{"id":2973,"date":"2017-08-04T17:03:57","date_gmt":"2017-08-04T20:03:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.amazoniasocioambiental.org\/radar\/o-futuro-da-amazonia\/"},"modified":"2018-04-03T11:44:09","modified_gmt":"2018-04-03T14:44:09","slug":"o-futuro-da-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/radar\/o-futuro-da-amazonia\/","title":{"rendered":"O futuro da Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Ant\u00f4nio Nobre<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Piseagrama<\/strong><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;5029&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; alignment=&#8221;center&#8221; css_animation=&#8221;fadeInDown&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><em><strong>Pintura de Abel Rodr\u00edguez<\/strong><\/em><\/h5>\n<p>[\/vc_column_text][vc_empty_space][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<em>O desmatamento zero na Amaz\u00f4nia, pseudo-meta de todo governo, n\u00e3o \u00e9 mais suficiente para que a floresta continue a regular a temperatura do continente, a evitar cat\u00e1strofes ambientais e a levar chuvas para regi\u00f5es que j\u00e1 poderiam estar desertificadas.<\/em>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<span class=\"wpsdc-drop-cap\">N<\/span>uma defini\u00e7\u00e3o livre, a floresta tropical \u00e9 um tapete multicolorido, estruturado e vivo, extremamente rico. Uma col\u00f4nia extravagante de organismos que sa\u00edram do oceano h\u00e1 400 milh\u00f5es de anos e vieram para a Terra. Entre as folhas, ainda existem condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0quelas da primordial vida marinha. A floresta funciona como um mar suspenso \u2013 que cont\u00e9m uma mir\u00edade de c\u00e9lulas vivas \u2013 muito elaborado e adaptado.<\/p>\n<p>Evolu\u00edda nos \u00faltimos 50 milh\u00f5es de anos, a Floresta Amaz\u00f4nica \u00e9 o maior parque tecnol\u00f3gico que a Terra j\u00e1 conheceu, porque cada um de seus organismos, entre trilh\u00f5es, \u00e9 uma maravilha de miniaturiza\u00e7\u00e3o e automa\u00e7\u00e3o. Em temperatura ambiente, usando mecanismos bioqu\u00edmicos de complexidade quase inacess\u00edvel, a vida processa \u00e1tomos e mol\u00e9culas, determinando e regulando fluxos de subst\u00e2ncias e de energia.<\/p>\n<p>O conforto clim\u00e1tico que apreciamos na Terra, desconhecido em outros corpos siderais, pode ser atribu\u00eddo, em boa medida, \u00e0 col\u00f4nia de seres vivos que t\u00eam a capacidade de fazer fotoss\u00edntese. O g\u00e1s carb\u00f4nico funciona como alimento para a planta: torna-se mat\u00e9ria-prima transformada pelo instrumental bioqu\u00edmico, com o uso de luz e \u00e1gua, em madeira, folhas, frutos, ra\u00edzes. Quando as plantas consomem CO2, a concentra\u00e7\u00e3o desse g\u00e1s na atmosfera diminui.<\/p>\n<p>Assim, as plantas funcionam como um termostato que responde \u00e0s flutua\u00e7\u00f5es de temperatura atrav\u00e9s do ajuste da concentra\u00e7\u00e3o do principal g\u00e1s estufa na atmosfera depois do vapor d\u2019\u00e1gua. Seu consumo de CO2, num primeiro momento, esfria o planeta, o que faz com que cres\u00e7am menos e, portanto, consumam menos. Num segundo momento, a acumula\u00e7\u00e3o de CO2 leva ao aquecimento do planeta, e assim sucessivamente, num ciclo oscilante de regula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa regula\u00e7\u00e3o da temperatura via consumo mediado de CO2 \u00e9 apenas um entre muitos mecanismos da vida que resultam na regula\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel do ambiente. As florestas tropicais s\u00e3o muito mais que aglomera\u00e7\u00f5es de \u00e1rvores, reposit\u00f3rio de biodiversidade ou simples estoque de carbono. Sua tecnologia viva e din\u00e2mica de intera\u00e7\u00e3o com o ambiente lhes confere poder sobre os elementos, uma capacidade resiliente de condicionamento clim\u00e1tico, dando suporte tamb\u00e9m ao florescimento de sociedades humanas.<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica do Sul \u00e9 um continente privilegiado pela extensiva presen\u00e7a de florestas cuja biodiversidade \u00e9 riqu\u00edssima. Contudo, ao longo de 500 anos, a maior parte de sua vegeta\u00e7\u00e3o nativa n\u00e3o pertencente \u00e0 Bacia Amaz\u00f4nica foi aniquilada, como a Mata Atl\u00e2ntica, que perdeu mais de 90% de sua cobertura original. O efeito desse desmatamento hist\u00f3rico sobre o clima, embora percept\u00edvel, foi menos notado do que seria de se esperar, e a raz\u00e3o foi o resguardo oferecido pelas costas quentes (e \u00famidas) da Floresta Amaz\u00f4nica que mantiveram o continente razoavelmente protegido de extremos. Nos \u00faltimos 40 anos, contudo, a \u00faltima grande floresta, cabeceira das \u00e1guas atmosf\u00e9ricas da maior parte do continente, esteve sob o ataque implac\u00e1vel do desmatamento. Coincidentemente, aumentaram as perdas com desastres naturais ligados a anomalias clim\u00e1ticas, tanto por excessos (de chuva, calor e ventos), quanto por falta (secas).<\/p>\n<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">N<\/span>o af\u00e3 de modelar, com o aux\u00edlio de computadores, fluxos colossais de massa e energia para simular o clima, os meteorologistas, inicialmente, prestaram pouca aten\u00e7\u00e3o na cobertura de vegeta\u00e7\u00e3o. Essa abordagem mudou radicalmente. Por meio de um n\u00famero grande e crescente de evid\u00eancias, hoje se sabe do papel vital exercido pela vegeta\u00e7\u00e3o em muitos processos do clima. E praticamente todos os modelos do clima, assim como os mais complexos modelos do sistema terrestre, passaram a incluir representa\u00e7\u00f5es elaboradas da vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Existem ainda muitos segredos bem guardados sobre o funcionamento das florestas. Alguns deles, revelados nas \u00faltimas d\u00e9cadas, s\u00e3o cruciais para o entendimento das fun\u00e7\u00f5es das florestas no condicionamento do clima. O primeiro segredo \u00e9 que a floresta mant\u00e9m \u00famido o ar em movimento, o que leva chuvas para \u00e1reas continente adentro, distantes dos oceanos. Isso se d\u00e1 pela capacidade inata das \u00e1rvores de transferir grandes volumes de \u00e1gua do solo para a atmosfera atrav\u00e9s da transpira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma \u00e1rvore grande pode bombear do solo e transpirar mais de mil litros de \u00e1gua num \u00fanico dia. A Amaz\u00f4nia sustenta centenas de bilh\u00f5es de \u00e1rvores em suas florestas e 20 bilh\u00f5es de toneladas de \u00e1gua por dia s\u00e3o transpiradas por todas as \u00e1rvores na Bacia Amaz\u00f4nica. Em seu conjunto, as \u00e1rvores, essas benevolentes e silenciosas estruturas da natureza, similares a g\u00eaiseres, jorram para o ar um rio vertical de vapor mais importante que o Amazonas.<\/p>\n<p>Um metro quadrado de ch\u00e3o na Amaz\u00f4nia pode ter sobre si at\u00e9 dez metros quadrados de intrincada superf\u00edcie foliar distribu\u00edda em diferentes n\u00edveis no dossel. Uma superf\u00edcie terrestre florestada pode evaporar tanto quanto ou at\u00e9 mais \u00e1gua que a superf\u00edcie l\u00edquida de um oceano ou lago, na qual um metro quadrado de superf\u00edcie evaporadora coincide com apenas o mesmo metro quadrado da superf\u00edcie geom\u00e9trica.<\/p>\n<p>Um estudo publicado recentemente no peri\u00f3dico cient\u00edfico\u00a0<i>Nature<\/i>\u00a0mostra que quase 90% de toda a \u00e1gua que chega \u00e0 atmosfera oriunda dos continentes prov\u00e9m da transpira\u00e7\u00e3o das plantas e somente pouco mais de 10% da simples evapora\u00e7\u00e3o. Uma vez que essa transfer\u00eancia por transpira\u00e7\u00e3o se d\u00e1 com grande absor\u00e7\u00e3o de calor na superf\u00edcie, fica evidente que as antes insuspeitas plantas interferem \u2013 e muito \u2013 na chuva, nos ventos e no clima.<\/p>\n<p>O segundo segredo est\u00e1 relacionado com a forma\u00e7\u00e3o de chuvas abundantes em ar limpo. Em 1999, um estudo constatou que, na Amaz\u00f4nia, o ar na baixa atmosfera (troposfera) \u00e9 t\u00e3o limpo (livre de poeira) quanto o ar sobre o oceano, onde as fontes de poeira s\u00e3o muito reduzidas e, ainda, que as nuvens t\u00edpicas na Amaz\u00f4nia se parecem muito com as nuvens mar\u00edtimas. Essa inusitada semelhan\u00e7a inspirou pesquisadores a batizarem a Amaz\u00f4nia de \u201coceano verde\u201d. A import\u00e2ncia deste conceito novo e incomum reside na sugest\u00e3o de uma superf\u00edcie florestal cujas caracter\u00edsticas de vastid\u00e3o e de umidade e cujas trocas pelos ventos se assemelham \u00e0quelas dos oceanos reais.<\/p>\n<p>Mas, na semelhan\u00e7a, havia um mist\u00e9rio, pois a maior parte do oceano azul tende \u00e0 aridez, enquanto, no \u201coceano verde\u201d, as chuvas eram torrenciais e constantes. Antes do avan\u00e7o do desmatamento, dizia-se haver ali apenas duas esta\u00e7\u00f5es, a \u00famida e a mais \u00famida.<\/p>\n<p>O processo de condensa\u00e7\u00e3o das nuvens necessita, al\u00e9m de baixa temperatura, de uma superf\u00edcie s\u00f3lida ou l\u00edquida que funcione como \u201csemente\u201d para que se inicie a deposi\u00e7\u00e3o das mol\u00e9culas de vapor. Essas sementes, ou n\u00facleos de condensa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o, em geral, aeross\u00f3is atmosf\u00e9ricos: part\u00edculas de poeira, gr\u00e3os de p\u00f3len ou de sal, fuligem e muitos outros. Se a limpeza do ar pode ser creditada, por um lado, ao efeito de tapete verde \u00famido da floresta, segurando a poeira embaixo, e, por outro, \u00e0 lavagem do ar pelas chuvas constantes, como explicar a forma\u00e7\u00e3o de chuvas t\u00e3o abundantes sem as sementes usuais para nuclea\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Estudando trocas de g\u00e1s carb\u00f4nico, cientistas brasileiros e europeus descobriram os aromas da floresta, tamb\u00e9m chamados de compostos org\u00e2nicos vol\u00e1teis biog\u00eanicos (BVOCs). Assim como um vidro de perfume aberto perde seu l\u00edquido por causa da evapora\u00e7\u00e3o, uma variedade de subst\u00e2ncias org\u00e2nicas evapora das folhas e ganha a atmosfera. Enquanto os BVOCs est\u00e3o na forma de g\u00e1s, dissolvidos no ar, a chuva n\u00e3o os lava. Somente quando se oxidam e precipitam-se como aeross\u00f3is, formando as chuvas, \u00e9 que s\u00e3o lavados.<\/p>\n<p>O terceiro segredo est\u00e1 ligado \u00e0 sobreviv\u00eancia da Floresta Amaz\u00f4nica a cataclismos clim\u00e1ticos e \u00e0 sua formid\u00e1vel compet\u00eancia para sustentar um ciclo hidrol\u00f3gico ben\u00e9fico, mesmo em condi\u00e7\u00f5es externas desfavor\u00e1veis. Segundo a nova teoria da bomba bi\u00f3tica, desenvolvida pelos pesquisadores russos Victor Gorshkov e Anastassia Makarieva, a transpira\u00e7\u00e3o abundante das \u00e1rvores, casada com uma condensa\u00e7\u00e3o fort\u00edssima na forma\u00e7\u00e3o das nuvens e chuvas \u2013 condensa\u00e7\u00e3o essa maior do que aquela que ocorre nos oceanos cont\u00edguos \u2013, leva a um rebaixamento da press\u00e3o atmosf\u00e9rica sobre a floresta, que suga o ar \u00famido sobre os oceanos para dentro do continente, mantendo as chuvas em quaisquer circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Se a floresta for removida, o continente ter\u00e1 muito menos evapora\u00e7\u00e3o do que o oceano cont\u00edguo \u2013 com a consequente redu\u00e7\u00e3o na condensa\u00e7\u00e3o \u2013, o que determinar\u00e1 uma revers\u00e3o nos fluxos de umidade, que ir\u00e3o da terra para o mar, criando um deserto onde antes havia floresta.<\/p>\n<p>O quarto segredo das florestas indica a raz\u00e3o de a por\u00e7\u00e3o meridional da Am\u00e9rica do Sul, a leste dos Andes, n\u00e3o ser des\u00e9rtica como \u00e1reas na mesma latitude, a oeste dos Andes e em outros continentes. A Floresta Amaz\u00f4nica n\u00e3o somente mant\u00e9m o ar \u00famido para si mesma, como tamb\u00e9m exporta rios a\u00e9reos de vapor que transportam \u00e1gua para as chuvas que irrigam regi\u00f5es distantes no ver\u00e3o hemisf\u00e9rico.<\/p>\n<p>As escolas ensinam que a \u00e1gua evapora do mar, \u201cvai\u201d para os continentes, cai como chuva, \u00e9 coletada nos rios de superf\u00edcie e retorna ao mar. Ao fazer a liga\u00e7\u00e3o entre evapora\u00e7\u00e3o da \u00e1gua no mar com seu tr\u00e2nsito em terra, essa descri\u00e7\u00e3o simpl\u00f3ria do ciclo hidrol\u00f3gico n\u00e3o est\u00e1 errada, mas n\u00e3o explica quase nada. Por exemplo, a raz\u00e3o de existirem desertos ou o porqu\u00ea do vapor mar\u00edtimo adentrar os continentes de forma heterog\u00eanea.<\/p>\n<p>Nos anos 1970, o pesquisador brasileiro Eneas Salati e seus colaboradores, estudando os fluxos de vapor oce\u00e2nico na Amaz\u00f4nia, perceberam que parte significativa da \u00e1gua que entrava como vapor no canal a\u00e9reo n\u00e3o retornava pelo canal terrestre. Da\u00ed, conclu\u00edram que a Amaz\u00f4nia estaria exportando esse vapor para outras regi\u00f5es do continente e irrigando outras bacias hidrogr\u00e1ficas, e n\u00e3o somente a bacia do Rio Amazonas. An\u00e1lises preliminares feitas \u00e0 \u00e9poca nas \u00e1guas de chuva coletadas na cidade do Rio de Janeiro detectaram sinais de que parte daquele volume vinha do interior do continente, e n\u00e3o do oceano cont\u00edguo. E, mais especificamente, que havia passado pela Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>O conceito de rios atmosf\u00e9ricos foi introduzido em 1992 pelos cientistas Reginald e Nicholas Newell para descrever fluxos filamentares na baixa atmosfera capazes de transportar grandes quantidades de \u00e1gua como vapor, tipicamente em volumes superiores ao transportado pelo Rio Amazonas (que tem vaz\u00e3o de 200 milh\u00f5es de litros por segundo \u2013 ou 17 bilh\u00f5es de toneladas por dia). Da\u00ed a import\u00e2ncia crucial das florestas a montante: constatou-se que a Amaz\u00f4nia \u00e9, de fato, a cabeceira dos mananciais a\u00e9reos da maior parte das chuvas na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>O quinto segredo \u00e9 o motivo pelo qual a regi\u00e3o amaz\u00f4nica e os oceanos pr\u00f3ximos n\u00e3o registram a ocorr\u00eancia de fen\u00f4menos atmosf\u00e9ricos como furac\u00f5es e outros eventos extremos. A atenua\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia atmosf\u00e9rica tem explica\u00e7\u00e3o no efeito dosador, distribuidor e dissipador da energia dos ventos exercido pelo \u201crugoso\u201d dossel florestal.<\/p>\n<p>A condensa\u00e7\u00e3o uniforme sobre o dossel florestal impede a concentra\u00e7\u00e3o de energia dos ventos em v\u00f3rtices destrutivos, enquanto o esgotamento de umidade atmosf\u00e9rica pela remo\u00e7\u00e3o lateral de cima do oceano priva as tempestades do seu alimento energ\u00e9tico (vapor de \u00e1gua) nas regi\u00f5es oce\u00e2nicas adjacentes a grandes florestas. Ou seja, al\u00e9m de todos os outros servi\u00e7os que a floresta presta ao clima, ela ainda oferece um seguro contra destrutivos eventos atmosf\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Todos esses efeitos em conjunto fazem da majestosa Floresta Amaz\u00f4nica a melhor e mais valiosa parceira das atividades humanas que requerem chuva na medida certa, um clima ameno e prote\u00e7\u00e3o de eventos extremos.<\/p>\n<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">E<\/span>m vista dos efeitos extensivos e elaborados das florestas sobre o clima, que resultados esperar de sua devasta\u00e7\u00e3o? Quais as consequ\u00eancias futuras do desmatamento e quais as j\u00e1 observadas? A substitui\u00e7\u00e3o da floresta por pasto tenderia a aumentar a temperatura m\u00e9dia em cerca de 2,5\u00b0C e a diminuir as chuvas em 25%, al\u00e9m de aumentar a esta\u00e7\u00e3o seca. Outros estudos chegaram a prever aquecimento de at\u00e9 3,8\u00b0C.<\/p>\n<p>Mais recentemente, o pesquisador Paulo Nobre e alguns colaboradores estudaram o impacto do desmatamento na chuva amaz\u00f4nica tendo como refer\u00eancia a inclus\u00e3o ou a exclus\u00e3o das respostas dos grandes oceanos aos cen\u00e1rios de desmatamento. Os autores encontraram uma redu\u00e7\u00e3o consideravelmente maior na precipita\u00e7\u00e3o quando ao modelo geral de circula\u00e7\u00e3o da atmosfera foi acoplado outro modelo, que simula as condi\u00e7\u00f5es internas dos oceanos (salinidade, correntes etc.). Para um cen\u00e1rio de desmatamento total da Amaz\u00f4nia, houve previs\u00e3o de 42% de redu\u00e7\u00e3o da chuva, contabilizando os mecanismos internos dos oceanos, contra 26% de redu\u00e7\u00e3o da chuva sem consider\u00e1-los.<\/p>\n<p>J\u00e1 existem comprova\u00e7\u00f5es de muito do que foi projetado pelos modelos como consequ\u00eancia do desmatamento, especialmente a amplia\u00e7\u00e3o da esta\u00e7\u00e3o seca. Por\u00e9m, esses experimentos virtuais indicavam um prolongamento da esta\u00e7\u00e3o seca ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o de 100% da floresta, o que j\u00e1 se observa com o corte raso de pouco menos de 19% da floresta. Ou seja, os modelos parecem tender a subestimar as consequ\u00eancias negativas nos cen\u00e1rios simulados. Os resultados de proje\u00e7\u00f5es mais recentes, incluindo os oceanos, agravam o quadro e aumentam o alerta.<\/p>\n<p>Makarieva e Gorshkov preveem que o desmatamento completo da Amaz\u00f4nia reduziria a precipita\u00e7\u00e3o, como resultado da dissipa\u00e7\u00e3o do efeito da baixa press\u00e3o associada \u00e0 condensa\u00e7\u00e3o. A teoria da bomba bi\u00f3tica sugere que a elimina\u00e7\u00e3o total do principal agente da transpira\u00e7\u00e3o levaria \u00e0 cessa\u00e7\u00e3o do bombeamento bi\u00f3tico. Desligado o interruptor da bomba que puxa o ar \u00famido para o continente, o fluxo de umidade deve mudar de dire\u00e7\u00e3o e a condensa\u00e7\u00e3o passar\u00e1 a ser relativamente maior sobre os oceanos (apesar de mais fraca do que a bi\u00f3tica, a bomba oce\u00e2nica de condensa\u00e7\u00e3o est\u00e1 sempre ligada), o que levaria \u00e0 aridez em terra.<\/p>\n<p>Os modelos clim\u00e1ticos usados para simular o desmatamento ainda n\u00e3o embutiram essa nova teoria f\u00edsica, portanto n\u00e3o projetam esse efeito, que poderia significar at\u00e9 100% de redu\u00e7\u00e3o nas chuvas.<\/p>\n<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">O<\/span>s danos do desmatamento, assim como os danos do fogo, da fuma\u00e7a e da fuligem, ao clima, s\u00e3o candentemente evidentes nas observa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas de campo. O desmatamento real \u00e9 imenso e seus efeitos sobre o clima s\u00e3o bem documentados. Estudos em torres micrometeorol\u00f3gicas mostram que a substitui\u00e7\u00e3o de floresta por pastagem leva a um aumento da temperatura de superf\u00edcie e uma redu\u00e7\u00e3o da evapotranspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o atual sobre desmatamento tende a passar longe de seus evidentes efeitos diretos e indiretos na redu\u00e7\u00e3o das chuvas e recai sobre a extens\u00e3o da \u00e1rea desmatada. No per\u00edodo 2011\/2012, foram \u201capenas\u201d 4.571 quil\u00f4metros quadrados desmatados na Amaz\u00f4nia brasileira. Se comparado com taxas de desmatamento em anos de pico, como em 2004 (27.772 quil\u00f4metros quadrados), esse valor parece modesto. O Brasil merece reconhecimento por ter logrado essa redu\u00e7\u00e3o. No entanto, a despeito das not\u00edcias encorajadoras, essa taxa seria suficiente para desmatar \u00e1rea equivalente a toda a Costa Rica em meros dez anos. Al\u00e9m disso, redu\u00e7\u00f5es nas taxas anuais atenuam a percep\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea de perda e mascaram o desmatamento acumulado na Amaz\u00f4nia, o que \u00e9 muito grave.<\/p>\n<p>A \u00e1rea total de desmatamento at\u00e9 2013 chega a 762.979 quil\u00f4metros quadrados, um passivo gigantesco de destrui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 muito motivo para comemorar. Mesmo porque, depois da aprova\u00e7\u00e3o do novo C\u00f3digo Florestal em 2011, com sua ampla anistia a desmatadores, j\u00e1 se observa uma n\u00edtida tend\u00eancia de aumento das taxas anuais. E se a vastid\u00e3o raspada j\u00e1 \u00e9 grav\u00edssima para o clima, a situa\u00e7\u00e3o torna-se ainda pior ao se considerar o oceano verde ferido.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o madeireira e o desmatamento gradual produzem extensas \u00e1reas degradadas que raramente entram na contabilidade oficial da destrui\u00e7\u00e3o, mas que podem ter impacto significativo sobre o clima. Estima-se que, at\u00e9 2013, a \u00e1rea total degradada pode ter alcan\u00e7ado 1.255.100 quil\u00f4metros quadrados. Somando com a \u00e1rea mensurada de corte raso, o impacto no bioma pela ocupa\u00e7\u00e3o humana pode ter atingido 2.018.079 quil\u00f4metros quadrados.<\/p>\n<p>Essa contabilidade sugere que at\u00e9 47,34% da floresta pode ter sido impactada diretamente por atividade humana desestabilizadora do clima. Mas a \u00e1rea de impacto no sentido ecol\u00f3gico pode ser ainda maior, porque florestas cont\u00edguas a \u00e1reas de degrada\u00e7\u00e3o sofrem direta e indiretamente os efeitos das mudan\u00e7as ambientais vizinhas.<\/p>\n<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span>s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na Amaz\u00f4nia e fora dela j\u00e1 batem \u00e0 porta. Acelerando o desmatamento e ultrapassando o ponto de n\u00e3o retorno, que parece estar pr\u00f3ximo, estimam-se poucas d\u00e9cadas at\u00e9 o clima saltar para outro estado de equil\u00edbrio. Zerando o desmatamento e ocorrendo a regenera\u00e7\u00e3o da floresta, afasta-se a amea\u00e7a imediata para um futuro mais ou menos distante, tudo a depender da extens\u00e3o de floresta oceano verde remanescente e do tamanho das for\u00e7as clim\u00e1ticas externas.<\/p>\n<p>A perturba\u00e7\u00e3o antropog\u00eanica, embora j\u00e1 extensiva e provavelmente demasiada, \u00e9 o fator mais imprevis\u00edvel numa proje\u00e7\u00e3o sobre o destino final da Amaz\u00f4nia. Se escolhermos continuar no ritmo \u201cdeixa-como-est\u00e1-para-ver-como-\u00e9-que-fica\u201d, e principalmente, se optarmos por n\u00e3o recuperar os estragos infligidos \u00e0 grande floresta, a teoria sugere que o sistema amaz\u00f4nico pode entrar em colapso em menos de 40 anos.<\/p>\n<p>Os efeitos locais e regionais no clima j\u00e1 est\u00e3o sendo observados muito antes do esperado, ao longo das zonas mais devastadas, mas tamb\u00e9m em \u00e1reas mais afastadas que dependem da floresta para obten\u00e7\u00e3o de sua chuva. Pelas evid\u00eancias de altera\u00e7\u00f5es, o futuro clim\u00e1tico da Amaz\u00f4nia j\u00e1 chegou. A decis\u00e3o urgente e j\u00e1 tardia pela intensifica\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o dos danos n\u00e3o pode esperar, se \u00e9 que ainda existe chance de se reverter o quadro amea\u00e7ador. O investimento feito na atividade cient\u00edfica na Amaz\u00f4nia rendeu frutos importantes como\u00a0 informa\u00e7\u00e3o rica, fundamentada e dispon\u00edvel sobre aquele cen\u00e1rio. A responsabilidade \u00e9 nossa sobre o que faremos com esse conhecimento.<\/p>\n<p>A recente redu\u00e7\u00e3o de taxas anuais de desmatamento, embora essencial, assemelha-se a fechar com as m\u00e3os um buraco no fundo de um bote infl\u00e1vel (clima), depois que a \u00e1gua vazada nos \u00faltimos 40 anos (desmatamento) j\u00e1 amea\u00e7a colocar o bote a pique.<\/p>\n<p>Para enfrentar a gravidade da situa\u00e7\u00e3o, precisamos de uma mobiliza\u00e7\u00e3o semelhante a um esfor\u00e7o de guerra, mas n\u00e3o direcionado ao conflito. Em primeira inst\u00e2ncia, \u00e9 urgente uma \u201cguerra\u201d contra a ignor\u00e2ncia, um empenho sem precedentes para o esclarecimento da sociedade, inclusive\u00a0 daqueles que ainda se aferram ao grande erro de acreditar ser in\u00f3cua a devasta\u00e7\u00e3o das florestas. Entre eles, os que manejam motosserras, tratores com corrent\u00e3o e tochas incendi\u00e1rias, mas tamb\u00e9m os que formularam pol\u00edticas p\u00fablicas, financiaram e controlaram os comandos da devasta\u00e7\u00e3o, dando-lhes cobertura legislativa, legal e propagand\u00edstica.<\/p>\n<p>Talvez a elimina\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fun\u00e7\u00e3o essencial das florestas na gera\u00e7\u00e3o do \u201cclima amigo\u201d possa, por si s\u00f3, participar como vetor na convers\u00e3o dessa minoria de desmatadores em protetores e, qui\u00e7\u00e1, at\u00e9 em restauradores das florestas. Muitos exemplos j\u00e1 existem em que essa convers\u00e3o ocorreu, com grandes vantagens para todos os envolvidos. Nesse sentido, \u00e9 vital fazer com que os fatos cient\u00edficos acerca do papel determinante da floresta sobre o clima cheguem \u00e0 sociedade e tornem-se conhecimento corrente. Todos os esfor\u00e7os devem ser feitos para simplificar a mensagem sem deturpar sua ess\u00eancia. Antes de tudo, deve-se falar para a sensibilidade das pessoas.<\/p>\n<p>Em 2008, quando estourou a bolha financeira de\u00a0<i>Wall Street<\/i>, governos mundo afora precisaram de apenas quinze dias para decidir usar trilh\u00f5es de d\u00f3lares de recursos p\u00fablicos na salva\u00e7\u00e3o de bancos privados e evitar o que amea\u00e7ava tornar-se um colapso do sistema financeiro. A crise clim\u00e1tica tem potencial para ser incomensuravelmente mais grave do que a crise financeira, n\u00e3o obstante as elites governantes venham procrastinando por mais de quinze anos a tomada de decis\u00f5es efetivas que desviem a humanidade do desastre clim\u00e1tico. Essa procrastina\u00e7\u00e3o parece piorar com o tempo, a despeito da disponibilidade de vastas evid\u00eancias cient\u00edficas e sa\u00eddas vi\u00e1veis, atraentes e criativas.<\/p>\n<p>Na Amaz\u00f4nia, o retardamento decis\u00f3rio est\u00e1 nos prazos dilatados para metas e a\u00e7\u00f5es que deveriam ser urgentes, mas emperram em meio \u00e0 burocracia impenetr\u00e1vel e impeditiva. Encontra-se tamb\u00e9m na demora no financiamento de projetos alternativos e ben\u00e9ficos e, principalmente, na lenta apropria\u00e7\u00e3o dos fatos cient\u00edficos sobre a import\u00e2ncia das florestas para o clima. Ignorar solu\u00e7\u00f5es inovadoras, dispon\u00edveis e vi\u00e1veis de valoriza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica das florestas \u00e9 jogar o problema para frente. O desmatamento zero, que j\u00e1 era urgente h\u00e1 uma d\u00e9cada, ainda \u00e9 colocado como uma meta a ser realizada em futuro distante. Muito diferente, portanto, dos quinze dias usados para salvar os bancos.<\/p>\n<p>Se o conhecimento cient\u00edfico qualificado, o princ\u00edpio da precau\u00e7\u00e3o e o simples bom senso n\u00e3o lograram gerar rea\u00e7\u00e3o adequada daqueles que det\u00eam os meios financeiros e os recursos estrat\u00e9gicos, o choque das torneiras secas aqui, cidades inundadas acol\u00e1 e outros desastres naturais h\u00e3o, qui\u00e7\u00e1, de produzir alguma rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">U<\/span>m n\u00edvel adequado de rigor na erradica\u00e7\u00e3o do desmatamento poderia ser an\u00e1logo ao do tratamento dado ao cigarro. Constatados os males ao ser humano e os preju\u00edzos econ\u00f4micos \u00e0 sociedade, uma s\u00e9rie de medidas foram adotadas para desestimular o tabagismo.<\/p>\n<p>No que diz respeito ao desmatamento no Brasil, algumas provid\u00eancias do governo federal iniciaram esse processo de controle e desest\u00edmulo. Resultados significativos foram alcan\u00e7ados. Mas \u00e9 preciso ir mais fundo e chegar \u00e0 raiz do problema. Ampliar as pol\u00edticas do Executivo, mobilizar a sociedade para neutralizar a\u00e7\u00f5es desagregadoras do Legislativo, como a anistia dada a desmatadores no novo C\u00f3digo Florestal Brasileiro, levar adiante a discuss\u00e3o sobre as consequ\u00eancias clim\u00e1ticas do uso do solo.<\/p>\n<p>Uma situa\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria requer medidas extraordin\u00e1rias. Sempre \u00e9 tempo de rever leis para adequ\u00e1-las \u00e0s demandas da realidade e da sociedade. Somente multar desmatadores, que mais adiante ser\u00e3o anistiados pela burocracia ou pelo Congresso, \u00e9 uma receita de fracasso.<\/p>\n<p>Os programas de controle ao desmatamento hoje convivem com o est\u00edmulo a ciclos econ\u00f4micos insustent\u00e1veis, com os vetores representados por estradas, hidrel\u00e9tricas e outros programas de desenvolvimento, cujas debilidades de planejamento fomentam a invas\u00e3o e a ocupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas florestadas. Para que o desmatamento seja zerado, o que \u00e9 indispens\u00e1vel para conter dano maior ao clima, todos esses buracos precisam ser tapados com mobiliza\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o da sociedade e governo, estrat\u00e9gia, intelig\u00eancia, vis\u00e3o de longo prazo e sentido de urg\u00eancia.<\/p>\n<p>As queimadas origin\u00e1rias de atividades humanas sobre a floresta tamb\u00e9m precisam ser rigorosamente extintas. O fogo em \u00e1reas florestais, pastos e \u00e1reas agr\u00edcolas, pr\u00f3ximas ou distantes da Amaz\u00f4nia, \u00e9 um problema grave. Quanto menos fontes de fuma\u00e7a e fuligem existirem, menor o dano \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de nuvens e chuvas e, portanto, menor o dano \u00e0 floresta, oceano verde. Devido \u00e0 cultura do fogo ainda prevalente no campo, essa tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1 uma tarefa f\u00e1cil, mas \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">O<\/span>foco usual, quando se discute o futuro do clima na Amaz\u00f4nia, \u00e9 o desmatamento futuro, ou quanto cortar da mata que sobrou. Injustificadamente ausente, o assombroso desmatamento acumulado do passado precisa voltar ao foco, pois \u00e9 sobre ele que recai o principal aspecto da reciprocidade clim\u00e1tica. Sem tratar da devasta\u00e7\u00e3o passada, o assombro se converter\u00e1 em assombra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, como reconstruir uma paisagem devastada? Se fosse uma paisagem urbana, seria o caso de se retrabalhar as estruturas e edif\u00edcios que demandariam penosa reconstru\u00e7\u00e3o, tijolo a tijolo \u2013 um esfor\u00e7o de anos. J\u00e1 estruturas inertes da natureza, como solos, rochas e montanhas levam milhares, milh\u00f5es ou at\u00e9 bilh\u00f5es de anos para se compor ou recompor, fruto da a\u00e7\u00e3o de lentas for\u00e7as geof\u00edsicas.<\/p>\n<p>E a paisagem viva? Se a vida anterior n\u00e3o tiver sido extinta, isto \u00e9, se houver prop\u00e1gulos, esporos, sementes, ovos, pais e seus filhotes, uma for\u00e7a misteriosa e autom\u00e1tica de reconstru\u00e7\u00e3o entra em a\u00e7\u00e3o. Os \u201ctijolos\u201d biol\u00f3gicos s\u00e3o os \u00e1tomos, que se unem nas mol\u00e9culas, comp\u00f5em as subst\u00e2ncias que constroem as c\u00e9lulas, articulam-se nos tecidos, aglomeram-se nos \u00f3rg\u00e3os, constituem os organismos, povoam os ecossistemas, interagem nos biomas e cuja soma total \u00e9 a biosfera.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria floresta nos oferece solu\u00e7\u00f5es mirabolantes para a reconstru\u00e7\u00e3o das paisagens florestais nativas, pois disp\u00f5e de engenhosos mecanismos para recompor-se a partir de sementes, ou cicatrizar-se, com o processo natural de regenera\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores em clareiras. H\u00e1 uma cole\u00e7\u00e3o rica de esp\u00e9cies de plantas pioneiras que t\u00eam a capacidade de crescer em condi\u00e7\u00f5es ambientais extremas. Essas plantas formam uma floresta secund\u00e1ria densa, criando, assim, condi\u00e7\u00f5es para que a complexa e duradoura floresta tropical possa restabelecer-se por sucess\u00e3o ecol\u00f3gica de m\u00e9dio e longo prazo.<\/p>\n<p>Entretanto, quando a \u00e1rea desmatada \u00e9 muito grande, o processo natural entra em fal\u00eancia por n\u00e3o conseguir fazer chegar ao solo descoberto as sementes das pioneiras. A\u00ed torna-se necess\u00e1rio o plantio das esp\u00e9cies nativas. Se ainda houver chuvas, a floresta se regenerar\u00e1 nas \u00e1reas replantadas. Uma cole\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores plantadas \u00e9 melhor que o solo exposto, mesmo que esteja longe de reconstituir em toda sua complexidade a parte funcional do ecossistema destru\u00eddo. Precisamos e devemos regenerar o mais extensivamente poss\u00edvel o que foi alterado. Somente a integridade do oceano verde original garantiu, ao longo de eras geol\u00f3gicas, a sa\u00fade benigna e mantenedora do ciclo hidrol\u00f3gico na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Essa recomposi\u00e7\u00e3o florestal implicaria a revers\u00e3o do uso do solo em vastas \u00e1reas hoje ocupadas, algo improv\u00e1vel na ordem atual. N\u00e3o obstante, existem caminhos alternativos com chances de criar condi\u00e7\u00f5es imediatas de aceita\u00e7\u00e3o. Trata-se de fazer um uso inteligente da paisagem, com aplica\u00e7\u00e3o de tecnologias de zoneamento das terras em fun\u00e7\u00e3o de suas potencialidades, vulnerabilidades e de seus riscos.<\/p>\n<p>A agricultura e outras atividades econ\u00f4micas nas zonas rurais podem ser otimizadas, aumentando sua capacidade produtiva e liberando espa\u00e7o para o reflorestamento com esp\u00e9cies nativas. Variados estudos da Embrapa mostram como intensificar a produ\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria, reduzindo grandemente a demanda por \u00e1rea de pastos. Projetos como o Y Ikatu Xingu e Cultivando \u00c1gua Boa demonstram como \u00e9 poss\u00edvel a associa\u00e7\u00e3o de interessados dos v\u00e1rios setores na recupera\u00e7\u00e3o de matas ciliares e outras valiosas a\u00e7\u00f5es de sustentabilidade.<\/p>\n<p>O caos clim\u00e1tico previsto tem o potencial de ser incomensuravelmente mais danoso do que a Segunda Guerra Mundial. O que \u00e9 impens\u00e1vel hoje pode se tornar uma realidade incontorn\u00e1vel em prazo menor do que esperamos. Restaurar as florestas nativas \u00e9 a melhor aposta que podemos fazer contra o caos clim\u00e1tico, uma verdadeira ap\u00f3lice de seguro.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]NOBRE, Antonio. O futuro da Amaz\u00f4nia.\u00a0<i>PISEAGRAMA<\/i>, Belo Horizonte, n\u00famero 08, p\u00e1gina 102 &#8211; 113, 2015<\/p>\n<p>Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/piseagrama.org\/o-futuro-da-amazonia\/\">piseagrama.org\/o-futuro-da-amazonia<\/a>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Ant\u00f4nio Nobre Piseagrama [\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;5029&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; alignment=&#8221;center&#8221; css_animation=&#8221;fadeInDown&#8221;][vc_column_text] Pintura de Abel Rodr\u00edguez [\/vc_column_text][vc_empty_space][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]O desmatamento zero na Amaz\u00f4nia, pseudo-meta de todo governo, n\u00e3o \u00e9 mais suficiente para que a floresta continue a regular a temperatura do continente, a evitar cat\u00e1strofes ambientais e a levar chuvas para regi\u00f5es que j\u00e1 poderiam estar desertificadas.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]Numa defini\u00e7\u00e3o livre, a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":5028,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-2973","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-radar","category-3","description-off"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2973","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2973"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2973\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5039,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2973\/revisions\/5039"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5028"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2973"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2973"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2973"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}