{"id":25599,"date":"2021-07-20T17:03:50","date_gmt":"2021-07-20T20:03:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.amazoniasocioambiental.org\/radar\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe\/"},"modified":"2021-08-06T07:11:44","modified_gmt":"2021-08-06T10:11:44","slug":"a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/radar\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe\/","title":{"rendered":"\u201cA Amaz\u00f4nia est\u00e1 morrendo\u201d e o Brasil \u00e9 o principal culpado, diz cientista do Inpe"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: right;\"><strong><span class=\"date\">Por <\/span>Anna Beatriz Anjos<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\"><strong><span class=\"date\">Ag\u00eancia P\u00fablica<\/span><\/strong><\/div>\n<div class=\"col-4 col-md-3\" style=\"text-align: right;\"><strong><span class=\"date\">20 de julho de 2021<br \/>\n<\/span><\/strong><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma semana, o telefone da pesquisadora Luciana Gatti n\u00e3o para de tocar. Coordenadora do Laborat\u00f3rio de Gases de Efeito Estufa (LaGEE) do Inpe, ela liderou uma <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-021-03629-6.epdf?no_publisher_access=1&amp;r3_referer=nature\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pesquisa<\/a>\u00a0publicada na \u00faltima quarta-feira (14) pela conceituada revista\u00a0<em>Nature<\/em>\u00a0com conclus\u00f5es importantes sobre a realidade da Amaz\u00f4nia: se antes a floresta funcionava como um sumidouro de carbono, agora j\u00e1 emite mais CO<sub>2\u00a0<\/sub>do que consegue absorver, o que pode contribuir para o agravamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no mundo. Cerca de 60% da Amaz\u00f4nia fica no Brasil, que compartilha o bioma com outros oito pa\u00edses.<\/p>\n<p>De 2010 a 2018, a equipe comandada por Gatti mediu os n\u00edveis de di\u00f3xido de carbono em quatro localidades da Amaz\u00f4nia e concluiu que as regi\u00f5es com as maiores taxas de libera\u00e7\u00e3o do g\u00e1s de efeito estufa, na parte leste do bioma, s\u00e3o as que mais sofreram desmatamento. A por\u00e7\u00e3o sudeste, que abrange o sul do Par\u00e1 e o norte do Mato Grosso, \u00e9 a mais afetada e est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia. \u201cEstamos perdendo a floresta amaz\u00f4nica nessa regi\u00e3o\u201d, alerta a cientista.<\/p>\n<p>Para frear o processo, Gatti defende a morat\u00f3ria do desmatamento e das queimadas por pelo menos cinco anos em toda a Amaz\u00f4nia, mas sobretudo na regi\u00e3o sudeste, que precisa imediatamente tamb\u00e9m de projetos de recupera\u00e7\u00e3o florestal. \u201cNum cen\u00e1rio desses, tenho f\u00e9 que exista possibilidade de retorno\u201d, afirma a pesquisadora. No entanto, ela v\u00ea dist\u00e2ncia entre a atual pol\u00edtica ambiental e as medidas necess\u00e1rias. \u201cO Brasil tem um papel central e com certeza uma responsabilidade muito maior, porque n\u00e3o s\u00f3 temos a maior parte da Amaz\u00f4nia, como tamb\u00e9m a maior parte do desmatamento e das queimadas est\u00e1 aqui dentro. E o governo est\u00e1 fazendo o inverso do que dever\u00edamos estar fazendo.\u201d<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\">\n<div class=\"imageAndSource\"><\/div>\n<\/figure>\n<p><strong>Por que a Amaz\u00f4nia deixou de atuar como um \u201csumidouro\u201d de carbono e passou a emitir mais\u00a0<\/strong><strong>CO<\/strong><strong><sub>2\u00a0<\/sub><\/strong><strong>do que absorver?<\/strong><strong><sub>\u00a0<\/sub><\/strong><\/p>\n<p id=\"reduziu-24%-de-chuva\">O que a gente encontrou \u00e9 que as \u00e1reas que est\u00e3o muito desmatadas \u2013 dentro da nossa amostragem de quatro lugares de estudo \u2013, em torno ou acima de 30%, j\u00e1 mostram uma mudan\u00e7a na condi\u00e7\u00e3o [de absorver carbono] muito grande na esta\u00e7\u00e3o seca. A teoria que elaboramos \u00e9 de que a condi\u00e7\u00e3o de seca extrema todo ano em agosto, setembro e outubro estava levando a floresta, al\u00e9m de reduzir a absor\u00e7\u00e3o, a aumentar a mortalidade [das plantas]. Imagina uma \u00e1rvore: na super seca, com uma disponibilidade de \u00e1gua min\u00fascula, no m\u00ednimo as folhas come\u00e7am a ficar marrons, a cair e tem esp\u00e9cie que chega a hibernar: caem todas as folhas e elas param de fazer fotoss\u00edntese, mas continuam respirando. Sob estresse muito grande, a gente entende que as plantas n\u00e3o s\u00f3 emitem mais carbono do que absorvem, mas chegam at\u00e9 a morrer. Na parte sudeste da Amaz\u00f4nia [que compreende o Sul do Par\u00e1 e o norte do Mato Grosso], onde observamos o maior aumento de temperatura, aumentou em agosto, setembro e outubro 2,5 graus. Se a gente olhar s\u00f3 agosto e setembro, aumentou 3,1 graus Celsius nos \u00faltimos 40 anos, e reduziu 24% de chuva. Imagina uma floresta tropical \u00famida: como \u00e9 que uma \u00e1rvore t\u00edpica de uma regi\u00e3o com abund\u00e2ncia de chuva e temperaturas amenas vai sobreviver numa situa\u00e7\u00e3o dessas? O que come\u00e7a a acontecer \u00e9 que as \u00e1rvores mais sens\u00edveis morrem e s\u00f3 as mais resistentes sobrevivem.<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 o momento, o que \u00e9 poss\u00edvel afirmar sobre os principais fatores para essa mudan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Basicamente, desmatamento e queimadas, porque eles v\u00e3o mudar o clima, principalmente na esta\u00e7\u00e3o seca. E a\u00ed entra na bola de neve. A esta\u00e7\u00e3o seca vai fazer a floresta ficar cada vez mais f\u00e1cil de queimar, e a coisa s\u00f3 se retroalimenta.<\/p>\n<p><strong>Com base nas conclus\u00f5es do artigo, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que o sudeste da Amaz\u00f4nia est\u00e1 passando por um processo de savaniza\u00e7\u00e3o? Isso pode representar a chegada do\u00a0<\/strong><strong><em>tipping point,\u00a0<\/em><\/strong><strong>o ponto de n\u00e3o retorno, em que a floresta perde suas caracter\u00edsticas irreversivelmente?\u00a0<\/strong><\/p>\n<div id=\"alliesCallToActionBox\" class=\"my-5 px-5 py-4\">\n<div class=\"headings\"><\/div>\n<div class=\"text-right\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Com certeza, se a gente n\u00e3o mudar nada, esse \u00e9 o futuro \u2013 isso se j\u00e1 n\u00e3o chegamos, pois \u00e9 muito dif\u00edcil dizer se j\u00e1 n\u00e3o estamos num ponto de n\u00e3o retorno. Hoje, o que d\u00e1 para dizer \u00e9 que tem mais \u00e1rvores morrendo do que crescendo no sudeste da Amaz\u00f4nia. Isso \u00e9 uma certeza, a gente v\u00ea que, mesmo subtraindo a emiss\u00e3o proveniente das queimadas, a cada ano que passa a floresta emite mais carbono. O segundo ponto \u00e9 que tem menos chuva, maiores temperaturas e o desmatamento est\u00e1 desenfreado. O cara desmata na esta\u00e7\u00e3o chuvosa e espera meses para seca e, quando vai tacar fogo, a floresta ao redor que ele n\u00e3o suprimiu est\u00e1 super seca, ent\u00e3o o fogo acaba queimando a floresta n\u00e3o desmatada, o que tamb\u00e9m representa emiss\u00e3o de carbono. Estamos jogando um monte de carbono na atmosfera e ajudando a acelerar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, e estamos liberando menos vapor de \u00e1gua na atmosfera \u2013 e ent\u00e3o reduzindo as chuvas \u2013 e contribuindo para que a temperatura aumente. E ent\u00e3o essa floresta vai estar mais suscet\u00edvel a ser queimada. As coisas v\u00e3o se retroalimentando, \u00e9 um<em>\u00a0looping<\/em>\u00a0\u2013 cada ano est\u00e1 pior. A regi\u00e3o sudeste da Amaz\u00f4nia est\u00e1 em emerg\u00eancia, ali n\u00f3s estamos perdendo a floresta amaz\u00f4nica. Tinha que ter uma medida j\u00e1 de proibi\u00e7\u00e3o de queimadas e desmatamento nos estados do Par\u00e1 e do Mato Grosso. Essa regi\u00e3o que j\u00e1 est\u00e1 mais emitindo carbono do que absorvendo \u00e9 do meio do Par\u00e1 para baixo.<\/p>\n<p><strong>Diante dessa situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia, o que \u00e9 preciso fazer para evitar a chegada ao ponto de n\u00e3o retorno na regi\u00e3o sudeste da Amaz\u00f4nia?<\/strong><\/p>\n<p id=\"haver-uma-morat\u00f3ria\">Vamos fazer um exerc\u00edcio de sonhar: nessa regi\u00e3o, v\u00e3o ficar proibidas queimadas de julho a novembro, vai haver uma morat\u00f3ria do desmatamento e vamos ter muitos projetos de recupera\u00e7\u00e3o florestal e de promo\u00e7\u00e3o da economia com a floresta em p\u00e9. Num cen\u00e1rio desses, tenho f\u00e9 que exista possibilidade de retorno. Imaginemos uma bola de neve positiva: neste ano n\u00e3o teremos nem queimadas ou incremento do desmatamento, ent\u00e3o a floresta ter\u00e1 um respiro e poder\u00e1 se recuperar um pouco. Desse modo, no ano seguinte, teremos, no m\u00ednimo, uma estabiliza\u00e7\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o de chuva ou at\u00e9 um pequeno aumento caso a floresta cres\u00e7a um pouco. Sabemos que este ano isso n\u00e3o acontecer\u00e1 porque j\u00e1 tivemos aumento do desmatamento, que vai causar decomposi\u00e7\u00e3o [dos restos de material org\u00e2nico das \u00e1rvores] mesmo que n\u00e3o taquem fogo. Quanto mais crescer a floresta, mais ela vai evapotranspirar [\u201cevapotranspira\u00e7\u00e3o\u201d e o processo de perda de \u00e1gua do solo por evapora\u00e7\u00e3o e perda de \u00e1gua da planta por transpira\u00e7\u00e3o], mais vai ter chuva e menor fica a temperatura, ent\u00e3o ela vai ter mais condi\u00e7\u00e3o de se recuperar. Mas, no m\u00ednimo, \u00e9 preciso haver uma morat\u00f3ria de cinco anos nas queimadas e no desmatamento e a cria\u00e7\u00e3o de projetos de reflorestamento nessa regi\u00e3o. Essa \u00e9 a tarefa que est\u00e1 colocada e a ci\u00eancia pode contribuir muito apontando a dire\u00e7\u00e3o que precisamos\u00a0 tomar. Na verdade, a morat\u00f3ria do desmatamento precisa ser na Amaz\u00f4nia inteira.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\">\n<div class=\"imageAndSource\">\n<div class=\"inline-image-source image-source p-1 text-right\">Alex Ribeiro\/Ag\u00eancia Par\u00e1<\/div>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/webp-express\/webp-images\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img2-1.jpg.webp 1500w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/webp-express\/webp-images\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img2-1-800x533.jpg.webp 800w\" type=\"image\/webp\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" data-srcset=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/webp-express\/webp-images\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img2-1.jpg.webp 1500w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/webp-express\/webp-images\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img2-1-800x533.jpg.webp 800w\" \/><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-85873 webpexpress-processed lazyloaded\" src=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img2-1.jpg\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" srcset=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img2-1.jpg 1500w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img2-1-800x533.jpg 800w\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" data-src=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img2-1.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img2-1.jpg 1500w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img2-1-800x533.jpg 800w\" data-sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/picture>\n<\/div><figcaption>Luciana Gatti: \u201c\u00e9 muito dif\u00edcil dizer se j\u00e1 n\u00e3o estamos num ponto de n\u00e3o retorno. Hoje, o que d\u00e1 para dizer \u00e9 que tem mais \u00e1rvores morrendo do que crescendo no sudeste da Amaz\u00f4nia\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como a degrada\u00e7\u00e3o florestal causada pelo desmatamento reduz a capacidade da floresta amaz\u00f4nica de absorver carbono?<\/strong><\/p>\n<p>Tem um estudo orientado pelo professor Luiz Arag\u00e3o [tamb\u00e9m pesquisador do Inpe e um dos autores do estudo liderado por Gatti] sobre uma floresta prim\u00e1ria [aquela que nunca foi desmatada] que queimou. Num primeiro momento, essa floresta queima e joga CO<sub>2\u00a0<\/sub>na atmosfera, mas n\u00e3o para por a\u00ed, pois ao longo dos trinta anos seguintes uma parte dela vai morrer e provocar emiss\u00f5es por decomposi\u00e7\u00e3o, que representam 72% do total das emiss\u00f5es \u2013 isso significa que n\u00e3o h\u00e1 libera\u00e7\u00e3o de carbono apenas no momento em que a floresta queima. H\u00e1 ainda outra informa\u00e7\u00e3o: o tanto que essa floresta se recupera equivale apenas a um ter\u00e7o do total das emiss\u00f5es. A floresta queimada representar\u00e1 um grande volume de emiss\u00f5es que n\u00e3o est\u00e1 sendo computado e que, pelo jeito, \u00e9 at\u00e9 maior do que o proveniente de desmatamento, quando o tronco, que \u00e9 o grosso da massa de carbono, vai para venda. A degrada\u00e7\u00e3o faz com que, no ano seguinte [ao desmatamento], haja menos \u00e1rvores para evapotranspirar e, por consequ\u00eancia, menos chuva, temperaturas mais altas e uma floresta ainda mais seca, o que far\u00e1 com que o fogo se alastre mais rapidamente. \u00c9 f\u00e1cil da gente concluir que a degrada\u00e7\u00e3o, nas regi\u00f5es com um volume de desmatamento muito alto, \u00e9 muito superior \u00e0s regi\u00f5es com taxas menores de desmatamento.<\/p>\n<p><strong>De que maneira essas pr\u00e1ticas podem impactar o regime de chuvas e quais as consequ\u00eancias disso para todo o pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>As \u00e1rvores jogam vapor de \u00e1gua na atmosfera \u2013 elas fazem parte da composi\u00e7\u00e3o da chuva. Na Amaz\u00f4nia, as massas de ar entram na floresta levando a umidade do oceano, a\u00ed chove e h\u00e1 uma reposi\u00e7\u00e3o desse vapor de \u00e1gua para que continue o processo de chuva a partir da evapora\u00e7\u00e3o dos rios, lagos, \u00e1reas alagadas e a evapotranspira\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores \u2013 esta \u00faltima responde em m\u00e9dia por um ter\u00e7o da reposi\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, mas pode variar de 25% a 50%. Se a gente j\u00e1 desmatou 20% da Amaz\u00f4nia, j\u00e1 reduzimos a reposi\u00e7\u00e3o do vapor de \u00e1gua na atmosfera por meio das \u00e1rvores. O problema \u00e9 que esses 20% de desmatamento n\u00e3o est\u00e3o distribu\u00eddos igualmente pelo bioma, est\u00e3o mais concentrados no que chamamos de \u201carco do desmatamento\u201d. Neste cintur\u00e3o, a redu\u00e7\u00e3o de precipita\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 muito grande e se intensifica ainda mais na esta\u00e7\u00e3o seca. H\u00e1 uma mudan\u00e7a muito intensa nos meses de agosto, setembro e outubro, exatamente quando vemos um grande n\u00famero de queimadas no Brasil, porque j\u00e1 est\u00e1 chovendo no m\u00ednimo 20% a menos na Amaz\u00f4nia. Ent\u00e3o, para o resto do Brasil e tamb\u00e9m para uma parte da Am\u00e9rica do Sul \u2013 Paraguai, Uruguai etc, j\u00e1 que a massa de ar vai descendo \u2013, h\u00e1 menos chuva tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>O artigo revela diferen\u00e7as significativas entre as por\u00e7\u00f5es leste \u2013 onde fica o Brasil \u2013 e oeste da Amaz\u00f4nia em termos de capacidade de absor\u00e7\u00e3o e emiss\u00e3o de\u00a0<\/strong><strong>CO<\/strong><strong><sub>2<\/sub><\/strong><strong>. Por que h\u00e1 diverg\u00eancias t\u00e3o gritantes entre elas?<\/strong><\/p>\n<p id=\"\u00e9-o-pior-pa\u00eds-no-cuidado\">A parte leste [considerada no estudo] tem mais ou menos 2 milh\u00f5es de km\u00b2 e est\u00e1 30% desmatada, em m\u00e9dia, enquanto a parte oeste est\u00e1 em m\u00e9dia 11%. Quando calculamos o quanto a floresta est\u00e1 conseguindo compensar as emiss\u00f5es de CO<sub>2\u00a0<\/sub>decorrentes das queimadas, verifica-se que na Pan-Amaz\u00f4nia essa taxa \u00e9 de 30%. Se considerarmos apenas o Brasil, ela cai para 18%, pois a maior o desmatamento aqui \u00e9 muito maior do que nos outros pa\u00edses da Amaz\u00f4nia. Podemos dizer com toda certeza que o Brasil \u00e9 o pior pa\u00eds no cuidado com a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>O estudo traz resultados referentes ao per\u00edodo de 2010 a 2018, mas \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a Amaz\u00f4nia vem perdendo sua capacidade de absorver carbono h\u00e1 mais tempo?<\/strong><\/p>\n<p>Nosso estudo s\u00f3 tem nove anos, sabemos que nesse per\u00edodo a mortalidade na Amaz\u00f4nia aumentou. O professor Roel Brienen [da Universidade de Leeds, no Reino Unido], em um estudo publicado na\u00a0<em>Nature<\/em>\u00a0em 2015, viu muito claramente a mortalidade na Amaz\u00f4nia aumentando desde 1990. Dois anos depois, o professor Oliver Phillips, coordenador do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.rainfor.org\/\">projeto RAINFOR<\/a>\u00a0[que monitora o comportamento do bioma amaz\u00f4nico em diversos aspectos], separou a Amaz\u00f4nia em cinco partes e mostrou que a regi\u00e3o sudeste faz uma remo\u00e7\u00e3o menor de carbono, que a cada ano diminui mais. Ent\u00e3o, a gente j\u00e1 tinha essa sinaliza\u00e7\u00e3o de outros estudos. No nosso cen\u00e1rio de nove anos, a gente enxerga uma variabilidade ano a ano do balan\u00e7o de carbono porque tem anos em que chove mais e anos em que chove menos, anos mais quentes, anos mais frios \u2013 cada ano sai de um jeito. \u00c9 por isso que tomamos a decis\u00e3o de fazer o estudo de uma d\u00e9cada. Ainda n\u00e3o completou uma d\u00e9cada, temos nove anos a\u00ed, mas a gente j\u00e1 tinha o entendimento de que est\u00e1 havendo uma interfer\u00eancia nos fluxos de carbono. Ainda teremos mais quatro anos de medidas, e o que queremos agora \u00e9 fazer parcerias mais estreitas com quem est\u00e1 estudando a floresta l\u00e1 embaixo, para entender melhor o que est\u00e1 acontecendo com ela. Se a gente conseguir separar a decomposi\u00e7\u00e3o da absor\u00e7\u00e3o, vamos conseguir ver o que mais tem interferido nessa redu\u00e7\u00e3o da absor\u00e7\u00e3o de CO<sub>2<\/sub>. Quanto mais voc\u00ea vai desenvolvendo ferramentas, mais voc\u00ea vai entendendo. N\u00e3o d\u00e1 pra dizer que entendemos tudo na Amaz\u00f4nia, ainda tem muito para entender. A natureza \u00e9 t\u00e3o complexa que tudo est\u00e1 interligado com tudo. Eu gosto de pensar na natureza como um jogo de domin\u00f3, onde voc\u00ea p\u00f5e todos os domin\u00f3s um do lado do outro e na hora que voc\u00ea mexe em um, na sequ\u00eancia mexe com todos os outros. O efeito da nossa interfer\u00eancia na natureza \u00e9 muito maior do que a gente imagina.<\/p>\n<p><strong>Sabendo das taxas crescentes de desmatamento e focos de queimadas nos \u00faltimos anos, pode-se afirmar que a pol\u00edtica ambiental do governo Bolsonaro acentua essa tend\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Temos as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas interferindo nesse processo e o estamos acelerando ainda mais com taxas recordes de desmatamento e queimadas na Amaz\u00f4nia. Basicamente, estamos multiplicando os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas com o desmatamento na Amaz\u00f4nia. N\u00f3s t\u00ednhamos na Amaz\u00f4nia uma seguran\u00e7a, uma prote\u00e7\u00e3o contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, porque ela \u00e9 um corpo de \u00e1rvores gigantescas jogando um monte de vapor de \u00e1gua na atmosfera e ajudando a resfriar. Ela deveria estar reduzindo os impactos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica para n\u00f3s, mas estamos desmatando, queimando e transformando a Amaz\u00f4nia numa acelera\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. A gente tem que defender a Amaz\u00f4nia, ela est\u00e1 sendo assassinada, est\u00e1 morrendo.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\">\n<div class=\"imageAndSource\">\n<div class=\"inline-image-source image-source p-1 text-right\">Vin\u00edcius Mendon\u00e7a\/Ibama<\/div>\n<picture><source srcset=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/webp-express\/webp-images\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img3.jpg.webp\" type=\"image\/webp\" data-srcset=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/webp-express\/webp-images\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img3.jpg.webp\" \/><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-85863 webpexpress-processed lazyloaded\" src=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img3.jpg\" alt=\"\" width=\"799\" height=\"533\" data-src=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe-img3.jpg\" \/><\/picture>\n<\/div><figcaption>\u00c1rea desmatada em Novo Progresso, no sudoeste do Par\u00e1, que comp\u00f5em a regi\u00e3o sudeste da Amaz\u00f4nia, onde as emiss\u00f5es de carbono s\u00e3o mais altas, segundo o artigo<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E o Brasil tem papel fundamental nisso\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Exato. O Brasil tem um papel central e com certeza uma responsabilidade muito maior, porque n\u00e3o s\u00f3 temos a maior parte da Amaz\u00f4nia, como tamb\u00e9m a maior parte do desmatamento e das queimadas est\u00e1 aqui dentro. E o governo est\u00e1 fazendo o inverso do que dever\u00edamos estar fazendo. Vou dar um outro exemplo de condu\u00e7\u00e3o errada: estamos passando por um momento de escassez de chuvas, o que est\u00e1 impactando a gera\u00e7\u00e3o de energia, porque os reservat\u00f3rios est\u00e3o baixos por conta das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, do desmatamento e das queimadas. Qual \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o brilhante? Termel\u00e9tricas a g\u00e1s, que v\u00e3o jogar ainda mais gases de efeito estufa na atmosfera e s\u00f3 v\u00e3o piorar o cen\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Como os territ\u00f3rios ind\u00edgenas podem ajudar a frear esse processo todo?<\/strong><\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, o que a gente v\u00ea \u00e9 que as reservas ind\u00edgenas s\u00e3o as que mais efetivamente protegem a floresta. O desmatamento e a degrada\u00e7\u00e3o s\u00e3o menores nas terras ind\u00edgenas, exceto quando os desmatadores, os mineradores, grileiros, invadem essas terras. Os ind\u00edgenas cuidam da floresta, t\u00eam um modo de vida que n\u00e3o depreda, n\u00e3o desmata. Eles fazem o m\u00ednimo para sobreviv\u00eancia, n\u00e3o existe essa ambi\u00e7\u00e3o de fazer aquele monte de planta\u00e7\u00e3o para vender bastante, ficar rico e criar um monte de gado para exportar.<\/p>\n<div><a href=\"https:\/\/apublica.org\/2021\/07\/a-amazonia-esta-morrendo-e-o-brasil-e-o-principal-culpado-diz-cientista-do-inpe\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Amaz\u00f4nia est\u00e1 morrendo\u201d e o Brasil \u00e9 o principal culpado, diz cientista do Inpe<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma semana, o telefone da pesquisadora Luciana Gatti n\u00e3o para de tocar. Coordenadora do Laborat\u00f3rio de Gases de Efeito Estufa (LaGEE) do Inpe, ela liderou uma pesquisa\u00a0publicada na \u00faltima quarta-feira (14) pela conceituada revista\u00a0Nature\u00a0com conclus\u00f5es importantes sobre a realidade da Amaz\u00f4nia: se antes a floresta funcionava como um sumidouro de carbono, agora j\u00e1 emite mais CO2\u00a0do que consegue absorver, o que pode contribuir para o agravamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no mundo. Cerca de 60% da Amaz\u00f4nia fica no Brasil, que compartilha o bioma com outros oito pa\u00edses.<\/p>\n<p>De 2010 a 2018, a equipe comandada por Gatti mediu os n\u00edveis de di\u00f3xido de carbono em quatro localidades da Amaz\u00f4nia e concluiu que as regi\u00f5es com as maiores taxas de libera\u00e7\u00e3o do g\u00e1s de efeito estufa, na parte leste do bioma, s\u00e3o as que mais sofreram desmatamento. A por\u00e7\u00e3o sudeste, que abrange o sul do Par\u00e1 e o norte do Mato Grosso, \u00e9 a mais afetada e est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia. \u201cEstamos perdendo a floresta amaz\u00f4nica nessa regi\u00e3o\u201d, alerta a cientista.<\/p>\n","protected":false},"author":330,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-25599","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-radar","category-3","description-off"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25599","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/330"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25599"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25599\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25610,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25599\/revisions\/25610"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}