{"id":30083,"date":"2022-01-11T14:53:04","date_gmt":"2022-01-11T17:53:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.amazoniasocioambiental.org\/?p=30083"},"modified":"2022-04-26T17:13:45","modified_gmt":"2022-04-26T20:13:45","slug":"a-luta-de-rita-piripkura-para-salvar-seus-parentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/radar\/a-luta-de-rita-piripkura-para-salvar-seus-parentes\/","title":{"rendered":"A luta de Rita Piripkura para salvar seus parentes"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Amaz\u00f4nia Real<\/strong><br \/>\n<strong>Marcio Camilo<\/strong><br \/>\n<strong>11 de janeiro de 2022<\/strong><br \/>\n<strong>Amaz\u00f4nia brasileira<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Al\u00e9m dela, s\u00f3 h\u00e1 registro de mais dois Piripkura \u2013 seu irm\u00e3o Baita e seu sobrinho Tamandua -, que vivem amea\u00e7ados por fazendeiros, madeireiros e grileiros.<\/strong> <\/em><\/p>\n<p><strong>Cuiab\u00e1 (MT)<\/strong> \u2013 Rita Piripkura \u00e9 uma das \u00faltimas sobreviventes de seu povo. Al\u00e9m dela, s\u00f3 h\u00e1 registro de mais dois Piripkura: seu irm\u00e3o Baita e o sobrinho Tamandua. Os dois vivem em isolamento volunt\u00e1rio em seu territ\u00f3rio, localizado no extremo norte de Mato Grosso, na divisa com Amazonas, entre as cidades de Colniza e Rondol\u00e2ndia, \u201cl\u00e1 na pontinha do mapa\u201d como muitos costumam dizer. Diferentes dos parentes, Rita n\u00e3o \u00e9 uma ind\u00edgena isolada h\u00e1 muito tempo. Vi\u00fava, ela mora em uma aldeia do povo Karipuna, com seu segundo marido, localizada em Rond\u00f4nia. Nos \u00faltimos tempos, Rita Piripkura tem ganhado visibilidade por ser a \u00fanica porta-voz de seu povo diante da press\u00e3o amea\u00e7adora contra a sobreviv\u00eancia de seus parentes. A grilagem, o desmatamento e a explora\u00e7\u00e3o de madeira ilegal ocorrem dentro do territ\u00f3rio ind\u00edgena onde vivem Baita e Tamandua.<br \/>\nSegundo Rita Piripkura, seu irm\u00e3o e seu sobrinho podem sofrer um ataque a qualquer momento. \u201cDe um lado \u00e9 madeira [extra\u00e7\u00e3o]. A\u00ed eles correm de l\u00e1, mas do outro lado tem o gado e tamb\u00e9m os grileiros. Estou ficando com muito medo deles serem mortos em conflitos, porque o cerco cada vez mais est\u00e1 se fechando\u201d, contou Rita em entrevista \u00e0 <strong>Amaz\u00f4nia Real<\/strong>, concedida remotamente.<br \/>\nRita Piripkura \u00e9 uma personagem emblem\u00e1tica de um povo que foi praticamente dizimado. Nos primeiros minutos da conversa com a reportagem, ela mostra express\u00e3o fechada e melanc\u00f3lica. Mas \u00e0 medida em que vai se sentindo mais segura, se revela uma pessoa simp\u00e1tica e comunicativa. Sua l\u00edngua materna \u00e9 a Piripkura, pertencente \u00e0 fam\u00edlia lingu\u00edstica tupi-guarani (tronco tupi). Entende bem o portugu\u00eas, mas fala pouco. Por isso a reportagem contou com a ajuda da lideran\u00e7a ind\u00edgena Adriano Karipuna, que traduziu as respostas de Rita, mais diretas e contundentes.<br \/>\nDo tempo em que morava na aldeia, Rita Piripkura se lembra da conviv\u00eancia com o irm\u00e3o e o sobrinho. Baita e Tamandua s\u00e3o os dois \u00faltimos ind\u00edgenas Piripkura em condi\u00e7\u00e3o de isolamento que se tem not\u00edcia, desde o fim da d\u00e9cada de 1980. Conta que eles sempre tiveram um esp\u00edrito n\u00f4made e gostavam de caminhar durante dias pela floresta, quando regressavam novamente para a aldeia. \u201cEles nunca pararam direito na comunidade. Ficavam um pouco l\u00e1 e depois saiam pela floresta. Sempre tiveram essa natureza de ficar vagando, sem um lugar definido, sabe?\u201d<br \/>\nNas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, Rita s\u00f3 se encontrou com Baita e Tamandua durante as expedi\u00e7\u00f5es da Funai e de outras organiza\u00e7\u00f5es indigenistas, onde atua como guia. Sente saudades da conviv\u00eancia com os dois na comunidade. Mas ela acredita que as d\u00e9cadas de fuga os deixaram avessos a uma aproxima\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u201cEu queria tocar neles, ficar conversando um temp\u00e3o, mas eles est\u00e3o muito arredios. Quando a gente se v\u00ea eles n\u00e3o deixam chegar perto direito. Ficam mais distantes e a conversa \u00e9 bem r\u00e1pida: \u00e9 um \u2018oi\u2019, \u2018tudo bem\u2019, e depois eles seguem para dentro da floresta. Eles se abrem at\u00e9 mais com os servidores da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai). N\u00e3o sei o porqu\u00ea disso. Porque ficaram t\u00e3o arredios comigo. Queria entender\u201d, questiona Rita.<br \/>\nA \u00faltima vez que ela se encontrou com os dois foi em meados do ano passado. Ainda neste m\u00eas de janeiro, Rita Piripkura vai participar de uma nova incurs\u00e3o com os agentes da Funai para saber se h\u00e1 vest\u00edgios de mais Piripkura. Nessa incurs\u00e3o, ela espera rever os dois novamente para pelo menos dar um \u201coi\u201d e conselhos sobre os perigos que est\u00e3o correndo.<\/p>\n<h4><strong>Sob risco de ataques<\/strong><\/h4>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\">\n<div id=\"attachment_90341\" style=\"width: 618px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-90341\" class=\"wp-image-90341\" src=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/tamandua-e-baita-sao-os-dois-ultimo-piripkura-isolados-na-ti-piripkura-Foto-Bruno-Jorge.jpg\" sizes=\"(max-width: 608px) 100vw, 608px\" srcset=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/tamandua-e-baita-sao-os-dois-ultimo-piripkura-isolados-na-ti-piripkura-Foto-Bruno-Jorge.jpg 608w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/tamandua-e-baita-sao-os-dois-ultimo-piripkura-isolados-na-ti-piripkura-Foto-Bruno-Jorge-300x152.jpg 300w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/tamandua-e-baita-sao-os-dois-ultimo-piripkura-isolados-na-ti-piripkura-Foto-Bruno-Jorge-150x76.jpg 150w\" alt=\"\" width=\"608\" height=\"309\" \/><p id=\"caption-attachment-90341\" class=\"wp-caption-text\">Tamandua e Baita (Foto: Bruno Jorge\/Divulga\u00e7\u00e3o Canal Curta)<\/p><\/div><\/figure>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n<p>Ultimamente Baita e Tamandua t\u00eam entrado nas fazendas para pegar objetos, segundo relatou um fazendeiro a Rita. Ele se queixou da situa\u00e7\u00e3o dizendo que \u201cestava muito chateado com os dois por conta dos roubos\u201d. Rita explica que para seus parentes isolados isso n\u00e3o \u00e9 roubo, porque eles entendem que essas coisas (panelas, redes, fac\u00f5es) est\u00e3o no territ\u00f3rio deles, e por isso sentem-se no direito de pegar os utens\u00edlios para usar durante as ca\u00e7adas na mata.<br \/>\n\u201cMas a\u00ed eles podem morrer por causa disso. Porque o homem branco n\u00e3o entende assim. Entende que \u00e9 roubo e eles podem ser assassinados. Eu j\u00e1 falei isso pra eles, mas quero repetir quando a gente se encontrar. Quero falar para eles n\u00e3o mexerem nas coisas alheias. Se ele tiver precisando de alguma coisa, que pe\u00e7am para gente, para mim, para os servidores da Funai que n\u00f3s damos um jeito\u201d, afirma.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/amazonianativa.org.br\/2021\/12\/03\/povos-indigenas-isolados-em-mato-grosso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Relat\u00f3rios<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/pt-br\/noticias-socioambientais\/a-boiada-avanca-sobre-os-dois-ultimos-indigenas-piripkura\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">dossi\u00eas<\/a> de organiza\u00e7\u00f5es indigenistas denunciam que os posseiros est\u00e3o cada vez mais perto dos dois principais ref\u00fagios de Tamandua e Baita, que s\u00e3o os igarap\u00e9s Panelas\u00a0 e Duelo.<br \/>\n\u201cDez quil\u00f4metros \u00e9 praticamente nada para os invasores, que com tratores e outras m\u00e1quinas podem avan\u00e7ar sobre essa dist\u00e2ncia, derrubando a floresta, em quest\u00f5es de dias\u201d, alerta Elias Bigio, coordenador da Opera\u00e7\u00e3o Amaz\u00f4nia Nativa (Opan), em entrevista \u00e0 <strong>Amaz\u00f4nia Real<\/strong>. Ele conhece de perto a hist\u00f3ria dos Piripkura e foi o respons\u00e1vel pela elabora\u00e7\u00e3o da primeira portaria de Restri\u00e7\u00e3o de Uso na regi\u00e3o, publicada pelo governo federal em 2008. Na \u00e9poca Bigio era\u00a0 coordenador-geral de \u00cdndios Isolados e Rec\u00e9m-Contato (Cgiirc) da Funai.<br \/>\nDestaca que o territ\u00f3rio dos Piripkura sempre sofreu press\u00f5es de invasores, mas que elas eram controladas pela fiscaliza\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, desde 2019, quando Jair Bolsonaro assumiu a Presid\u00eancia, as fiscaliza\u00e7\u00f5es diminu\u00edram e o avan\u00e7o sobre o territ\u00f3rio dos Piripkura resultou em recordes de desmatamento na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<h4><strong>A press\u00e3o do desmatamento<\/strong><\/h4>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\">\n<div id=\"attachment_90343\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-90343\" class=\"wp-image-90343\" src=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Terra-Indidega-piripkura-Foto-Rogerio-Assis_ISA-1024x650.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Terra-Indidega-piripkura-Foto-Rogerio-Assis_ISA-1024x650.jpg 1024w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Terra-Indidega-piripkura-Foto-Rogerio-Assis_ISA-300x191.jpg 300w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Terra-Indidega-piripkura-Foto-Rogerio-Assis_ISA-768x488.jpg 768w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Terra-Indidega-piripkura-Foto-Rogerio-Assis_ISA-150x95.jpg 150w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Terra-Indidega-piripkura-Foto-Rogerio-Assis_ISA.jpg 1200w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"650\" \/><p id=\"caption-attachment-90343\" class=\"wp-caption-text\">Gado avan\u00e7a na TI Piripkura (Foto: Rog\u00e9rio Assis\/ISA)<\/p><\/div><\/figure>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n<p>O dossi\u00ea <a href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/pt-br\/noticias-socioambientais\/a-boiada-avanca-sobre-os-dois-ultimos-indigenas-piripkura\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u201cPiripkura: Uma Terra Ind\u00edgena devastada<\/a>\u201c, do Instituto Socioambiental (ISA), mostra que o desmatamento na \u00e1rea aumentou mais de 27 mil por cento nos \u00faltimos dois anos (2020 e 2021), em compara\u00e7\u00e3o com os dois anos anteriores. Isso significa 2.361 hectares desmatados.<br \/>\nNo total acumulado, at\u00e9 21 de outubro do ano passado, j\u00e1 s\u00e3o 12.426 hectares devastados na terra ind\u00edgena, o que equivale a mais de 7 milh\u00f5es de \u00e1rvores derrubadas. O levantamento foi feito pelo sistema independente do ISA (Sirad), que conta com a base de dados do sistema de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amaz\u00f4nica Brasileira por Sat\u00e9lite (Prodes) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).<br \/>\nToda essa devasta\u00e7\u00e3o foi constatada a olho nu, a partir de um sobrev\u00f4o que o ISA realizou, em 25 de outubro de 2021, para coletar informa\u00e7\u00f5es para o dossi\u00ea e registrar os crimes ambientais que est\u00e3o sendo denunciados.<br \/>\nFicou evidente para os indigenistas que as atividades no entorno e dentro da TI est\u00e3o a pleno vapor, com a boiada no pasto, aberturas de estradas vicinais para retirar madeiras no territ\u00f3rio, constru\u00e7\u00e3o de a\u00e7udes e diversas casas de madeira.<br \/>\n\u201cA movimenta\u00e7\u00e3o dos caminh\u00f5es, a ocupa\u00e7\u00e3o das casas, as boas condi\u00e7\u00f5es das pastagens e o manejo do rebanho bovino no momento do sobrevoo evidenciam que as fazendas instaladas na TI n\u00e3o est\u00e3o paralisadas, mas exploram os recursos naturais e exercem atividade econ\u00f4mica e\/ou comercial\u201d, aponta o dossi\u00ea do ISA.<br \/>\nElias Bigio ressalta que tais atividades s\u00e3o ilegais, j\u00e1 que elas n\u00e3o poderiam ser ampliadas por conta da portaria de restri\u00e7\u00e3o de uso da \u00e1rea, at\u00e9 que se concluam os estudos de demarca\u00e7\u00e3o da terra ind\u00edgena e retirada em definitivo dos posseiros. Esses estudos se iniciaram em meados da d\u00e9cada de 1980 e nunca foram conclu\u00eddos pela Funai.<br \/>\n\u201cO que os propriet\u00e1rios das fazendas conseguiram na Justi\u00e7a foi a perman\u00eancia no local, usando a pandemia como argumento. No entanto, a decis\u00e3o do juiz \u00e9 clara no sentido de dizer que novos empreendimentos n\u00e3o podem ser abertos na terra ind\u00edgena, por conta da restri\u00e7\u00e3o de uso. No entanto, eles est\u00e3o restaurando empreendimentos que haviam sido desativados em 2008. Voltou tudo: a extra\u00e7\u00e3o de madeira, a grilagem\u201d, enfatiza.<br \/>\nO coordenador da Opan se refere a um recurso ingressado pelos fazendeiros que conseguiram, no Supremo Tribunal Federal (STF), reverter em partes a decis\u00e3o de 16 de julho de 2021, do juiz federal Frederico Pereira Martins que determinou que os invasores da TI Piripkura deveriam\u00a0 sair imediatamente da \u00e1rea, reintegrando assim a posse do territ\u00f3rio aos donos tradicionais.<br \/>\nPara ficar na TI, os fazendeiros utilizaram uma decis\u00e3o do STF que impede a desocupa\u00e7\u00e3o de moradias ou im\u00f3veis devido ao estado de calamidade provocado pela pandemia de Covid-19.<br \/>\nDessa forma, um m\u00eas depois da decis\u00e3o da desintrus\u00e3o (em 18 de agosto), o juiz federal Frederico teve que voltar atr\u00e1s, acolhendo parcialmente o apelo dos fazendeiros.<br \/>\n\u201cSendo assim, a <a href=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/com-atraso-de-seis-meses-sesai-vacina-adolescentes-aldeados-de-sao-gabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ADPF 709<\/a> determinou a desintrus\u00e3o de invasores, mas dentro de um plano de enfrentamento a ser feito pela Uni\u00e3o, com \u00eanfase, neste momento ainda de pandemia, na cria\u00e7\u00e3o de um cord\u00e3o de isolamento, o que acaba por impedir a retirada de qualquer r\u00e9u da \u00e1rea objeto do conflito\u201d, destacou o magistrado em sua nova decis\u00e3o.<br \/>\nInvestiga\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas apontam que o povo de Rita Piripkura habita a regi\u00e3o noroeste de Mato Grosso, j\u00e1 na floresta amaz\u00f4nica, h\u00e1 s\u00e9culos, nas proximidades dos rios Branco e Madeirinha. Desde a d\u00e9cada 1950, esse territ\u00f3rio \u00e9 alvo de explora\u00e7\u00e3o ilegal. Come\u00e7ou pelos seringueiros. Depois veio o garimpo com a explora\u00e7\u00e3o da cassiterita, e, a partir dos anos 1960, os governos estadual e federal incentivaram\u00a0 a invas\u00e3o loteando o territ\u00f3rio dos ind\u00edgenas.<br \/>\n\u201cEm 1967, um grupo de empres\u00e1rios paulistas visitou a regi\u00e3o, motivados pela propaganda dos governos militares de terras f\u00e9rteis e desabitadas, e j\u00e1 em 1970 s\u00e3o devastadas imensas \u00e1reas de floresta na regi\u00e3o para instala\u00e7\u00e3o da fazenda Castanhal, com 600 mil hectares, \u00e0 margem esquerda do rio Branco\u201d, contextualiza Bigio.<\/p>\n<h4><strong>Das boas lembran\u00e7as \u00e0s trag\u00e9dias<\/strong><\/h4>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\">\n<div id=\"attachment_90290\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-90290\" class=\"wp-image-90290\" src=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rita-Piripikura-6-1024x682.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rita-Piripikura-6-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rita-Piripikura-6-300x200.jpg 300w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rita-Piripikura-6-768x512.jpg 768w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rita-Piripikura-6-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rita-Piripikura-6-150x100.jpg 150w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rita-Piripikura-6.jpg 2000w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"682\" \/><p id=\"caption-attachment-90290\" class=\"wp-caption-text\">Rita Piripkura (Foto cedida por Helson Fran\u00e7a\/OPAN)<\/p><\/div><\/figure>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n<p>Quando puxa na mem\u00f3ria, Rita Piripkura\u00a0 ainda consegue lembrar de um tempo em que era feliz em sua comunidade, convivendo com os pais, os av\u00f3s e os dois irm\u00e3os: \u201cEu nasci num lugar que era cheio de tabocal (bambus), que a gente usava para fazer flautas e os rituais. Lembro de eu pequena, minha m\u00e3e me ensinando a fazer flauta. Eu gostava de correr pela mata, de comer mel e coco baba\u00e7u. Hoje j\u00e1 n\u00e3o sei mais fazer flauta e acabou o mel. Hoje, o lugar onde nasci, da minha inf\u00e2ncia, j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Est\u00e1 tudo derrubado pelo fazendeiro. Virou tudo pasto. S\u00f3 tem gado l\u00e1 agora\u201d, lamenta Rita.<br \/>\nDos pais, a ind\u00edgena se lembra que apesar de serem \u201cmuito r\u00edgidos\u201d tamb\u00e9m eram \u201cmuito legais\u201d. Ela se lembra com muita tristeza que, junto deles, teve que sair da aldeia por causa das persegui\u00e7\u00f5es dos invasores.\u00a0 Mas como era muito pequena n\u00e3o p\u00f4de fazer nada. Apenas fugir.<br \/>\nFoi nessa \u00e9poca que surgiram os grandes empreendimentos dentro do territ\u00f3rio dos Piripkura. E com eles veio a dizima\u00e7\u00e3o de um povo. Os conflitos entre os invasores e os ind\u00edgenas se acirraram, resultado na morte de dezenas de Piripkura por assassinato e doen\u00e7as dos brancos.<br \/>\n\u201cDepois que eu sa\u00ed do territ\u00f3rio, comecei a perder tudo. Tempo depois perdi dois filhos. Depois foi o meu marido que morreu tamb\u00e9m. A\u00ed fiquei muito triste, sabe? Porque eu lembrei da perda dos meus pais por doen\u00e7a de tosse e diarreia que eles pegaram dos brancos.\u00a0 A\u00ed a tristeza veio mais fundo, n\u00e9? Chorei, chorei bastante\u201d, recorda a sobrevivente.<br \/>\nRita Piripkura era muito pequena, mas se lembra dos relatos dos av\u00f3s. Contaram para ela que houve dois momentos importantes no conflito. O primeiro momento envolveu o assassinato dos ind\u00edgenas por serigueiros (decada de 1950). Depois disso (segundo momento, entre os anos 1960 e 1970), os sobreviventes fugiram e atravessaram o Rio Aripuan\u00e3, se refugiando mata adentro e entre os igarap\u00e9s. Boa parte desses ind\u00edgenas morreram posteriormente, tamb\u00e9m assassinados ou \u201cpelas doen\u00e7as dos brancos\u201d, que foi o caso dos pais de Rita.<br \/>\nNesse per\u00edodo, Rita conta que acabou indo parar em uma das fazendas da regi\u00e3o, com outros Piripkura sobreviventes dos ataques, onde trabalhou como cozinheira em condi\u00e7\u00f5es de escravid\u00e3o at\u00e9 ser resgatada por uma expedi\u00e7\u00e3o da Funai, em 1984, que tamb\u00e9m contou com o apoio da Opan.<br \/>\nA partir de ent\u00e3o ela passou a auxiliar o \u00f3rg\u00e3o indigenista na procura dos demais Piripkura, bem como na identifica\u00e7\u00e3o dos cemit\u00e9rios e aldeias de seu povo. Um ano depois (1985), j\u00e1 com uma s\u00e9rie de relatos dos seringueiros e trabalhadores das fazendas sobre a presen\u00e7a de \u201c\u00edndios arredios\u201d \u00e0s margens do Madeirinha, a Funai montou um GT (Grupo de Trabalho) para identifica\u00e7\u00e3o da TI Piripkura. Mas por conta da constante press\u00e3o dos pol\u00edticos da regi\u00e3o, e da for\u00e7a do agroneg\u00f3cio em Mato Grosso, a demarca\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio avan\u00e7ou muito pouco nos \u00faltimos 30 anos.<br \/>\nO que tem impedido as invas\u00f5es de forma definitiva s\u00e3o as portarias de Restri\u00e7\u00e3o de Uso de uma \u00e1rea de 243 mil hectares, que hoje \u00e9 considerada a TI Piripkura. Essas portarias s\u00e3o publicadas anualmente desde 2008, com renova\u00e7\u00e3o a cada dois anos.<br \/>\nMas para a surpresa dos indigenistas, a \u00faltima restri\u00e7\u00e3o, em 17 de setembro de 2021, s\u00f3 foi renovada por um per\u00edodo de seis meses. Ou seja, a <a href=\"https:\/\/www.socioambiental.org\/pt-br\/noticias-socioambientais\/funai-renova-portaria-da-terra-indigena-piripkura-por-apenas-seis-meses\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">portaria vencer\u00e1 em mar\u00e7o<\/a> deste ano e h\u00e1 uma grande expectativa se a Funai \u2013 sob a gest\u00e3o do governo Bolsonaro \u2013 renovar\u00e1 o documento novamente, para que a circula\u00e7\u00e3o e a entrada de pessoas, em tese, continue sendo limitada dentro do territ\u00f3rio Piripkura.<br \/>\nA renova\u00e7\u00e3o da portaria faz parte da campanha #IsoladosOuDizimados, das Organiza\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia Brasileira (Coiab) e do Observat\u00f3rio dos Direitos Humanos dos Povos Isolados e de Rec\u00e9m Contato (OPI). Ela tamb\u00e9m \u00e9 apoiada pelo ISA.<\/p>\n<h4><strong>O que diz a Funai?<\/strong><\/h4>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\">\n<div id=\"attachment_90345\" style=\"width: 1030px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-90345\" class=\"wp-image-90345\" src=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/piripkura-foto-Bruno-Jorge-Divulgacao-Canal-Curta.jpeg\" sizes=\"(max-width: 1020px) 100vw, 1020px\" srcset=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/piripkura-foto-Bruno-Jorge-Divulgacao-Canal-Curta.jpeg 1020w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/piripkura-foto-Bruno-Jorge-Divulgacao-Canal-Curta-300x176.jpeg 300w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/piripkura-foto-Bruno-Jorge-Divulgacao-Canal-Curta-768x452.jpeg 768w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/piripkura-foto-Bruno-Jorge-Divulgacao-Canal-Curta-150x88.jpeg 150w\" alt=\"\" width=\"1020\" height=\"600\" \/><p id=\"caption-attachment-90345\" class=\"wp-caption-text\">Os sobreviventes Tamandua e baita com o indigenista da Funai, Jair Candor (Foto: Bruno Jorge\/Divulga\u00e7\u00e3o Canal Curta)<\/p><\/div><\/figure>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n<p>A Funai, por meio de nota enviada \u00e0 <strong>Amaz\u00f4nia Real<\/strong>, afirma que tem prestado toda a assist\u00eancia aos Piripkura, \u201ccom a\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 prote\u00e7\u00e3o territorial, garantia da seguran\u00e7a alimentar e acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade\u201d. O \u00f3rg\u00e3o ressalta que na d\u00e9cada de 1980, quando os ind\u00edgenas foram contactados, a gest\u00e3o \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o teria adotado todas as medidas legais necess\u00e1rias para a demarca\u00e7\u00e3o da \u00e1rea.<br \/>\nNesse sentido, o \u00f3rg\u00e3o indigenista afirma que teve que montar um outro GT. Por\u00e9m os trabalhos est\u00e3o paralisados por\u00a0 conta de uma decis\u00e3o judicial, \u201co que pode acarretar uma s\u00e9rie de preju\u00edzos ao futuro dos ind\u00edgenas e \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o ambiental\u201d. A Funai, no entanto, n\u00e3o\u00a0 detalhou na nota o teor da decis\u00e3o.<br \/>\nSobre a portaria de Restri\u00e7\u00e3o de Uso, o \u00f3rg\u00e3o salienta que a normativa j\u00e1 foi renovada diversas vezes, \u201csem se dar in\u00edcio a qualquer processo de regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria com a apresenta\u00e7\u00e3o de uma proposta de identifica\u00e7\u00e3o e delimita\u00e7\u00e3o definitiva\u201d. No texto, a Funai afirma que \u201cir\u00e1 apresentar uma proposta definitiva sobre o tema\u201d, no entanto n\u00e3o estabelece nenhum prazo para isso.<br \/>\nO novo GT mencionado pela Funai foi criado por conta de um <a href=\"http:\/\/www.mpf.mp.br\/mt\/sala-de-imprensa\/noticias-mt\/piripkura-a-pedido-do-mpf-justica-determina-que-funai-nomeie-novo-coordenador-para-grupo-de-demarcacao-da-ti\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pedido em tutela de urg\u00eancia<\/a> feito pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal. Na a\u00e7\u00e3o, o MPF pediu a substitui\u00e7\u00e3o dos servidores da Funai indicados para compor o grupo t\u00e9cnico porque eles \u201cn\u00e3o possu\u00edam experi\u00eancia no trabalho com ind\u00edgenas em isolamento volunt\u00e1rio, tinham conflitos de interesses com a demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas, e, principalmente, n\u00e3o tinham a qualifica\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para realizar o trabalho\u201d.<br \/>\nO juiz federal acolheu os argumentos do MPF e determinou que a Funai nomeasse um novo coordenador para o GT de Identifica\u00e7\u00e3o da Terra Piripkura. A a\u00e7\u00e3o do MPF foi feita com base nas den\u00fancias de entidades ind\u00edgenas, indigenistas e acad\u00eamicas. Elas publicaram uma carta de rep\u00fadio apontando a suspei\u00e7\u00e3o dos primeiros nomeados da Funai.<br \/>\n\u201cA partir da publica\u00e7\u00e3o da nota, o MPF realizou uma pesquisa sobre cada um dos componentes do grupo de t\u00e9cnico institu\u00eddo pela Funai e confirmou as informa\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 suspei\u00e7\u00e3o dos servidores para desempenharem a fun\u00e7\u00e3o\u201d, destaca o MPF.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\">\n<div id=\"attachment_90295\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-90295\" class=\"wp-image-90295\" src=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/TI-Piripikura-2-1024x682.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/TI-Piripikura-2-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/TI-Piripikura-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/TI-Piripikura-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/TI-Piripikura-2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/TI-Piripikura-2-150x100.jpg 150w, https:\/\/amazoniareal.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/TI-Piripikura-2.jpg 2000w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"682\" \/><p id=\"caption-attachment-90295\" class=\"wp-caption-text\">Terra ind\u00edgena Piripkura (Foto cedida por Helson Fran\u00e7a\/OPAN)<\/p><\/div><\/figure>\n<figure class=\"wp-block-image\"><\/figure>\n<p><strong>Texto original dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/a-luta-de-rita-piripkura-para-salvar-seus-parentes\/\">https:\/\/amazoniareal.com.br\/a-luta-de-rita-piripkura-para-salvar-seus-parentes\/<\/a><\/strong><\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator\" \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amaz\u00f4nia Real Marcio Camilo 11 de janeiro de 2022 Amaz\u00f4nia brasileira Al\u00e9m dela, s\u00f3 h\u00e1 registro de mais dois Piripkura \u2013 seu irm\u00e3o Baita e seu sobrinho Tamandua -, que vivem amea\u00e7ados por fazendeiros, madeireiros e grileiros. Cuiab\u00e1 (MT) \u2013 Rita Piripkura \u00e9 uma das \u00faltimas sobreviventes de seu povo. Al\u00e9m dela, s\u00f3 h\u00e1 registro&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":333,"featured_media":30084,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-30083","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","description-off"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30083","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/333"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30083"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30083\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33028,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30083\/revisions\/33028"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/30084"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30083"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30083"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30083"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}