceu, muita gente, tanto das diferentes regi\u00f5es da Venezuela como de outros pa\u00edses, foi para l\u00e1. A companhia era para os cidad\u00e3os desse lado do mapa o que a Petr\u00f3leos de Venezuela era para o estado de Zulia, do lado oposto: uma imensa fonte de riqueza.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, a CVG foi criando divis\u00f5es para explorar os recursos naturais do estado de Bol\u00edvar e outros, vizinhos. Hoje, n\u00e3o se sabe mais quanto essas empresas produzem. O vice-presidente setorial da \u00c1rea Econ\u00f4mica da Venezuela, Tareck El Aissami, disse que a regi\u00e3o alcan\u00e7ou neste ano uma taxa hist\u00f3rica de produtividade, sem apresentar dados que sustentem sua afirma\u00e7\u00e3o. Mas, diferentemente do que propagam as autoridades, o que se v\u00ea na zona industrial de Ciudad Guayana s\u00e3o f\u00e1bricas paralisadas, algumas mais parecidas com cemit\u00e9rios de m\u00e1quinas enormes. At\u00e9 mesmo os cartazes nas entradas desses locais com a imagem de Hugo Ch\u00e1vez de boina vermelha est\u00e3o desbotados e pu\u00eddos.<\/p>\n<p>\u201cTemos aqui uma capacidade instalada de at\u00e9 25 milh\u00f5es de toneladas de ferro por ano, mas em 2019 n\u00e3o chegamos a produzir nem 1 milh\u00e3o, por causa do desgaste do maquin\u00e1rio, entre outras coisas\u201d, afirmou a dirigente sindical Yarudid Gonz\u00e1lez, oper\u00e1ria da Ferrominera Orinoco, uma das empresas pertencentes \u00e0 CVG. Alguns dirigentes sindicais contam que as instala\u00e7\u00f5es industriais, al\u00e9m de pouco produtivas, est\u00e3o sendo saqueadas pelos executivos que as comandam.<\/p>\n<p>Como a produ\u00e7\u00e3o foi reduzida, apenas uma pequena parte dos oper\u00e1rios comparece ao trabalho, a fim de garantir o sal\u00e1rio m\u00ednimo e uma caixa de mantimentos, que \u00e0s vezes \u00e9 entregue, \u00e0s vezes n\u00e3o.<\/p>\n<p>A estagna\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria tem levado os oper\u00e1rios a procurarem outras fontes de renda, inclusive nas dezenas de garimpos de ouro na regi\u00e3o. Convertidos \u00e0 aventura do ouro, eles se afundam na selva sem nenhuma experi\u00eancia, passando a viver em locais remotos, instalados em casebres prec\u00e1rios, sem qualquer infraestrutura, dominados por outras leis que n\u00e3o as da Justi\u00e7a. Alguns jamais voltam para suas casas. \u201cMilhares de demitidos foram para o com\u00e9rcio informal ou para o garimpo de ouro. E ningu\u00e9m sabe onde est\u00e3o agora, se ainda vivem nas minas, ou se morreram l\u00e1\u201d, diz Fernando Serrano, porta-voz de um sindicato da Ind\u00fastria Venezuelana do Alum\u00ednio (Venalum), tamb\u00e9m pertencente \u00e0 CVG e baseada na zona industrial de Ciudad Guayana.<\/p>\n<p>Em 2011, quando o governo de Hugo Ch\u00e1vez baixou um decreto-lei estatizando a extra\u00e7\u00e3o de ouro e atividades correlatas, anunciou-se uma s\u00e9rie de planos para organizar e controlar a minera\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. A ideia, mais uma vez, era obter uma nova fonte de receita, para al\u00e9m do petr\u00f3leo. O mais famoso desses projetos foi o Arco Mineiro do Orinoco (AMO), que s\u00f3 deslanchou em 2016, no governo de Nicol\u00e1s Maduro, num territ\u00f3rio de 111 843,7 km<sup>2<\/sup>\u00a0(equivalente a 12% da \u00e1rea total da Venezuela). O AMO inclui Ciudad Guayana, al\u00e9m de zonas de preserva\u00e7\u00e3o ambiental e terras ind\u00edgenas, e \u00e9 dividido em quatro setores onde h\u00e1 reservas de ouro, diamante, ferro, cobre, bauxita, terras raras, caulim, dolomita e\u00a0<em>coltan<\/em>\u00a0(columbita e tantalita). Com o projeto, Maduro ressuscitou o mito do Eldorado em pleno s\u00e9culo XXI. Um Eldorado feito de trag\u00e9dias, grandes e pequenas, como pude constatar em El Callao, Tumeremo e El Dorado \u2013 as cidades da regi\u00e3o que visitei.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">Q<\/span>uando se atravessa a fronteira do Brasil rumo \u00e0 Venezuela, e segue-se para o Norte pela Rodovia Troncal 10, raramente se \u00e9 s\u00e3o parado nas barreiras policiais. Na dire\u00e7\u00e3o oposta, entretanto, o percurso pode se transformar em uma via-cr\u00facis de revistas feitas pela Guarda Nacional venezuelana. \u201cEles confiscam a gasolina das pessoas e a revendem\u201d, diz o motorista que me leva de Ciudad Guayana a El Callao. Nas viagens pela Troncal 10, \u00e9 necess\u00e1rio carregar combust\u00edvel no porta-malas, pois n\u00e3o h\u00e1 postos de gasolina em funcionamento no caminho. Em nossa viagem tivemos sorte: fomos parados uma \u00fanica vez e liberados rapidamente.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que os venezuelanos tinham algum dinheiro, os moradores das localidades vizinhas costumavam ir a El Callao para comprar alian\u00e7as, an\u00e9is de formatura ou medalhas de batismo. A cidade era famosa por suas joalherias, cujo ouro provinha dos v\u00e1rios garimpos nas proximidades. Tamb\u00e9m era conhecida pelo Carnaval animado e por ser um dos polos criativos do calipso na Venezuela. Nos \u00faltimos anos, sua popula\u00e7\u00e3o \u2013 22 mil habitantes, segundo o censo de 2011 \u2013 aumentou significativamente devido \u00e0 grande aflu\u00eancia de pessoas em busca de ouro.<\/p>\n<p>No Centro de El Callao, as ruas fervilham de gente, centenas de motos disparam para l\u00e1 e para c\u00e1 tornando o tr\u00e2nsito ainda mais confuso. As casas coloridas e protegidas com grades parecem n\u00e3o ter deixado espa\u00e7o para mais nenhuma constru\u00e7\u00e3o. Em toda parte, podem-se encontrar lojas de equipamento de minera\u00e7\u00e3o e pontos de compra e venda de ouro.<\/p>\n<p>\u201cO\u00a0<em>boom<\/em>\u00a0da minera\u00e7\u00e3o come\u00e7ou faz uns cinco ou seis anos. El Callao era uma cidadezinha muito sossegada, os garimpeiros se conheciam, n\u00e3o tinha viol\u00eancia. Agora todas as lojas de ourives foram substitu\u00eddas por pontos de compra e venda de ouro\u201d, disse Dijhonny Yori, de 32 anos, dono de uma emissora de r\u00e1dio, a Ruttas FM. Ele contou que, quando come\u00e7ou o\u00a0<em>boom<\/em>, muita gente vinha \u00e0 cidade tamb\u00e9m para comprar comida. \u201cEnquanto em outros locais havia escassez, aqui tinha de tudo, e vend\u00edamos barato, porque quer\u00edamos dinheiro vivo. Com as notas voc\u00ea podia comprar ouro para depois revender, e a\u00ed ter um bom lucro.\u201d As notas de bol\u00edvares, em alguns com\u00e9rcios de El Callao, s\u00e3o mais valorizadas que o d\u00f3lar \u2013 do qual os garimpeiros desconfiam, por n\u00e3o estarem habituados a lidar com a moeda estrangeira. Esse \u00e9 mais um efeito da barafunda econ\u00f4mica na Venezuela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">E<\/span>ntro numa padaria com ar condicionado. No balc\u00e3o, h\u00e1 uma boa variedade de p\u00e3es, alguns em forma de animais. Fa\u00e7o meu pedido e procuro uma mesa. Um policial uniformizado me pergunta: \u201cQuer sentar?\u201d Sobre sua mesa, h\u00e1 um fuzil e uma touca ninja. \u201cN\u00e3o, obrigada\u201d, respondo, indo para o outro lado.<\/p>\n<p>Trata-se de um membro das For\u00e7as de A\u00e7\u00f5es Especiais (Faes), criadas em 2017 e subordinadas \u00e0 Pol\u00edcia Nacional Bolivariana, com o objetivo de combater o crime organizado, como anunciou Maduro \u00e0 \u00e9poca. Hoje, contudo, as Faes s\u00e3o vistas pela popula\u00e7\u00e3o como um esquadr\u00e3o da morte. Num relat\u00f3rio de julho de 2019, a alta comiss\u00e1ria das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, recomendou a dissolu\u00e7\u00e3o dessa tropa de elite, com base em depoimentos que apontam as Faes como respons\u00e1veis por centenas de execu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ao terminar o lanche, o policial veste a touca estampada com a imagem de uma caveira, apanha o fuzil e vai embora, com o rosto todo coberto, exceto os olhos. Quando saio da padaria, me deparo outra vez com ele: o policial est\u00e1 na esquina, mandando todo mundo \u201ccircular sem parar\u201d. Outros \u201ccara-tapadas\u201d \u2013 como os membros das Faes s\u00e3o chamados em El Callao \u2013 patrulham a cidade pilotando motos, como fazem todo dia. \u201cEles vivem espalhando o terror aqui. S\u00e3o uns fac\u00ednoras. Se v\u00e3o revistar tua casa, roubam tudo\u201d, afirma C\u00e9sar,<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/eldorado-tragico\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0dono de v\u00e1rios pontos de compra e venda de ouro na cidade. \u201cOutro dia, uma senhora me contou que os cara-tapadas queimaram o acampamento dela e quebraram at\u00e9 sua bateia de garimpar, que era tudo o que ela tinha\u201d, continua. \u201cOlha aqui\u201d, C\u00e9sar me diz, mostrando no celular os contatos de dezenas de policiais. \u201cExtors\u00e3o pura. Todos eles me pararam para pedir dinheiro e me deram o n\u00famero de telefone, dizendo que seria para o caso de eu precisar de ajuda.\u201d<\/p>\n<p>Pelo segundo ano consecutivo, El Callao foi o munic\u00edpio do pa\u00eds com a maior taxa de homic\u00eddios da Venezuela \u2013 620 assassinatos por 100 mil habitantes, em 2018 (quase oito vezes a j\u00e1 alt\u00edssima m\u00e9dia do pa\u00eds, de 81,4 por 100 mil habitantes). O segundo lugar no ranking coube \u00e0 cidade vizinha de Roscio, com uma taxa de 458 homic\u00eddios por 100 mil habitantes. Os n\u00fameros s\u00e3o da ONG Observat\u00f3rio Venezuelano de Viol\u00eancia (OVV), que \u00e9 a fonte mais confi\u00e1vel em mat\u00e9ria de crime no pa\u00eds. O relat\u00f3rio diz que a criminalidade em ambos os munic\u00edpios \u201cest\u00e1 ligada \u00e0 atividade de minera\u00e7\u00e3o legal e ilegal, aos grupos armados e \u00e0 presen\u00e7a dos \u2018sindicatos\u2019 [<em>como s\u00e3o chamadas as fac\u00e7\u00f5es criminosas que operam nos garimpos<\/em>], tudo somado \u00e0 viol\u00eancia letal das opera\u00e7\u00f5es policiais e militares na regi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Depois do rush do final da tarde, surgem pequenos grupos no Centro de El Callao que se p\u00f5em a varrer as cal\u00e7adas, tentando achar min\u00fasculos gr\u00e3os de ouro que possam ter ca\u00eddo dos bolsos de algum incauto. Cada pessoa tem seu trecho de cal\u00e7ada para varrer e ningu\u00e9m pisa no terreno do outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">\u00c9 <\/span>quase meia-noite, e alguns garimpeiros v\u00e3o aos bares-prost\u00edbulos, aqui chamados de\u00a0<em>corruptelas\u00a0<\/em>\u2013 ou\u00a0<em>currutelas<\/em>, na pron\u00fancia acelerada do oriente venezuelano. No centro do recinto principal de um desses bares h\u00e1 um poste de\u00a0<em>pole dance<\/em>. Luzes vermelhas, verdes e azuis produzem um efeito de discoteca no sal\u00e3o decadente. Nos fundos, passando uma cortina, est\u00e1 o p\u00e1tio com os banheiros e os quartos para onde as mulheres levam seus clientes.<\/p>\n<p>Amanda, de 22 anos, mora num desses quartos. \u00c9 bonita, tem a pele lisa, cintura fina e longas unhas de acr\u00edlico decoradas com esmalte azul-claro e pontos brilhantes. Veste shorts curtos e um top tamb\u00e9m curto. No pesco\u00e7o, nas costas e nos bra\u00e7os, ela mandou tatuar os nomes da m\u00e3e, do ex-marido e dos filhos.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ano est\u00e1 \u201ctrabalhando na pra\u00e7a\u201d, como se referem aqui \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o, e nesse per\u00edodo teve 23 ataques de mal\u00e1ria. Com voz suave e fala r\u00e1pida, ela me conta que tem tr\u00eas filhos e que o pai deles, com quem viveu por cinco anos, foi morto porque \u201cera malandro\u201d. As crian\u00e7as vivem na cidade de El Tigre e s\u00e3o criadas por sua m\u00e3e, que Amanda s\u00f3 conheceu quando tinha 8 anos. \u201cEu fa\u00e7o isso pelos meus filhos\u201d, ela diz, referindo-se ao trabalho de prostituta. \u201cEm duas semanas j\u00e1 consegui levar tr\u00eas cestas de comida para minha m\u00e3e, al\u00e9m de dinheiro vivo, que l\u00e1 n\u00e3o se consegue.\u201d<\/p>\n<p>Amanda come\u00e7ou a se prostituir em Las Claritas, outro povoado de garimpo, mais ao Sul. Depois de se recuperar de um cont\u00e1gio de mal\u00e1ria, instalou-se em El Callao. Ela cobra 5 pontos de ouro por \u201cprograma\u201d \u2013 se o pagamento for em dinheiro vivo, 20 d\u00f3lares. Em uma noite movimentada pode fazer mais de quinze programas.<\/p>\n<p>O \u201cponto\u201d \u2013 equivalente a 100 mg \u2013 \u00e9 a menor das unidades de comercializa\u00e7\u00e3o do ouro. Em outubro, 1 ponto estava cotado em 55 mil bol\u00edvares, ou quase 3 d\u00f3lares na cota\u00e7\u00e3o local (na internacional, para a mesma quantidade, eram 4,8 d\u00f3lares). Para obter um pre\u00e7o melhor pelo seu produto, alguns garimpeiros venezuelanos t\u00eam vendido o ouro em Pacaraima ou Boa Vista, em Roraima. A fim de evitar confiscos da Guarda Nacional venezuelana durante a viagem at\u00e9 o Brasil, eles \u00e0s vezes mandam fundir o ouro e transform\u00e1-lo em joia.<\/p>\n<p>Amanda carrega no pesco\u00e7o uma medalha de Nossa Senhora do Vale, presente do ex-marido, pendurada em uma correntinha que mandou fazer com o ouro que ganhou. Enquanto conversamos, passam alguns clientes. De repente, as pessoas que me guiam em El Callao acenam para irmos embora. \u201cDesabafei\u201d, diz Amanda se despedindo, enquanto enxuga os olhos molhados.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 melhor a gente sair logo daqui\u201d, avisa Ana, moradora da cidade que me acompanha para que eu possa transitar com seguran\u00e7a. Bem em frente ao prost\u00edbulo, acabava de estacionar uma caminhonete branca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O <\/span>medo \u00e9 uma constante nessa parte do mapa. Medo dos policiais e militares, das fac\u00e7\u00f5es criminosas e tamb\u00e9m da guerrilha \u2013 todos armados e disputando o controle das minas da regi\u00e3o. As fac\u00e7\u00f5es criminosas ganharam o nome de \u201csindicatos\u201d porque surgiram dentro de alguns sindicatos da constru\u00e7\u00e3o civil, que por volta de 2007 foram dominados por delinquentes que praticavam v\u00e1rias ilegalidades, como extors\u00e3o e venda de empregos. \u201cQuando aconteceu a queda da atividade econ\u00f4mica e a crise na constru\u00e7\u00e3o, por volta de 2011, esses criminosos dos sindicatos migraram para as \u00e1reas de minera\u00e7\u00e3o, ao Sul do estado de Bol\u00edvar\u201d, explica \u00d3scar Murillo, representante em Ciudad Guayana da ONG Provea (Programa Venezuelano de Educa\u00e7\u00e3o\/A\u00e7\u00e3o em Direitos Humanos). Nas minas, eles se juntaram aos\u00a0<em>pranes<\/em>, como s\u00e3o chamados os chefes de quadrilhas. O nome\u00a0<em>pran<\/em>, surgido nas cadeias venezuelanas, \u00e9 possivelmente uma onomatopeia para o tiro de rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>\u201cIsso aqui \u00e9 uma bomba-rel\u00f3gio, voc\u00ea n\u00e3o sabe quem vai te foder: se os bandidos, a Diretoria-Geral de Contraintelig\u00eancia Militar, o governo ou as Faes\u201d, afirma Omar, um produtor de eventos que tem ajudado os \u201csindicatos\u201d no contato com o governo. Quando fui apresentada a ele dentro de um\u00a0<em>bodeg\u00f3n<\/em>, no Centro de El Callao, Omar carregava uma sacola cheia de bol\u00edvares numa das m\u00e3os e um capacete de moto na outra. Mas negou-se a conversar no bar. \u201cAqui as paredes t\u00eam ouvidos\u201d, disse.<\/p>\n<p>No quarto de hotel onde mora com a namorada, ele conta que os \u201csindicatos\u201d j\u00e1 n\u00e3o mandam em El Callao \u2013 a vers\u00e3o coincide com a de alguns moradores e a do deputado Am\u00e9rico de Grazia (do partido La Causa Radical), que tem denunciado atividades do crime organizado na regi\u00e3o e est\u00e1 amea\u00e7ado de morte. Na vers\u00e3o de Omar, as fac\u00e7\u00f5es criminosas se instalaram nas minas com o respaldo de autoridades. Posteriormente, o governo decidiu reassumir o controle do neg\u00f3cio do ouro e enviou esquadr\u00f5es da morte para \u201climpar\u201d a regi\u00e3o, assassinando os antigos aliados.<\/p>\n<p>Um dos chef\u00f5es do crime, Yorman M\u00e1rquez \u2013 conhecido como El Gordo Bay\u00f3n \u2013 foi morto no Centro de Caracas em 2014. O bra\u00e7o direito de El Gordo, Phanor San Clemente (El Capit\u00e1n), foi assassinado em outubro de 2018. Segundo Omar, os dois atuavam no contrabando de ouro e estiveram entre os primeiros a se instalar na regi\u00e3o com o aval oficial. Uma semana ap\u00f3s minha visita, Marcos Zapata, conhecido como Marcopolo e parceiro de outro chef\u00e3o do crime, El Toto, foi morto pelas for\u00e7as do Estado em outra cidade mais ao Norte.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o de El Callao, fala-se tamb\u00e9m que o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (ELN), antigo grupo guerrilheiro colombiano, est\u00e1 agindo a cerca de 100 km da cidade, na Serra de Imataca (ao lado da fronteira com a Guiana), onde teria se apropriado de alguns garimpos. Mas Omar diz n\u00e3o acreditar nisso e acha que o governo venezuelano s\u00f3 n\u00e3o desmente os boatos sobre as atividades do ELN no pa\u00eds para poder colocar na conta dos guerrilheiros os crimes que, na sua opini\u00e3o, foram cometidos pelas for\u00e7as do Estado. \u201cO governo simplesmente n\u00e3o quer assumir a responsabilidade pelos assassinatos cometidos nos garimpos\u201d, afirma. No ano passado, ap\u00f3s cidad\u00e3os denunciarem um massacre na Serra de Imataca, um general negou que houvesse guerrilheiros operando na regi\u00e3o. As autoridades t\u00eam evitado o tema \u2013 e nenhuma respondeu aos meus pedidos de entrevista.<\/p>\n<p>A quantidade de ouro extra\u00edda nas minas do estado de Bol\u00edvar \u00e9 um mist\u00e9rio, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 dados oficiais, nem extraoficiais. Omar arrisca alguns n\u00fameros relativos \u00e0 regi\u00e3o de El Callao. \u201cEu gosto de fazer contas\u201d, diz ele, sorrindo. \u201cAqui tem 643 moinhos artesanais para processar os sacos de terras escavadas pelos garimpeiros e extrair o ouro delas. Suponhamos que cada moinho tire 10 gramas de ouro por dia \u2013 j\u00e1 s\u00e3o, por baixo, 6 430 gramas, ou 6,4 kg. Por m\u00eas, d\u00e1 192 kg. Existe a Mibiturven, que tem capacidade para produzir em torno de 675 kg por m\u00eas. E ainda oito usinas de processamento ativas\u2026\u201d Ele olha para o teto por alguns segundos, e conclui: \u201cSomando tudo, a gente pode chegar a quase 1 tonelada por m\u00eas, s\u00f3 em El Callao. O grosso sai do pa\u00eds ilegalmente.\u201d A Mibiturven (Minera\u00e7\u00e3o Binacional Turquia-Venezuela) \u00e9 uma companhia de capital misto que resultou da fus\u00e3o, em 2018, da estatal de explora\u00e7\u00e3o de ouro CVG Minerven com uma empresa sediada na Turquia. Sua usina \u00e9 a que tem a maior capacidade de processamento de ouro na regi\u00e3o, mas n\u00e3o h\u00e1 dados oficiais sobre a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Banco Central nem sempre publica os n\u00fameros detalhados do setor de minera\u00e7\u00e3o. Mas um estudo realizado pelos economistas venezuelanos Asdr\u00fabal Oliveros e Guillermo Arcay, da consultoria Ecoanal\u00edtica (sediada em Caracas), apontou que entre 1998 e 2011, ano em que ocorreu a estatiza\u00e7\u00e3o dos garimpos, a minera\u00e7\u00e3o ilegal era 17,3 vezes maior que a legal. O mesmo estudo indicou que a estatiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o mudou o cen\u00e1rio. A Rede Amaz\u00f4nica de Informa\u00e7\u00e3o Socioambiental, que trabalha com dados de diversas fontes, calcula que no estado de Bol\u00edvar h\u00e1 quase 2 mil pontos de minera\u00e7\u00e3o ilegais, concentrados principalmente na Serra de Imataca e Las Cristinas.<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">N<\/span>\u00e3o \u00e9 recomend\u00e1vel visitar El Callao e os garimpos nos arredores sem a companhia de habitantes locais. Na minha visita a um dos n\u00facleos de minera\u00e7\u00e3o mais conhecidos da regi\u00e3o, El Peru, a cerca de 30 km da cidade, me acompanharam Ana e seu marido, um jornalista e um funcion\u00e1rio da Mibiturven chamado Isa\u00edas.<\/p>\n<p>Isa\u00edas passou mais da metade de seus 57 anos de vida no garimpo, onde perdeu alguns dentes. Tem a pele torrada pelo sol, as m\u00e3os duras como pedra e gosta de conversar. Depois que denunciou para seus chefes na Mibiturven que oper\u00e1rios estavam roubando areias acumuladas na usina de processamento de ouro, ganhou alguns inimigos. \u201cIsa\u00edas est\u00e1 jurado de morte\u201d, diz Ana, que trabalha providenciando documentos para garimpeiros (como uma esp\u00e9cie de despachante). O marido dela comenta: \u201cAqui voc\u00ea tem que ficar do lado dos mineiros, que s\u00e3o teus companheiros, n\u00e3o do lado do governo.\u201d<\/p>\n<p>Deixamos El Callao seguindo por uma art\u00e9ria marrom que se desprende da Rodovia Troncal 10. \u201cIsso aqui era uma \u00e1rea de minera\u00e7\u00e3o do Estado que devia ser explorada de forma controlada, mas se encheu de gente de v\u00e1rias partes do pa\u00eds\u201d, diz Isa\u00edas. No caminho, passamos por um conjunto de casebres feitos de folhas de lata. \u00c9 o setor San Miguel, onde alguns garimpeiros dentro de um riacho, com \u00e1gua at\u00e9 o joelho e munidos de bateias, tentavam a sorte. Depois, atravessamos o setor Caratal, onde vivem cerca de 1 500 pessoas, e Isa\u00edas chamou a minha aten\u00e7\u00e3o para um terreno gradeado com um gramado seco e irregular: \u201cDiz a lenda que ali foi disputada a primeira partida de futebol da Venezuela, em 1876, organizada por um gal\u00eas que tinha vindo atr\u00e1s do ouro.\u201d<\/p>\n<p>Entramos, ent\u00e3o, em uma estrada de terra acess\u00edvel apenas por carros com tra\u00e7\u00e3o nas quatro rodas e, depois de atravessar trechos de mata cerrada, chegamos finalmente \u00e0 mina Yin Yan, uma das principais e mais perigosas do setor El Peru. Quando nos aproximamos do local, abrimos as janelas do carro para que as pessoas pudessem nos ver, porque ali desconhecidos n\u00e3o s\u00e3o bem-vindos. A desconfian\u00e7a \u00e9 regra entre a popula\u00e7\u00e3o venezuelana em geral, mas nos garimpos se manifesta de forma mais intensa. As pessoas temem umas \u00e0s outras, e boa parte delas confia mais em criminosos do que em policiais \u2013 dizem que os primeiros respeitam regras que n\u00e3o s\u00e3o seguidas pelos segundos. \u201cQuando chegam os do governo, atiram contra todos. Eles nos revistam e \u00e0s vezes levam o que encontram\u201d, diz Johnny, um garimpeiro magro e de cabelos pretos na altura dos ombros com quem conversei na mina Yin Yan. Fazia seis meses que ele tinha vindo de Caracas para tentar a vida na minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O acampamento em volta da mina de Yin Yan \u00e9 uma grande clareira poeirenta, cercada de mata. Num canto, haviam sido constru\u00eddas algumas\u00a0<em>buguis<\/em>, como s\u00e3o chamadas as casas feitas de arma\u00e7\u00e3o de madeira e cobertas com pl\u00e1stico preto \u2013 parecem caixas estreitas onde mal cabe uma pessoa. Ana calcula que nessa mina devem viver 3 mil pessoas, mas alguns garimpeiros acampam apenas por algumas semanas, enquanto outros montam casa para passar meses.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1, no local, \u00e1gua adequada para processar o ouro, os garimpeiros precisam recorrer a caminhonetes que a transportam at\u00e9 ali em caixas enormes. A mina tamb\u00e9m n\u00e3o disp\u00f5e de esgoto, e as pessoas fazem suas necessidades em fossas no mato ou no rio sujo que corre por perto. Nesse mesmo rio, avistei meninos entre 10 e 12 anos com bateias, tentando achar ouro. Algumas mulheres trabalham nas escava\u00e7\u00f5es das minas, mas a maioria delas cuida da venda de refei\u00e7\u00f5es e mantimentos. S\u00e3o chamadas de \u201ccozinheiras\u201d, nome que \u00e0s vezes \u00e9 usado tamb\u00e9m para se referir \u00e0s prostitutas. Curiosamente, esse acampamento \u2013 como alguns outros \u2013 tem internet, captada por meio de antenas, e os garimpeiros podem us\u00e1-la caso paguem a quem controla as minas. Gra\u00e7as \u00e0 internet, Johnny pode falar com sua mulher diariamente.<\/p>\n<p>Os garimpeiros est\u00e3o com o torso nu, o corpo coberto de poeira. Usam meias encardidas, brancas ou coloridas, que chegam at\u00e9 os joelhos. Para n\u00e3o serem confundidos com policiais e, por isso, perseguidos por algum grupo criminoso, eles n\u00e3o colocam botas. Contaram-me sobre um militar de 19 anos, que ap\u00f3s desertar e ir para ali, foi sequestrado por homens de uma fac\u00e7\u00e3o criminosa que o tomaram por espi\u00e3o e lhe arrancaram os olhos, a l\u00edngua e as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Johnny coordena a c\u00e1brea, uma esp\u00e9cie de guindaste com uma enorme polia acionada por dois homens e instalada em cima da entrada da mina \u2013 um buraco de cerca de 20 metros de profundidade. A c\u00e1brea, ali chamada de \u201cm\u00e1quina\u201d, faz funcionar o \u201celevador\u201d, que conduz os garimpeiros pelo buraco. Um por um, eles se sentam num banco de madeira amarrado \u00e0 corda enrolada na polia e descem at\u00e9 o fundo do fosso. Logo que come\u00e7a a descida, acendem a lanterna que carregam na cabe\u00e7a. O movimento de todos \u00e9 t\u00e3o sincronizado que eles parecem participar de um bal\u00e9.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias maneiras de garimpar o ouro. Em Yin Yan, os homens preferem extrair a terra de t\u00faneis cavoucados 20 metros abaixo da superf\u00edcie. L\u00e1 no fundo, colocam essa terra em sacos de 20 kg, que s\u00e3o em seguida i\u00e7ados para o alto e empilhados perto da mina. Mais tarde, ser\u00e3o levados para um moinho que far\u00e1 a extra\u00e7\u00e3o do ouro. Ningu\u00e9m rouba os sacos com terra. \u201cCada um tem uma amarra\u00e7\u00e3o particular, uma marca pessoal do garimpeiro\u201d, diz Isa\u00edas, quando pergunto se aquelas pilhas de sacos n\u00e3o atra\u00edam gatunos. \u201cAl\u00e9m disso, todo mundo conhece o tipo de material que \u00e9 extra\u00eddo em cada mina. Se algu\u00e9m levar a um moinho um material diferente, logo v\u00e3o descobrir que foi roubado.\u201d<\/p>\n<p>O trabalho \u00e9 intermin\u00e1vel, e nunca se sabe quanto ouro sair\u00e1 de cada saco de terra \u2013 o que, para Johnny, depende da vontade divina. \u201cDeus \u00e9 o verdadeiro dono do ouro\u201d, ele diz.<\/p>\n<p>Os t\u00faneis dessas minas da regi\u00e3o de El Callao, abertos h\u00e1 d\u00e9cadas, variam muito de forma e de tamanho. Alguns s\u00e3o t\u00e3o grandes e bem estruturados que d\u00e1 para andar em p\u00e9 por v\u00e1rios n\u00edveis. Outros s\u00e3o buracos prec\u00e1rios e inseguros, onde mal cabe uma pessoa, que precisa se arrastar na terra. H\u00e1 ainda t\u00faneis como o da mina cuja entrada Johnny coordena: galerias entabuadas de no m\u00e1ximo 1,5 metro de altura, o que obriga os homens a avan\u00e7ar agachados.<\/p>\n<p>Johnny n\u00e3o revela quanto fatura nas minas, mas diz que \u00e9 muito mais do que ganhava em Caracas, onde trabalhava como oper\u00e1rio numa empresa e deixou a mulher e os tr\u00eas filhos. \u201cMinha esposa tinha um emprego num minist\u00e9rio, mas voc\u00ea acha que algu\u00e9m pode trabalhar em troca de um sal\u00e1rio m\u00ednimo? \u00c9 imposs\u00edvel, o dinheiro n\u00e3o d\u00e1\u201d, afirma. Ele planejava juntar, at\u00e9 o final do ano, quantia suficiente para ir embora \u2013 e n\u00e3o voltar mais. \u201cEu quero ficar tranquilo, dormir tranquilo. Isso aqui \u00e9 muito perigoso.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">N<\/span>a economia do ouro, os mineiros s\u00e3o, obviamente, a parte mais fraca. Eles devem custear o pr\u00f3prio transporte at\u00e9 as minas, o alojamento e o equipamento. Passam horas debaixo da terra e semanas ou meses nos acampamentos. Uma parte do metal obtido \u00e9 entregue ao propriet\u00e1rio do moinho; outra parte vai para quem controla a mina ou para o pagamento das chamadas\u00a0<em>vacinas<\/em>\u00a0\u2013 propinas cobradas pelo grupo criminoso que domina o local.<\/p>\n<p>Os moinhos fazem quase artesanalmente o servi\u00e7o de extra\u00e7\u00e3o do ouro da terra nos sacos. O ouro obtido \u00e9 entregue ao garimpeiro, que deixa parte dele como pagamento. Depois disso, os moinhos vendem a mesma terra para as usinas, que v\u00e3o reprocess\u00e1-la com m\u00e1quinas melhores e produtos qu\u00edmicos mais potentes, extraindo dela o ouro que os moinhos n\u00e3o foram capazes de retirar. Os donos dos moinhos, portanto, al\u00e9m de receberem uma comiss\u00e3o do garimpeiro, lucram com a venda da terra que n\u00e3o tiveram o trabalho de escavar. Quanto \u00e0s usinas de processamento, estas pagam o que bem entendem pela terra, da qual v\u00e3o extrair uma quantidade de ouro ainda maior que a retirada pelos moinhos.<\/p>\n<p>Em um moinho do setor Caratal, pr\u00f3ximo de El Peru, encontro sete garimpeiros processando eles mesmos dezenas de sacos de terra que coletaram ao longo da semana. O local \u00e9 um cub\u00edculo de 5 m<sup>2<\/sup>\u00a0com telhado de zinco, e o maquin\u00e1rio ocupa quase todo o espa\u00e7o, emitindo um barulho insuport\u00e1vel, como um martelar forte e incessante. Os garimpeiros primeiro despejam o conte\u00fado de cada saco num tambor girat\u00f3rio com bolas de metal soltas, cujo movimento fren\u00e9tico tritura a terra. O choque constante dessas bolas \u00e9 a parte mais barulhenta do processo. Cerca de meia hora depois, os garimpeiros despejam a terra triturada num recipiente, no qual acrescentam \u00e1gua e merc\u00fario l\u00edquido. O merc\u00fario isola da terra e de outros metais as part\u00edculas de ouro, que acabam por formar bolinhas com apar\u00eancia esbranqui\u00e7ada.<\/p>\n<p>\u201cAqui a gente vira ge\u00f3logo, aprende onde escavar, como procurar a terra\u201d, comenta Jos\u00e9, ex-funcion\u00e1rio de Mibiturven, de 42 anos, enquanto me mostra o pouco ouro que conseguiu obter no dia, embrulhado numa folha pautada de papel que ele carrega em um dos bolsos da cal\u00e7a. No outro, ele leva um vidrinho de merc\u00fario. Enquanto processa o seu ouro, d\u00e1 goles num copo de cerveja. O ganho bruto de um garimpeiro numa quinzena, se tudo for favor\u00e1vel, pode chegar a 300 d\u00f3lares, me diz Jos\u00e9.<\/p>\n<p>Vamos a outra mina no setor El Peru. A vegeta\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea \u00e9 mais densa e pode-se ouvir a dist\u00e2ncia, misturado ao canto dos p\u00e1ssaros, o barulho de outros moinhos. Aqui meus guias me deixam tirar fotos e fazer anota\u00e7\u00f5es, porque o local parece menos perigoso. Fotografo os garimpeiros em suas redes. \u00c9 s\u00e1bado \u00e0 tarde, os trabalhos de escava\u00e7\u00e3o j\u00e1 terminaram, e eles descansam na frente do seu\u00a0<em>bugui<\/em>, a poucos metros da entrada da mina.<\/p>\n<p>Maria Jos\u00e9, de 38 anos, era professora do ensino fundamental no estado de Gu\u00e1rico, mas as dificuldades aumentaram e ela decidiu ir para os garimpos. Chegou a El Peru h\u00e1 um ano e meio, onde conheceu Francisco, de 42 anos, com quem se relaciona agora. \u201cComo muitas pessoas estavam vindo trabalhar nas minas por causa da crise, tomei coragem e vim tamb\u00e9m. Eu n\u00e3o tinha como alimentar os meus filhos\u201d, me conta a ex-professora em voz baixa, com os olhos voltados para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela foi primeiramente para o setor Caratal, onde trabalhou como cozinheira. \u201cEra horr\u00edvel, imagina. Aquele monte de homens, eu n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m, estava sozinha, sentia muito medo.\u201d Depois, Maria Jos\u00e9 foi para El Peru e se tornou garimpeira. Desde que chegou nas minas, n\u00e3o v\u00ea os filhos, mas envia dinheiro para eles mensalmente. Seu\u00a0<em>bugui<\/em>\u00a0tem o dobro do tamanho dos de Yin Yan. Est\u00e1 coberto de pl\u00e1stico azul e disp\u00f5e de uma varanda coberta improvisada, onde ela e Francisco penduraram suas redes. Uma cachorra vira-lata, Catira \u2013 \u201cloira\u201d, na g\u00edria venezuelana \u2013, aproveita a sombra. Por ter pegado mal\u00e1ria quatro vezes desde sua chegada, Maria Jos\u00e9 protegeu com um mosquiteiro a rede preta e vermelha onde est\u00e1 deitada. \u201cOlha para mim, olha como estou\u201d, diz, apontando para si mesma. Ela veste uma regata rosa e um short preto. Suas unhas curtas est\u00e3o pintadas de esmalte branco. \u201cEu gosto de estar bonita, mas aqui tenho que me jogar no fundo da terra.\u201d<\/p>\n<p>Alguns quil\u00f4metros adiante, no setor Chile, encontro H\u00e9ctor Calzadilla, outro funcion\u00e1rio da Mibiturven. Com a desvaloriza\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, ele passou a se dividir entre o trabalho numa pequena loja de comida que abriu em sua casa e a supervis\u00e3o de uma mina. \u201cCom o sal\u00e1rio de uma semana na Mibiturven eu compro apenas um frango. Para comer um arroz com frango, tenho que trabalhar duas semanas\u201d, calcula. H\u00e1 mais de quarenta anos ele est\u00e1 na regi\u00e3o e j\u00e1 trabalhou em todas as etapas da cadeia produtiva do ouro.<\/p>\n<p>Calzadilla me convida para entrar em uma mina. \u201cEssa \u00e9 antiga. H\u00e1 d\u00e9cadas que as pessoas procuram ouro aqui\u201d, ele diz, enquanto abre os cadeados da porta de metal que protege o t\u00fanel de acesso. Entrega-me uma lanterna e brinca: \u201cL\u00e1 dentro voc\u00ea vai sentir o ar condicionado.\u201d Logo que atravesso a porta estreita de acesso, a temperatura quase fria da mina me alivia um pouco do calor asfixiante. Na entrada, n\u00e3o consigo ver nada al\u00e9m de um buraco negro. Mas, quando acendemos as lanternas, enxergo um t\u00fanel comprido, cujas paredes forradas de pedra parecem firmes. Enquanto avan\u00e7amos, o t\u00fanel vai ficando mais largo e percebo uma s\u00e9rie de outros t\u00faneis menores e bem estreitos escavados a partir dessa galeria maior. Calzadilla aponta sua lanterna para as paredes e me explica as diferen\u00e7as entre cada forma\u00e7\u00e3o rochosa. Onde eu s\u00f3 avisto uma variedade de marrons, terracotas e alguns brancos, ele v\u00ea promessas de ouro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">N<\/span>o domingo de manh\u00e3, sigo para Tumeremo, a 40 km de El Callao. \u00c0 beira da estrada, dezenas de homens carregam suas botas e bateias, rumo ao Rio Yuruari. Cai uma chuvinha e, quando estou pr\u00f3xima da cidade, desponta um arco-\u00edris. Diz uma lenda irlandesa que, embaixo do arco-\u00edris se encontra um pote de ouro. Aqui, em Tumeremo, as pessoas costumavam falar que o ouro est\u00e1 em toda parte, at\u00e9 nas paredes das casas antigas \u2013 uma hist\u00f3ria da regi\u00e3o conta que uma fam\u00edlia, ao derrubar a parede de sua casa, encontrou escondido ali um\u00a0<em>cochano<\/em>, isto \u00e9, uma pepita de ouro.<\/p>\n<p>O otimismo, por\u00e9m, abandonou muita gente desde que, no in\u00edcio do ano, o acesso \u00e0s 26 zonas de explora\u00e7\u00e3o mineira da redondeza foi bloqueado por militares, como denunciaram garimpeiros locais. \u201cA cidade est\u00e1 morta\u201d, me diz Junior, um jornalista da cidade. \u201cDesde que houve o bloqueio das minas, o movimento caiu muito e as pessoas mal conseguem sobreviver.\u201d<\/p>\n<p>Tumeremo \u00e9 conhecida pela viol\u00eancia. Em mar\u00e7o de 2016, em uma das minas da regi\u00e3o, a Atenas, aconteceu uma chacina brutal, fazendo com que as aten\u00e7\u00f5es do pa\u00eds se voltassem para a cidade de pouco menos de 100 mil habitantes. De uma vez, dezessete pessoas foram mortas na Serra de Imataca pelo grupo criminoso de Jamilton Andres Ulloa Su\u00e1rez, conhecido como El Topo \u2013 essa \u00e9 a vers\u00e3o oficial. No dia seguinte \u00e0 chacina, o acesso \u00e0s minas foi bloqueado pelos militares na altura da base militar de Tarabay, que fica no caminho das \u00e1reas de garimpo. Os parentes foram impedidos de ter acesso aos seus mortos. Houve protestos durante dias, at\u00e9 que fosse atendido o apelo das fam\u00edlias. Algumas delas dizem n\u00e3o saber quem enterraram, porque os corpos, al\u00e9m de decompostos, estavam esquartejados.<\/p>\n<p>Muitas pessoas, de v\u00e1rias regi\u00f5es da Venezuela, t\u00eam ido tentar a sorte nas minas da Serra de Imataca. Acabam perdendo contato com a fam\u00edlia e desaparecem. Por isso, h\u00e1 rumores de que as chacinas na regi\u00e3o talvez sejam muito mais numerosas do que reconhecem as autoridades. \u201cEles s\u00f3 devolvem os corpos das pessoas quando algu\u00e9m reclama\u201d, diz Yamileth, que mora numa vila nas bordas da cidade e h\u00e1 dois anos perdeu o irm\u00e3o naquela serra. \u201cQuem passa para o lado de l\u00e1 n\u00e3o volta mais.\u201d<\/p>\n<p>Enrique Romero, de 62 anos, trabalha com coleta de material recicl\u00e1vel e tamb\u00e9m no cemit\u00e9rio onde est\u00e3o enterrados Junior Enrique e Jos\u00e9 Gregorio Romero, seus filhos mortos na chacina de mar\u00e7o de 2016. Ele contou que os dois rapazes foram para as minas depois que correu um boato de que havia \u201cestourado um rebuli\u00e7o\u201d \u2013 jarg\u00e3o usado quando se encontra um grande veio de ouro. \u201cEles foram conferir se era verdade e ca\u00edram numa emboscada.\u201d Apesar dos perigos, Romero v\u00ea as minas como a \u00fanica alternativa para a sobreviv\u00eancia de muita gente. \u201cSe a pessoa vai para o garimpo \u00e9 para ajudar sua fam\u00edlia\u201d, afirma. \u201cMesmo correndo o risco de ser roubada ou morta, ela vai.\u201d<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia da dona de casa Rosa Campos se parece com a de Romero. Ela se mudou para Tumeremo com o marido e os filhos h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas. Em junho de 2017, seu filho Roy desapareceu nas minas e, juntando as hist\u00f3rias, Campos concluiu que ele fora assassinado. Apesar de incont\u00e1veis peregrina\u00e7\u00f5es a Tarabay, \u00e0s minas e \u00e0s portas das autoridades regionais, ela nunca conseguiu recuperar o corpo de Roy. Na sala de sua casa sem acabamento e com pouca ilumina\u00e7\u00e3o, Campos me mostrou fotos do filho e contou que, por n\u00e3o ter conseguido encontrar o corpo, n\u00e3o t\u00eam um atestado de \u00f3bito dele. Isso a impede de regularizar a situa\u00e7\u00e3o do neto Roy Luis, que est\u00e1 sob seus cuidados. Para ela, o desaparecimento do filho \u00e9 uma ferida que n\u00e3o fecha. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o sabe o que fazer\u201d, diz. \u201cEu vivo com a esperan\u00e7a de que a porta de casa de repente se abra, e ele apare\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>\u201cPara uns, o ouro \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, mas para mim \u00e9 uma maldi\u00e7\u00e3o\u201d, diz Fidel Rico, o marido de Campos. \u201cOs militares sempre nos param nos bloqueios da estrada e nos mandam tirar a roupa e sacudir cada pe\u00e7a para ver se cai ouro. Eu nunca pisei numa mina, mas tenho que passar por isso. N\u00e3o consigo entender por que estamos nessa situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o dr\u00e1stica. \u00c9 melhor morrer, chorarem nossa morte e nos enterrarem.\u201d<\/p>\n<p>Em maio de 2019, o comandante da base militar de Tarabay, coronel Ernesto Sol\u00eds e um grupo de cerca de dez homens invadiram a casa de Andre\u00edna Arcia em Tumeremo, queimaram a moto de seu marido, o mototaxista Victor Rivera, e o levaram embora, conforme ela denunciou ao Minist\u00e9rio P\u00fablico em Ciudad Bol\u00edvar, a mais de 300 km de onde vive. Ela decidiu ir at\u00e9 Ciudad Bol\u00edvar porque, ao apresentar a den\u00fancia \u00e0 pol\u00edcia de sua cidade, foi chamada de \u201cprostituta\u201d e expulsa. Arcia mora em Tumeremo desde crian\u00e7a e, como seus pais eram garimpeiros, costumava passar as f\u00e9rias escolares na regi\u00e3o aur\u00edfera da Serra de Imataca. Quando se casou, afastou-se das minas. Para a dona de casa, que agora cuida sozinha dos dois filhos, o coronel resolveu matar Rivera porque achou que ele integrava um das fac\u00e7\u00f5es criminosas que disputam o controle dos garimpos.<\/p>\n<p>Moradores de Tumeremo dizem ter visto na serra homens uniformizados do Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, alguns deles com sotaque colombiano. H\u00e1 quem os chame de\u00a0<em>guerrillos<\/em>, \u201cparamilitares\u201d, \u201ccolombianos\u201d, mas quase ningu\u00e9m se atreve a dar o nome e sobrenome de algum deles. Jorge, que se mudou para Tumeremo h\u00e1 uns cinco anos, conta que foi levado at\u00e9 a serra para se reunir com o chefe da guerrilha, que estava interessado em uma propriedade dele. \u201cEra um colombiano, dava para ver que tinha boa forma\u00e7\u00e3o, boas maneiras. Ele se apresentou como l\u00edder do Movimento Revolucion\u00e1rio Che Guevara. Disse que j\u00e1 esteve nas fileiras do ELN, mas que esse outro movimento tinha nascido aqui e \u00e9 formado, em sua maioria, por jovens venezuelanos.\u201d<\/p>\n<p>Em 14 de setembro, o deputado Am\u00e9rico de Grazia denunciou nas redes sociais que o ELN teria assassinado um grupo de garimpeiros em El Candado, mina de Tumeremo. \u00c0 imprensa local, Grazia afirmou que for\u00e7as militares em atividade na regi\u00e3o estariam em parceria com o grupo guerrilheiro, que quer tomar o controle das minas das fac\u00e7\u00f5es criminosas. Alguns moradores do lugar sup\u00f5em que o coronel Sol\u00eds ataca as fac\u00e7\u00f5es porque tem um acordo com esses guerrilheiros e estaria dividindo com eles o dom\u00ednio sobre as minas na Serra de Imataca. \u201cTodos os que querem procurar ouro nos t\u00faneis e barrancos s\u00e3o obrigados a trabalhar para o coronel ou os guerrilheiros. Os garimpeiros s\u00e3o como escravos deles\u201d, diz Claudia, que trabalhou durante anos nos garimpos na serra, vendendo produtos variados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O <\/span>trecho de 68 km entre Tumeremo e El Dorado est\u00e1 cheio de buracos e de pessoas com chap\u00e9us surrados pedindo dinheiro ao longo da estrada. Elas recolhem peda\u00e7os do asfalto na borda da via, postam-se diante dos buracos maiores, acendem pequenas fogueiras e derretem o asfalto para com ele tentar remendar as falhas. Como os buracos s\u00e3o enormes, os carros s\u00e3o for\u00e7ados a diminuir a velocidade, o que permite que alguns motoristas deem uma gorjeta a esses remendadores de estrada.<\/p>\n<p>El Dorado, fundada em 1894, \u00e9 ainda mais marrom e maltratada que Tumeremo e El Callao. Apesar do nome, n\u00e3o h\u00e1 grande sinal de riqueza por l\u00e1. As constru\u00e7\u00f5es inacabadas, com tijolos \u00e0 vista e tetos de zinco, dividem espa\u00e7o com quiosques prec\u00e1rios. H\u00e1 tanta poeira na via principal que n\u00e3o se consegue ver que ela \u00e9 asfaltada. Como todas as ruas s\u00e3o estreitas e abarrotadas de pessoas, ve\u00edculos e motos, \u00e9 necess\u00e1rio uma precis\u00e3o de relojoeiro para circular de carro.<\/p>\n<p>Desde o dia anterior, a cidade est\u00e1 sem luz. A Pra\u00e7a Bol\u00edvar, contudo, passa por reformas: acabava de ser instalada ali uma est\u00e1tua do her\u00f3i venezuelano que d\u00e1 nome ao local. \u201cFoi o Fabio que trouxe\u201d, diz Andr\u00e9s, um morador de El Dorado. Fabio Enrique Gonz\u00e1lez Isaza \u00e9 o\u00a0<em>pran<\/em>\u00a0de uma gangue que controla a regi\u00e3o e todos chamam apenas pelo prenome. A est\u00e1tua \u00e9 imponente, de quase 4 metros de altura, e Sim\u00f3n Bol\u00edvar segura um livro cujo t\u00edtulo, escrito em dourado, \u00e9\u00a0<em>Lei<\/em>.<\/p>\n<p>Em El Dorado, a Justi\u00e7a \u00e9 rarefeita, mas \u201clei\u201d \u00e9 o que n\u00e3o falta. Andr\u00e9s me conta: \u201cO \u2018sindicato\u2019 tem dois postos de controle, um deles na entrada da cidade, e ningu\u00e9m rouba, todo mundo respeita. Mas, se algu\u00e9m faz algo errado, \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea denunciar num desses postos, que o sindicato d\u00e1 um jeito.\u201d Segundo os moradores, a fac\u00e7\u00e3o de Fabio estabeleceu uma tabela de castigos para manter a cidade em paz. Quem comete um roubo menor, leva apenas um tiro nas m\u00e3os. Se o roubo for mais expressivo, as m\u00e3os do ladr\u00e3o ser\u00e3o cortadas. Para as mulheres que delinquem, o primeiro castigo \u00e9 ter os cabelos cortados.<\/p>\n<p>Fabio, que nasceu na Col\u00f4mbia, mas naturalizou-se venezuelano, costuma caminhar pelas ruas da cidade em plena luz do dia, sem ser importunado pela pol\u00edcia. \u201cAqui temos seguran\u00e7a gra\u00e7as a ele. Cinco anos atr\u00e1s, tudo era muito perigoso. Agora, n\u00e3o. At\u00e9 os castigos est\u00e3o mais leves. Na semana passada, umas garotas foram denunciadas por quererem enganar com ouro, e s\u00f3 tiveram que dar uma volta carregando um cartaz. Depois, levaram uma surra. Antes a coisa era bem mais brutal\u201d, conta Andr\u00e9s. Outros insistem que Fabio n\u00e3o \u00e9 sanguin\u00e1rio e prefere ouvir os dois lados antes de tomar uma decis\u00e3o. J\u00e1 o irm\u00e3o dele, dizem, tem um temperamento intrat\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cAqui a pol\u00edcia faz pouca coisa, ou nada: s\u00f3 serve de enfeite\u201d, comenta Luis, que veio para El Dorado h\u00e1 poucos anos, tamb\u00e9m atr\u00e1s do ouro. \u201cMas \u00e9 melhor assim. O Fabio arruma a igreja, a escola, o ambulat\u00f3rio e organiza eventos.\u201d<\/p>\n<p>As minas pr\u00f3ximas de El Dorado s\u00e3o divididas e controladas por v\u00e1rios grupos subordinados a Fabio. \u201cEsse \u00e9 o sistema\u201d, diz Andr\u00e9s. \u201cAlguns est\u00e3o satisfeitos, outros n\u00e3o, por causa da comiss\u00e3o que t\u00eam que pagar para a\u00a0<em>causa<\/em>\u201d \u2013 outra g\u00edria para designar um grupo criminoso.<\/p>\n<p>Nas minas, o processo de extra\u00e7\u00e3o do ouro recorre a balsas aparelhadas com dragas hidr\u00e1ulicas no Rio Cuyuni. Com uma mangueira e uma bomba de suc\u00e7\u00e3o, extrai-se do fundo do rio o material que ser\u00e1 processado na mesma balsa. O material descartado volta para o rio, poluindo assim o curso d\u2019\u00e1gua que abastece tanto comunidades ind\u00edgenas como a famigerada pris\u00e3o de El Dorado.<\/p>\n<p>Por causa de seu trabalho humanit\u00e1rio, Pedro visita com frequ\u00eancia o Centro Penitenci\u00e1rio do Oriente \u2013 El Dorado, que foi tema de um livro do criminoso franc\u00eas Henri Charri\u00e8re, conhecido como Papillon. \u201cA popula\u00e7\u00e3o do pres\u00eddio triplicou nos \u00faltimos anos\u201d, diz Pedro, que tamb\u00e9m contou sobre a vida dos condenados: \u201cOs presos t\u00eam que carregar \u00e1gua do rio ou recolher da chuva, porque n\u00e3o existe \u00e1gua encanada. Eles mesmos cozinham com lenha, quando recebem mantimentos dos familiares. Muitas vezes, os funcion\u00e1rios roubam os mantimentos deles ou os ret\u00eam, para revender para os pr\u00f3prios presos.\u201d<\/p>\n<p>Luis, que veio a El Dorado para trabalhar nos garimpos e tem um primo preso no Centro Penitenci\u00e1rio, diz: \u201cA tuberculose e muitas outras doen\u00e7as se espalharam por l\u00e1. Muitas vezes nem o corpo de quem morre \u00e9 liberado. A mal\u00e1ria tamb\u00e9m se alastra.\u201d O Centro tem uma equipe de malariologia, mas, segundo Luis, \u201cos resultados n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis, porque \u00e0s vezes os enfermeiros usam a mesma agulha para picar todo mundo. Toda essa gente morre \u00e0 m\u00edngua, e os familiares n\u00e3o denunciam por medo.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">P<\/span>ouco mais de 80 km ao Sul de El Dorado, fica o vilarejo Las Claritas. V\u00e1rias fac\u00e7\u00f5es criminosas dividem o controle do povoado e da jazida de min\u00e9rio pr\u00f3xima, Las Cristinas, que at\u00e9 2011, quando ocorreu a estatiza\u00e7\u00e3o do setor, era comandada por empresas internacionais. Ali a extra\u00e7\u00e3o do ouro \u00e9 feita com uma t\u00e9cnica chamada fraturamento hidr\u00e1ulico, que consiste na escava\u00e7\u00e3o com fortes jatos de \u00e1gua, que deixam o terreno devastado, com enormes buracos. O estrago ambiental das minas \u00e9 vis\u00edvel em imagens de sat\u00e9lites: enormes feridas marrons no meio da selva. \u00c9 justamente essa t\u00e9cnica de minera\u00e7\u00e3o uma das causas da alta incid\u00eancia de mal\u00e1ria na regi\u00e3o: os buracos abertos de maneira indiscriminada, e cheios de \u00e1gua, transformam-se em confort\u00e1veis h\u00e1bitats para o mosquito\u00a0<em>Anopheles<\/em>, que transmite a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A mal\u00e1ria foi praticamente erradicada na Venezuela na segunda metade do s\u00e9culo XX, fa\u00e7anha atribu\u00edda ao m\u00e9dico Arnoldo Gabald\u00f3n, que conseguiu que o pa\u00eds fundasse um departamento de malariologia com status de minist\u00e9rio e fizesse do controle da doen\u00e7a um bra\u00e7o importante do sistema de sa\u00fade p\u00fablica. \u201cA mal\u00e1ria estava sob controle, mas isso fez com que as pessoas se despreocupassem das causas\u201d, afirma o malariologista \u00c9dgar Izarra. \u201cCom a intensifica\u00e7\u00e3o dos trabalhos de garimpo, a migra\u00e7\u00e3o maci\u00e7a para o estado de Bol\u00edvar e o descaso do governo, a doen\u00e7a voltou com tudo.\u201d<\/p>\n<p>Izarra, que foi aluno de Gabald\u00f3n e dirigiu o Departamento de Malariologia de Bol\u00edvar entre 2000 e 2002, diz que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 recursos humanos nem materiais para combater a doen\u00e7a na Venezuela. \u201cO n\u00famero de doentes \u00e9 um segredo de Estado\u201d, ele diz. Mas a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (oms), em seu relat\u00f3rio mundial de 2018, informou que a Venezuela tinha contabilizado 519 109 casos em 2017, perto do dobro registrado no Brasil, que possui uma popula\u00e7\u00e3o 6,5 vezes maior.<\/p>\n<p>Embora o tipo de mal\u00e1ria mais frequente na Venezuela, a do parasita\u00a0<em>Plasmodium vivax<\/em>, n\u00e3o seja letal, as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, o tratamento inadequado e o estilo de vida nas minas facilitam a repeti\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, havendo pacientes que padecem do mesmo mal dezenas de vezes, sem que sejam necessariamente picadas pelo mosquito outra vez. Izarra explica que atualmente, quando uma pessoa \u00e9 diagnosticada, recebe um tratamento padronizado que enfraquece o parasita, mas n\u00e3o o mata.<\/p>\n<p>\u201cO tratamento virou um neg\u00f3cio\u201d, diz Hugo Lezama, diretor do Colegio de M\u00e9dicos de Ciudad Guayana, que atende numa pequena cl\u00ednica pedi\u00e1trica nessa mesma localidade. Segundo ele, os garimpeiros tomam os primeiros cinco comprimidos do total de catorze e, \u201cassim que sentem alguma melhora, vendem o resto e voltam para as minas\u201d. Os rem\u00e9dios para a mal\u00e1ria s\u00e3o distribu\u00eddos gratuitamente pelo Instituto Venezuelano de Seguridade Social (IVSS), a rede do sistema p\u00fablico de sa\u00fade fundada em 1944.<\/p>\n<p>O tratamento para mal\u00e1ria est\u00e1 dispon\u00edvel nos hospitais, como o Uyapar, um dos poucos em Ciudad Guayana. Orlando, um funcion\u00e1rio com o qual converso nos fundos do hospital, me diz que no Uyapar a maioria das alas est\u00e1 fechada. H\u00e1 escassez de rem\u00e9dios e material hospitalar. \u201cTodo mundo paga cada coisa do pr\u00f3prio bolso\u201d, afirma. Antes de conversarmos, ele pediu para eu me afastar do corredor externo porque a diretora, que \u201cn\u00e3o gosta de jornalistas\u201d, instalara ali uma c\u00e2mera de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>O hospital \u00e9 vigiado por\u00a0<em>milicianos<\/em>, como s\u00e3o chamados na Venezuela os homens e mulheres da reserva militar e guardas nacionais. Com seus uniformes bege e vermelho, eles s\u00e3o geralmente usados pelo governo para intimidar as pessoas e controlar o acesso a locais, como os centros de sa\u00fade p\u00fablica. Lezama afirma que esses\u00a0<em>milicianos<\/em>\u00a0e outros funcion\u00e1rios roubam o pouco que resta dos hospitais, e os pacientes t\u00eam que pagar em d\u00f3lar pelo atendimento m\u00e9dico e por materiais, como seringas ou mesmo algod\u00e3o.<\/p>\n<p>Numa casa ao lado da entrada do hospital, exalava do necrot\u00e9rio um cheiro putrefato. Como n\u00e3o h\u00e1 ar-condicionado, suas portas e janelas estavam abertas. Mais cedo circulara o boato de que cad\u00e1veres tinham \u201cexplodido\u201d, t\u00e3o intenso era o mau cheiro. Mas Orlando esclareceu que o odor era de um cad\u00e1ver que demorou mais de um dia para ser retirado do necrot\u00e9rio, onde n\u00e3o se fazem aut\u00f3psias, nem h\u00e1 como conservar os mortos.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de hospitais e centros de sa\u00fade em algumas cidades de minera\u00e7\u00e3o mais ao Sul \u00e9 bem diferente, gra\u00e7as a doa\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias, algumas feitas por fac\u00e7\u00f5es criminosas, segundo moradores. Em El Callao, por exemplo, o ambulat\u00f3rio \u00e9 impec\u00e1vel, com ar-condicionado em quase todas as salas, disponibilidade de m\u00e9dicos e rem\u00e9dios, al\u00e9m de uma ambul\u00e2ncia, cuja carroceria est\u00e1 estampada com os nomes de seus doadores, entre eles uma companhia estatal, uma associa\u00e7\u00e3o de vizinhos e uma empresa de eventos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">N<\/span>as \u00faltimas tr\u00eas horas de viagem antes de chegar a Santa Elena de Uair\u00e9n, cidade venezuelana na fronteira com o Brasil, a Rodovia Troncal 10 atravessa \u00e1reas de savana muito verdes, emolduradas por\u00a0<em>tepuis<\/em>, montanhas de topos achatados e paredes retas, parecidas com colossais caixotes de pedra despejados sobre o denso matagal. A palavra\u00a0<em>tepui<\/em>, na l\u00edngua dos ind\u00edgenas pemons, que habitam h\u00e1 s\u00e9culos a regi\u00e3o, significa \u201ccasa dos deuses\u201d. Algumas dessas montanhas, de fato, est\u00e3o bem longe do alcance dos homens, como o Monte Roraima, que no seu ponto mais \u00edngreme tem 2 810 metros \u2013 quase sete vezes a altura do Empire State Building, em Nova York.<\/p>\n<p>Cerca de vinte anos atr\u00e1s, visitei essa regi\u00e3o, como faziam centenas de jovens venezuelanos nas f\u00e9rias. A viagem inclu\u00eda uma parada na Pedra da Virgem, uma rocha monumental numa curva da Troncal 10, e depois uma travessia pelo Parque Nacional Canaima, territ\u00f3rio de 30 mil km<sup>2<\/sup>\u00a0com cachoeiras gigantescas, como Salto \u00c1ngel, a mais alta do mundo. Agora, na entrada do parque, o que se v\u00ea s\u00e3o lix\u00f5es \u2013 o sinal mais evidente das amea\u00e7as que pairam sobre o lugar. Tamb\u00e9m se percebem restos de inc\u00eandio na savana e alguns dos antigos acampamentos para turistas foram abandonados, transformando-se em largos espa\u00e7os desolados. No Parque Nacional, h\u00e1 mais de cem comunidades ind\u00edgenas pemons.<\/p>\n<p>Melchor Flores \u00e9 um l\u00edder pemom que trabalha como auxiliar do prefeito de Santa Elena de Uair\u00e9n. Ele me recebe em seu escrit\u00f3rio segurando a Constitui\u00e7\u00e3o venezuelana, e diz que enfrenta militares, pol\u00edticos e at\u00e9 l\u00edderes pemons que n\u00e3o seguem o que ele considera ser o legado de Hugo Ch\u00e1vez, de quem \u00e9 um resiliente admirador.<\/p>\n<p>Sem largar a Constitui\u00e7\u00e3o, conta que a minera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 permitida em apenas um dos oito setores ind\u00edgenas no estado Bol\u00edvar \u2013 seis deles no Parque Nacional Canaima. \u201cOs pr\u00f3prios capit\u00e3es [<em>como s\u00e3o chamados os l\u00edderes ind\u00edgenas<\/em>] que participaram da reda\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o est\u00e3o indo contra o que ela estabelece. Lutamos duro por isso, e agora, como o ouro ficou caro, o capit\u00e3o est\u00e1 destruindo a pr\u00f3pria terra.\u201d<\/p>\n<p>\u201cOs garimpeiros entram nas nossas terras e n\u00e3o temos como expuls\u00e1-los\u201d, justifica o l\u00edder pemom Francisco, com quem conversei no quintal de sua casa, na comunidade onde vive, no Parque Nacional. Pouco antes de me encontrar, ele tinha se reunido com uma pessoa que obtivera uma concess\u00e3o do governo para explorar uma mina dentro do seu territ\u00f3rio. Francisco, que \u00e9 um homem desconfiado e de poucas palavras, explicou que alguns ind\u00edgenas permitem o garimpo em sua \u00e1rea dentro do parque cobrando uma comiss\u00e3o de cerca de 10% da produ\u00e7\u00e3o, e por vezes eles pr\u00f3prios v\u00e3o a campo para garimpar.<\/p>\n<p>\u201cOs ind\u00edgenas s\u00e3o os verdadeiros donos da terra, mas sempre saem perdendo\u201d, afirma o padre Alberto, que h\u00e1 anos atua junto \u00e0s comunidades da regi\u00e3o. \u201cFicam com suas \u00e1reas desmatadas, a mal\u00e1ria e as \u00e1guas polu\u00eddas com merc\u00fario, entre outros venenos do garimpo.\u201d Muitos s\u00e3o explorados nas minas, enquanto suas mulheres s\u00e3o submetidas \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o, segundo o padre. \u201cAlguns tentam se sustentar com o garimpo artesanal de ouro e diamantes. A suposta civiliza\u00e7\u00e3o os transformou em predadores.\u201d A febre do ouro n\u00e3o poupa nem os \u00edndios.<\/p>\n<p>Santa Elena de Uair\u00e9n tem crescido muito nos \u00faltimos anos, com novas constru\u00e7\u00f5es que arrasaram morros antes verdes e desabitados. A popula\u00e7\u00e3o, conforme o \u00faltimo censo, \u00e9 de quase 30 mil pessoas, mas com a crise no pa\u00eds e o aumento da migra\u00e7\u00e3o estima-se que quase dobrou. Milhares de venezuelanos se mudaram para essa cidade na fronteira com Roraima, em busca de comida e trabalho \u2013 e continuam se mudando. No com\u00e9rcio, tudo \u00e9 tabelado e vendido em reais, mas tamb\u00e9m se aceita ouro como pagamento em alguns lugares. A cidade tem numerosas casas de c\u00e2mbio e neg\u00f3cios de compra e venda de ouro, com empregados oferecendo em cada esquina: \u201cReais! D\u00f3lares! C\u00e2mbio!\u201d<\/p>\n<p>Uma mina de ouro, conhecida como La Planta, numa das comunidades ind\u00edgenas pr\u00f3ximas do Centro, ainda \u00e9 explorada. \u201cA mina s\u00f3 sobrevive por causa das pessoas que vivem na \u00e1rea e n\u00e3o podem ir para mais longe\u201d, diz a escritora Morelia Morillo, que mora em Santa Elena de Uair\u00e9n. \u201cVamos supor que o ind\u00edgena de uma comunidade pr\u00f3xima precise de dinheiro para um rem\u00e9dio e esteja em Santa Elena. Ele vai ent\u00e3o para essa mina e tenta achar algum ouro. \u00c9 uma ilus\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">N<\/span>a Troncal 10, somos parados no \u00faltimo posto de controle antes de chegarmos a Pacaraima, no Brasil. Ningu\u00e9m nos revista, mas um guarda nacional pede \u201cuma colabora\u00e7\u00e3o\u201d de 20 litros de gasolina. Depois de explicar que n\u00e3o temos mais combust\u00edvel, seguimos em frente. Esse \u00e9 o trecho mais movimentado da rodovia. Como custa 10 reais a passagem em um carro compartilhado de Santa Elena a Pacaraima \u2013 cidades separadas por apenas 16,6 km \u2013, as pessoas v\u00e3o e v\u00eam durante todo o dia, especialmente os venezuelanos, a fim de fazer compras ou levar as crian\u00e7as na escola em territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p>Viam-se poucos venezuelanos em Pacaraima quando a visitei pela primeira vez, tamb\u00e9m h\u00e1 vinte anos. Eles raramente iam at\u00e9 l\u00e1, pois Santa Elena era na \u00e9poca uma cidade mais atrativa e com melhores servi\u00e7os. Hoje, a pequena cidade em Roraima virou a porta de entrada dos venezuelanos no Brasil. Com isso, sua popula\u00e7\u00e3o, que era de pouco mais de 10 mil habitantes em 2010, passou a 17,4 mil em 2019, na estimativa do IBGE. O jornal\u00a0<em>O Globo<\/em>\u00a0apontou em julho deste ano que, segundo a prefeitura do munic\u00edpio, o n\u00famero de venezuelanos atendidos no \u00fanico hospital da cidade havia aumentado 438%\u00a0entre 2015 e 2018, passando de 1 856 para 10 mil. Nas escolas municipais, dos 2 755 alunos matriculados, 917 eram venezuelanos.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a imigra\u00e7\u00e3o que tem mudado a vida de Pacaraima. No \u00faltimo ano, o neg\u00f3cio do ouro modificou brutalmente a cidade. Nas ruas, multiplicam-se as lojas de compra e venda de ouro e artigos para garimpo, e at\u00e9 vendedores ambulantes nas cal\u00e7adas oferecem lanternas e outras ferramentas para o trabalho nas minas. O ouro tamb\u00e9m passou a circular no com\u00e9rcio, pois h\u00e1 venezuelanos que o utilizam para suas compras.<\/p>\n<p>Perto da rua principal, caminhonetes oferecem transporte de Pacaraima at\u00e9 as minas na Venezuela. Custa 150 reais uma passagem at\u00e9 Las Claritas, a 248 km, onde est\u00e1 a grande jazida mais pr\u00f3xima. \u201cAntigamente oferec\u00edamos as viagens a partir de Santa Elena, mas mudamos para c\u00e1 porque l\u00e1 os guardas venezuelanos sempre pediam dinheiro\u201d, diz um dos cobradores dessas rotas informais. Ele aproveita para me oferecer uma passagem com desconto.<\/p>\n<p>O motorista Alessandro tem 26 anos e nasceu em Boa Vista, capital de Roraima. \u00c9 um rapaz alto, com os bra\u00e7os cheios de tatuagens. \u00c9 ele quem vai conduzir a pr\u00f3xima caminhonete para Las Claritas. \u201cEst\u00e1 foda por l\u00e1\u201d, comenta, quando digo que sou venezuelana. \u201cVoc\u00ea v\u00ea pessoas sempre sem grana, indo e vindo, sem comida.\u201d Pergunto a ele se j\u00e1 tentou a sorte no garimpo. \u201cMe convidaram para entrar nas minas, tem muito brasileiro indo com maquinarias e para trabalhar. Falam que tem muito ouro. Mas eu n\u00e3o encaro, n\u00e3o. Se \u00e9 t\u00e3o bom como dizem, porque as pessoas est\u00e3o desse jeito, t\u00e3o estragadas e doentes?\u201d<\/p>\n<p>Enquanto eu voltava \u00e0 rua principal de Paracaima para pegar o t\u00e1xi que me levaria a Boa Vista, pude ouvir o cobrador das caminhonetes gritar: \u201cLas Claritas! Las Claritas!\u201d Ele se esfor\u00e7ava na pron\u00fancia do nome melodioso da cidade, mas seu convite me encheu de tristeza.<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/eldorado-tragico\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p><sup>[1]<\/sup>\u00a0Para preservar algumas pessoas entrevistadas nesta reportagem, elas foram identificadas com prenomes fict\u00edcios.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"post-fim no-print\">\n<div class=\"post-fim-autor\">\n<div>\n<h4><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/colaborador\/paula-ramon\/\">PAULA RAM\u00d3N<\/a> &#8211; Jornalista venezuelana, \u00e9 correspondente da AFP em S\u00e3o Paulo<\/h4>\n<\/div>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"LsHqg9xRNn\"><p><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/eldorado-tragico\/\">Eldorado tr\u00e1gico<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe title=\"&#8220;Eldorado tr\u00e1gico&#8221; &#8212; revista piau\u00ed\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/eldorado-tragico\/embed\/#?secret=LsHqg9xRNn\" data-secret=\"LsHqg9xRNn\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cheguei a Ciudad Guayana, no Sudeste da Venezuela, no in\u00edcio da noite. Era ter\u00e7a-feira, mas havia poucos carros circulando. As ruas, quase \u00e0s escuras devido \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, tamb\u00e9m estavam silenciosas. Tanto assim que na entrada do hotel era poss\u00edvel ouvir os grilos no jardim. \u201cAs pessoas se recolhem cedo\u201d, disse J\u00fanior Hern\u00e1ndez, o motorista que me acompanhava na cidade. \u201cPor causa da viol\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 muitos locais abertos depois das oito da noite.\u201d<\/p>\n<p>De fato. Quando sa\u00edmos para jantar, encontramos aberta apenas uma\u00a0arepera, quase vazia, onde me chamou a aten\u00e7\u00e3o um cartaz que dizia: \u201cProibido usar armas de fogo neste espa\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>Areperas\u00a0s\u00e3o pequenos estabelecimentos, parecidos com lanchonetes, que servem\u00a0arepas, o tradicional p\u00e3o de milho, com recheios variados: carne louca,\u00a0pel\u00faa\u00a0(queijo amarelo com carne) ou\u00a0domin\u00f3\u00a0(feij\u00e3o com queijo). Pedi um cl\u00e1ssico da cozinha regional,\u00a0arepa\u00a0com queijo\u00a0guayan\u00e9s, e um suco de maracuj\u00e1. Minha conta deu 70 mil bol\u00edvares, ou cerca de 3,50 d\u00f3lares, no c\u00e2mbio do dia \u2013 quase duas vezes o sal\u00e1rio m\u00ednimo oficial da Venezuela, que era 40 mil bol\u00edvares no in\u00edcio de outubro, quando fui para l\u00e1 (hoje \u00e9 150 mil bol\u00edvares).<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":12587,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-12592","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-radar","category-3","description-off"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12592","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12592"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12592\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12598,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12592\/revisions\/12598"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12587"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12592"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12592"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12592"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}