{"id":9326,"date":"2019-07-10T11:50:51","date_gmt":"2019-07-10T14:50:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.amazoniasocioambiental.org\/radar\/sebastiao-salgado-na-amazonia-serra-pelada\/"},"modified":"2019-07-10T11:56:58","modified_gmt":"2019-07-10T14:56:58","slug":"sebastiao-salgado-na-amazonia-serra-pelada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/radar\/sebastiao-salgado-na-amazonia-serra-pelada\/","title":{"rendered":"Sebasti\u00e3o Salgado na Amaz\u00f4nia: Serra Pelada"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Le\u00e3o Serva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Folha de S. Paulo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>07 de julho de 2019<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Amaz\u00f4nia brasileira<\/strong><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text]<\/p>\n<h4><b>Serra Pelada. <\/b>Em 1979, a descoberta de ouro no interior do Par\u00e1 arrastou multid\u00f5es de sonhadores para aquela que foi a maior mina a c\u00e9u aberto do globo; da saga resultaram um buraco na terra arrasada, a minera\u00e7\u00e3o clandestina em \u00e1rea ind\u00edgena e este documento visual que comoveu o mundo.<\/h4>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=\u00bb9314&#8243; img_size=\u00bbfull\u00bb alignment=\u00bbcenter\u00bb css_animation=\u00bbfadeIn\u00bb][vc_column_text]<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><em>&#8216;Formiga&#8217;, trabalhador cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 carregar saco de at\u00e9 40 kg, chega ao alto da mina via escada batizada de &#8216;adeus, mam\u00e3e&#8217;, em imagem de 1986 na Serra Pelada, como as demais deste especial<\/em><\/h5>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h2 style=\"text-align: left;\"><strong>40 anos depois de Serra Pelada, garimpo \u00e9 fonte de conflito e devasta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p>Tudo aconteceu h\u00e1 40 anos. Uma crian\u00e7a encontrou uma pedrinha dourada na beira de um riacho, em uma fazenda no interior do Par\u00e1. O pai levou o achado ao dono da terra, que enviou a pedra \u00e0 cidade de Marab\u00e1 para ver se o que reluzia era mesmo ouro.<\/p>\n<p>Garimpeiros dizem que nada \u00e9 mais r\u00e1pido do que fofoca de ouro. Era o final de 1979. Junto com a confirma\u00e7\u00e3o da pepita descoberta \u00e0 flor da terra, na regi\u00e3o de Caraj\u00e1s, j\u00e1 chegaram de Marab\u00e1 alguns garimpeiros. Em poucos dias, muitos outros.<\/p>\n<p>O dono da terra tentou controlar o processo atribuindo a alguns homens a exclusividade da explora\u00e7\u00e3o e cobrando 10% do ouro extra\u00eddo. Mas, em dias, eram milhares de garimpeiros, em meses, dezenas de milhares, e, em um ano, pelo menos 50 mil.<\/p>\n<p>Por dez anos, Serra Pelada foi a maior mina a c\u00e9u aberto do mundo. Quando a febre terminou, em 1990, houve migra\u00e7\u00e3o de homens para Roraima, na terra yanomami. L\u00e1, hoje, a minera\u00e7\u00e3o ilegal \u00e9 foco de instabilidade e devasta\u00e7\u00e3o e re\u00fane cerca de 20 mil garimpeiros, segundo lideran\u00e7as ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Duas semanas atr\u00e1s, um soldado perdeu parte da m\u00e3o em um confronto com garimpeiros. A Funai anuncia a abertura de postos fixos de vigil\u00e2ncia na pr\u00f3xima quinzena. Garimpo e devasta\u00e7\u00e3o andam juntos: o surgimento de Serra Pelada coincidiu com a intensifica\u00e7\u00e3o do desmatamento no Par\u00e1, que desde os anos 1980 perdeu uma \u00e1rea de floresta equivalente ao estado do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Desde o come\u00e7o, os pioneiros do ouro de Caraj\u00e1s dividiram entre si a \u00e1rea sobre uma colina de 150 metros e a desmataram para cavar. Cada lote tinha 2 x 3 metros. Surgiu assim o nome que se tornaria conhecido em todo o planeta: Serra Pelada.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, a colina foi dando lugar a um buraco com 200 m de profundidade e 200 m de di\u00e2metro.<\/p>\n<p>Levantamentos do governo no in\u00edcio dos anos 1970 j\u00e1 apontavam aquela como uma regi\u00e3o mineral rica. Tudo estava reservado para a ent\u00e3o estatal Companhia Vale do Rio Doce. Quando a empresa quis retomar o controle, percebeu que seria imposs\u00edvel faz\u00ea-lo sem o uso de for\u00e7as de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>O governo do general Jo\u00e3o Figueiredo (1979-1985) enviou ent\u00e3o ao local, como interventor, o major Curi\u00f3, apelido de Sebasti\u00e3o Rodrigues de Moura, que tinha participado da repress\u00e3o \u00e0 Guerrilha do Araguaia.<\/p>\n<p>O militar chegou no in\u00edcio de 1980. Prometeu aos garimpeiros que a Vale n\u00e3o os expulsaria e extinguiu o d\u00edzimo cobrado pelo fazendeiro. Virou her\u00f3i. Em contrapartida, delimitou uma grande \u00e1rea em torno da mina em que proibiu o porte de armas, a presen\u00e7a de mulheres e o consumo de \u00e1lcool. Tamb\u00e9m obrigou que todo o ouro fosse vendido ao posto local da Caixa Econ\u00f4mica, que pagava \u00e0 vista, mas abaixo do pre\u00e7o de mercado.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o no centro de garimpo fez surgir a 30 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia a Vila Trinta, \u00e0s margens da rodovia PA-175. O que Curi\u00f3 proibia na mina era livre ali.<\/p>\n<p>\u201cDe dia \u00e9 30, de noite \u00e9 38\u201d, era a refer\u00eancia aos constantes tiroteios na vila. Bebidas e prostitui\u00e7\u00e3o seguiam pre\u00e7os praticados em boates de luxo no Rio e em S\u00e3o Paulo. Em meados de 1980, Curi\u00f3 decidiu organizar a Vila Trinta tamb\u00e9m, assumindo a fun\u00e7\u00e3o de \u201cprefeito\u201d.<\/p>\n<p>O governo militar fez passar no Congresso uma indeniza\u00e7\u00e3o de cerca de US$ 55 milh\u00f5es para a Vale do Rio Doce, que estava pressionada por acionistas minorit\u00e1rios. Com isso, os direitos de minera\u00e7\u00e3o ficaram com a cooperativa dos garimpeiros.<\/p>\n<p>Em dez anos, uma quantidade impressionante de ouro saiu da mina -os c\u00e1lculos chegam a mais de 100 toneladas, sem contar o contrabando. O Brasil, que fora o maior produtor do metal entre 1750 e 1850, voltou ao ranking gra\u00e7as \u00e0 Serra Pelada.<\/p>\n<p>Na segunda metade dos anos 1980, por\u00e9m, a produtividade come\u00e7ou a cair. Em 1989, foram s\u00f3 13 quilos, insuficientes para sustentar milhares de homens e manter equipamentos, como bombas que drenavam \u00e1gua no fundo da cratera.<\/p>\n<p>Em 1992, o ent\u00e3o presidente Fernando Collor decidiu cancelar a concess\u00e3o aos garimpeiros e fechar o local. Serra Pelada virou o alvo de disputas judiciais entre garimpeiros e mineradoras.<\/p>\n<p>Com as bombas desligadas, o len\u00e7ol fre\u00e1tico inundou o buraco, formando um reservat\u00f3rio com mais de 600 mil metros c\u00fabicos de \u00e1gua, algo como 250 piscinas ol\u00edmpicas.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 polui\u00e7\u00e3o por merc\u00fario, no entanto, o lago n\u00e3o pode ser aproveitado nem para a cria\u00e7\u00e3o de peixes.<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o Salgado fotografou Serra Pelada em 1986, ao iniciar a documenta\u00e7\u00e3o sobre o fim do trabalho manual, no seu projeto \u201cTrabalhadores\u201d. As imagens que captou, publicadas na Europa no final daquele ano, causaram grande repercuss\u00e3o. Cerca de 30 fotos foram editadas, e os demais negativos, arquivados.<\/p>\n<p>Agora, aos 40 anos da descoberta do ouro, Salgado e a mulher, a curadora L\u00e9lia Wanick, reeditaram os originais. A nova sele\u00e7\u00e3o ser\u00e1 exposta a partir de 17 de julho no Sesc Paulista, em S\u00e3o Paulo, onde tamb\u00e9m vai ser lan\u00e7ado o livro \u201cGold\u201d, impresso em diferentes l\u00ednguas para distribui\u00e7\u00e3o mundial pela editora Taschen.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=\u00bb9311&#8243; img_size=\u00bbfull\u00bb css_animation=\u00bbfadeIn\u00bb][vc_column_text]<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><em>Detalhe da subida de trabalhadores pela encosta da mina de ouro de Serra Pelada, no interior do Par\u00e1<\/em><\/h5>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h2><strong>Mina de ouro parecia formigueiro ca\u00f3tico, mas era um sistema bem organizado<\/strong><\/h2>\n<p>A impress\u00e3o que se tem ao olhar as fotos de Serra Pelada \u00e9 de um formigueiro de gente em uma confus\u00e3o absoluta. Mas no caos aparente havia uma ordem minuciosa.<\/p>\n<p>\u201cLogo aprendi que aquilo que \u00e0 primeira vista parecia um movimento desordenado era, na verdade, um sistema muito sofisticado, no qual cada um dos mais de 50 mil trabalhadores sabia que papel havia escolhido desempenhar\u201d, explica o fot\u00f3grafo Sebasti\u00e3o Salgado.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, \u00e9 poss\u00edvel observar que as paredes da cratera n\u00e3o eram completamente verticais nem lisas. Elas mais pareciam uma composi\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica, semelhante \u00e0s gravuras do artista holand\u00eas Maurits Escher (1898-1972), com escadas subindo e descendo de pequenos espa\u00e7os de terra de 2 m x 3 m, do tamanho de uma vaga de autom\u00f3vel, que se projetavam como se estivessem pendurados na parede.<\/p>\n<p>Esses lotes, chamados de \u201cbarrancos\u201d, pertenciam aos pioneiros, os garimpeiros que chegaram nas primeiras semanas logo ap\u00f3s a descoberta do ouro na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Eles formaram uma cooperativa, lotearam a mina e sortearam em 1979 e 1980 quem ficaria com qual dos mais de 200 \u201cbarrancos\u201d.<\/p>\n<p>Os donos dos lotes contratavam cinco tipos de trabalhadores. O primeiro era o \u201cmeia pra\u00e7a\u201d, que definia quem iria escavar um certo local e que recebia 5% sobre o ouro encontrado no lote. Sua roupa estava sempre mais limpa que a dos outros, e ele n\u00e3o portava ferramentas.<\/p>\n<p>Todos os demais eram assalariados: o \u201ccavador\u201d era quem rompia o solo com picaretas; o \u201cformiga\u201d levava para fora da cratera os sacos de terra que pesavam cerca de 40 quilos, subindo as escadas apelidadas de \u201cadeus, mam\u00e3e\u201d.<\/p>\n<p>Esses trabalhadores eram monitorados pelo \u201capontador\u201d, que contava quantos sacos subiam e que podia ser visto, com a camisa mais limpa, segurando um caderno de anota\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Fora da cratera, os sacos eram entregues ao \u201capurador\u201d, que lavava a terra, usando a bateia (bandeja redonda e funda), e depois fazia a separa\u00e7\u00e3o do ouro usando merc\u00fario. Por \u00faltimo, era feita a queima do merc\u00fario, para purificar o metal.<\/p>\n<p>O ouro encontrado era fundido em barras ou pepitas e vendido ao posto da Caixa Econ\u00f4mica Federal a um pre\u00e7o 15% menor do que o praticado no mercado internacional.<\/p>\n<p>Quando um barranco produzia ouro, o garimpeiro-empres\u00e1rio ia bem, pagava as contas de seus empregados e embolsava o lucro. Quando passava algum tempo sem conseguir extrair, acabava por tomar empr\u00e9stimos ou vender participa\u00e7\u00e3o em seu barranco.<\/p>\n<p>Quem fazia esse papel de banqueiro eram os pioneiros bem-sucedidos ou gente de fora que financiava os donos de lotes em troca de participa\u00e7\u00f5es nos resultados do trabalho.<\/p>\n<p>Muitos garimpeiros que trabalharam em Serra Pelada repetem ainda hoje uma lenda segundo a qual h\u00e1, sob a antiga mina, uma laje de 50 toneladas de ouro puro. \u00c9 um mito.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9308\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Briga-de-garimpeiros-em-Serra-Pelada-cena-bastante-comum.jpg\" alt=\"\" width=\"2200\" height=\"1469\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Briga-de-garimpeiros-em-Serra-Pelada-cena-bastante-comum.jpg 2200w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Briga-de-garimpeiros-em-Serra-Pelada-cena-bastante-comum-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Briga-de-garimpeiros-em-Serra-Pelada-cena-bastante-comum-768x513.jpg 768w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Briga-de-garimpeiros-em-Serra-Pelada-cena-bastante-comum-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Briga-de-garimpeiros-em-Serra-Pelada-cena-bastante-comum-500x334.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 2200px) 100vw, 2200px\" \/><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><em>Briga de garimpeiros em Serra Pelada, cena bastante comum<\/em><\/h5>\n<p>Segundo Felipe Tavares, ge\u00f3logo que estudou a serra de Caraj\u00e1s em seu doutorado, ali existe mesmo um dep\u00f3sito de ouro, mas est\u00e1 disperso em pequenos tra\u00e7os de rocha.<\/p>\n<p>\u201cTem muito min\u00e9rio, mas n\u00e3o h\u00e1 um modelo de explora\u00e7\u00e3o que permita extra\u00ed-lo de forma economicamente vi\u00e1vel\u201d, diz Tavares, que \u00e9 chefe da divis\u00e3o de geologia econ\u00f4mica da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais.<\/p>\n<p>Segundo pesquisadores, h\u00e1 mesmo 50 toneladas de ouro na rocha profunda de Serra Pelada. Mas seria preciso triturar toneladas de pedras e submet\u00ea-las a processos qu\u00edmicos para obter alguns gramas do metal.<\/p>\n<p>Tavares conta que a Colossus, uma empresa canadense, investiu muito dinheiro em t\u00faneis para tentar acessar a rocha sob o lago, e percebeu que precisaria de muito mais para conseguir voltar a extrair algum ouro de Serra Pelada. A empresa acabou falindo em 2014.<\/p>\n<p>O que explica a exist\u00eancia de reservas de ouro t\u00e3o ricas em alguns lugares do Brasil, como o Par\u00e1, \u00e9 a antiguidade do terreno. \u201cToda a serra de Caraj\u00e1s, que inclui Serra Pelada, foi formada no per\u00edodo arqueano, entre 2,7 bilh\u00f5es e 3 bilh\u00f5es de anos atr\u00e1s\u201d, diz o ge\u00f3logo.<\/p>\n<p>Nesses lugares, movimentos geol\u00f3gicos podem fazer com que um veio mais antigo aflore e fique exposto. Em Serra Pelada, o ouro aflorou h\u00e1 \u201capenas\u201d 40 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 no final dos anos 1960, os estudiosos sabiam que ali seria uma regi\u00e3o rica porque foi encontrada a grande reserva de ferro de Caraj\u00e1s, em 1967. E onde h\u00e1 muito ferro, tende a ter outros min\u00e9rios tamb\u00e9m, como ouro\u201d, diz o ge\u00f3logo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9287\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mapa-Raisg.jpg\" alt=\"\" width=\"527\" height=\"628\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mapa-Raisg.jpg 527w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mapa-Raisg-252x300.jpg 252w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mapa-Raisg-500x596.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 527px) 100vw, 527px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9284\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/graficos-producao-ouro.jpg\" alt=\"\" width=\"531\" height=\"218\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/graficos-producao-ouro.jpg 531w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/graficos-producao-ouro-300x123.jpg 300w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/graficos-producao-ouro-500x205.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 531px) 100vw, 531px\" \/><\/p>\n<p>Embora Serra Pelada tenha se tornado um s\u00edmbolo, ela n\u00e3o \u00e9 a maior mina do Brasil. \u201cNa Amaz\u00f4nia, a reserva de Salobo, em Marab\u00e1, que vem sendo explorada pela Vale, \u00e9 muito maior do que Serra Pelada. Ali, o ouro \u00e9 secund\u00e1rio, o cobre \u00e9 o principal\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Se em Serra Pelada, como em Minas Gerais, o ouro aparece em dep\u00f3sitos subterr\u00e2neos profundos, em outros lugares da Amaz\u00f4nia ele est\u00e1 quase na superf\u00edcie, como na areia das margens dos rios que atravessam a terra dos yanomamis, em Roraima, ou dos mundurukus, no Par\u00e1, na bacia do rio Tapaj\u00f3s.<\/p>\n<p>\u00c9 dessas \u00e1reas demarcadas que sai hoje boa parte da produ\u00e7\u00e3o de ouro do pa\u00eds, extra\u00eddo de maneira ilegal.<\/p>\n<h3>BRASIL FOI O PA\u00cdS QUE MAIS PRODUZIU OURO NO MUNDO ENTRE 1750 E 1850<\/h3>\n<p>O Brasil h\u00e1 muito deixou a posi\u00e7\u00e3o de maior produtor mundial, que ocupou entre 1750 e 1850.<\/p>\n<p>No fim do per\u00edodo colonial, com produ\u00e7\u00e3o de 16 toneladas ao ano, o pa\u00eds extraiu o ouro que financiaria a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, na Inglaterra.<\/p>\n<p>Com o esgotamento do garimpo de Minas Gerais, perdeu relev\u00e2ncia no mercado internacional. A produ\u00e7\u00e3o nacional s\u00f3 voltaria a crescer depois da descoberta de Serra Pelada, em 1979: em 1980, foram extra\u00eddas 40 toneladas; em 1985, 62 toneladas (4,1% do total mundial).<\/p>\n<p>A queda da produ\u00e7\u00e3o em Serra Pelada, na segunda metade dos anos 1980, foi compensada pelo garimpo na \u00e1rea yanomami, o que elevou o total para 80 toneladas em 1990.<\/p>\n<p>O fechamento de Serra Pelada e a expuls\u00e3o dos garimpeiros ilegais de Roraima, a partir de 1992, derrubaram o volume produzido, que chegou a 38 toneladas em 2005.<\/p>\n<p>Com a crise de 2008, o pre\u00e7o do ouro subiu e gerou um novo ciclo de garimpo em v\u00e1rios pontos da Amaz\u00f4nia, como nas \u00e1reas dos yanomamis e dos mundurukus.<\/p>\n<p>Essa extra\u00e7\u00e3o ilegal se refletiu na produ\u00e7\u00e3o, que foi para 58 toneladas em 2010 e 70 toneladas em 2012, \u00faltimo dado do Instituto Brasileiro de Minera\u00e7\u00e3o. Segundo o Conselho Mundial do Ouro, em 2018 foram produzidas 97 toneladas, mais que todo o per\u00edodo de Serra Pelada.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9299\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Vaiv\u00e9m-na-\u00e1rea-de-apura\u00e7\u00e3o-onde-era-feita-a-separa\u00e7\u00e3o-de-terra-e-ouro.jpg\" alt=\"\" width=\"2200\" height=\"1450\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Vaiv\u00e9m-na-\u00e1rea-de-apura\u00e7\u00e3o-onde-era-feita-a-separa\u00e7\u00e3o-de-terra-e-ouro.jpg 2200w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Vaiv\u00e9m-na-\u00e1rea-de-apura\u00e7\u00e3o-onde-era-feita-a-separa\u00e7\u00e3o-de-terra-e-ouro-300x198.jpg 300w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Vaiv\u00e9m-na-\u00e1rea-de-apura\u00e7\u00e3o-onde-era-feita-a-separa\u00e7\u00e3o-de-terra-e-ouro-768x506.jpg 768w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Vaiv\u00e9m-na-\u00e1rea-de-apura\u00e7\u00e3o-onde-era-feita-a-separa\u00e7\u00e3o-de-terra-e-ouro-1024x675.jpg 1024w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Vaiv\u00e9m-na-\u00e1rea-de-apura\u00e7\u00e3o-onde-era-feita-a-separa\u00e7\u00e3o-de-terra-e-ouro-500x330.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 2200px) 100vw, 2200px\" \/><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><em>Vaiv\u00e9m na \u00e1rea de apura\u00e7\u00e3o, onde era feita a separa\u00e7\u00e3o de terra e ouro<\/em><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>MULHER SE DISFAR\u00c7OU DE HOMEM PARA TRABALHAR EM SERRA PELADA<\/h3>\n<p>Marina Cant\u00e3o \u00e9 mi\u00fada, morena e franzina. No pesco\u00e7o, leva pendurada uma pequena pepita de ouro. \u00c9 a mem\u00f3ria dos tempos de garimpo, que h\u00e1 muito ficaram para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Seu restaurante em Boa Vista, capital de Roraima, o Marina Meu Caso, \u00e9 apontado na internet como um dos melhores da cidade. Serve quase um s\u00f3 prato e uma bebida: peixe com bai\u00e3o de dois e cerveja.<\/p>\n<p>O que falta em variedade gastron\u00f4mica ela preenche com o principal tempero da casa: suas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Os casos preferidos s\u00e3o os que ela vivenciou em Serra Pelada. Como uma mulher pequenina conseguiu driblar a proibi\u00e7\u00e3o imposta pelo poderoso major Curi\u00f3, apelido de Sebasti\u00e3o Rodrigues de Moura, militar que, ao assumir o controle do garimpo no in\u00edcio de 1980, proibiu mulheres na \u00e1rea?<\/p>\n<p>Sua resposta \u00e9 semelhante \u00e0 de outras mulheres que furaram o cerco: fazendo-se passar por homem.<\/p>\n<p>Nascida na Ilha de Maraj\u00f3 (Par\u00e1), Marina chegou a Serra Pelada para trabalhar em um restaurante. Como milhares de brasileiros, sonhava garimpar e ficar rica. Um dia, morreu um travesti de Goi\u00e1s, que tamb\u00e9m trabalhava em um restaurante da regi\u00e3o. Marina falsificou a identidade do morto e se p\u00f4s a trabalhar no garimpo disfar\u00e7ada de homem.<\/p>\n<p>Logo constatou o que as hist\u00f3rias das corridas do ouro revelam: pouqu\u00edssimos ficam ricos e muitos n\u00e3o encontram nada. Quem se d\u00e1 bem s\u00e3o os fornecedores de servi\u00e7os essenciais aos trabalhadores.<\/p>\n<p>Marina abriu um restaurante na violenta Vila Trinta, formada a 30 quil\u00f4metros do garimpo, e mantinha sempre \u00e0 m\u00e3o o rev\u00f3lver que lhe rendeu o apelido de \u201cGoiana do 38\u201d (ela seguia usando a identidade do morto, passando-se por travesti).<\/p>\n<p>Quando o ouro de Serra Pelada come\u00e7ou a secar, em 1987, ela partiu em busca do novo Eldorado: as florestas de Roraima.<\/p>\n<p>Com algum dinheiro, voltou ao garimpo, desta vez como empres\u00e1ria, operando na \u00e1rea chamada Paapi\u00fa. Controlava uma balsa com v\u00e1rios empregados e equipamentos necess\u00e1rios para o trabalho na margem de rios -bombas para jatear as barrancas, motor para dragar a lama e esteiras para apurar o ouro.<\/p>\n<p>Os ventos viraram quando Collor reconheceu a Terra Ind\u00edgena Yanomami e expulsou os garimpeiros, em 1992. Marina foi ent\u00e3o para a Venezuela -ela diz que n\u00e3o se deu conta de que estava al\u00e9m da fronteira.<\/p>\n<p>Em seguida \u00e0 a\u00e7\u00e3o do governo brasileiro, o pa\u00eds vizinho realizou uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es repressivas para impedir a ocupa\u00e7\u00e3o de suas terras por garimpeiros ilegais. A aventureira perdeu sua balsa em uma blitz e ficou perambulando v\u00e1rios dias pela floresta, at\u00e9 encontrar um outro grupo de garimpeiros, com quem chegou a Boa Vista.<\/p>\n<p>Ao se instalar na capital de Roraima, decidiu com o marido, Boboco, parar com as aventuras e voltar a se dedicar \u00e0 culin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Seu primeiro restaurante funcionou em um barco no porto da cidade. Depois, instalou-o em um terreno \u00e0s margens do rio Branco, onde est\u00e1 at\u00e9 hoje.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=\u00bb9293&#8243; img_size=\u00bbfull\u00bb alignment=\u00bbcenter\u00bb css_animation=\u00bbfadeIn\u00bb][vc_column_text]<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><em>O centro do buraco cavado em Serra Pelada, que hoje virou um lago contaminado<\/em><\/h5>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h2><strong>Cresce em um ano a minera\u00e7\u00e3o ilegal na terra dos yanomamis<\/strong><\/h2>\n<p>Nos \u00faltimos meses, a Terra Ind\u00edgena Yanomami, em Roraima, sofreu uma verdadeira explos\u00e3o no n\u00famero de garimpeiros.<\/p>\n<p>O total deles passou de cerca de 3.000 a 5.000, no in\u00edcio de 2018, para 15 mil a 20 mil hoje, segundo a Hutukara, entidade que representa os ind\u00edgenas, e agentes da Funai ouvidos pela Folha.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio dos anos 1990, quando a terra ind\u00edgena foi criada e cerca de 40 mil garimpeiros foram expulsos, \u00e9 a primeira vez que o n\u00famero de mineradores chega \u00e0 casa de dois d\u00edgitos de milhares. H\u00e1 hoje na regi\u00e3o quase um garimpeiro para cada yanomami brasileiro.<\/p>\n<p>A Funai anunciou que, na segunda quinzena deste m\u00eas de julho, iniciar\u00e1 a reinstala\u00e7\u00e3o de bases de vigil\u00e2ncia permanentes para o combate ao garimpo na terra ind\u00edgena.<\/p>\n<p>A primeira delas ser\u00e1 no rio Uraricoera, principal rota de entrada e abastecimento para os garimpos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9278\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-com-camisas-listradas-usadas-para-que-o-apontador-identificasse-o-grupo-que-achava-um-fil\u00e3o-de-ouro-em-determinado-lote.jpg\" alt=\"\" width=\"2200\" height=\"1469\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-com-camisas-listradas-usadas-para-que-o-apontador-identificasse-o-grupo-que-achava-um-fil\u00e3o-de-ouro-em-determinado-lote.jpg 2200w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-com-camisas-listradas-usadas-para-que-o-apontador-identificasse-o-grupo-que-achava-um-fil\u00e3o-de-ouro-em-determinado-lote-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-com-camisas-listradas-usadas-para-que-o-apontador-identificasse-o-grupo-que-achava-um-fil\u00e3o-de-ouro-em-determinado-lote-768x513.jpg 768w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-com-camisas-listradas-usadas-para-que-o-apontador-identificasse-o-grupo-que-achava-um-fil\u00e3o-de-ouro-em-determinado-lote-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-com-camisas-listradas-usadas-para-que-o-apontador-identificasse-o-grupo-que-achava-um-fil\u00e3o-de-ouro-em-determinado-lote-500x334.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 2200px) 100vw, 2200px\" \/><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><em>&#8216;Formigas&#8217; com camisas listradas, usadas para que o &#8216;apontador&#8217; identificasse o grupo que achava um fil\u00e3o de ouro em determinado lote<\/em><\/h5>\n<p>No segundo semestre de 2018, o Ex\u00e9rcito realizou uma opera\u00e7\u00e3o de combate ao garimpo, implantando bases fixas nos rios Uraricoera e Mucaja\u00ed, os mesmos onde a Funai pretende atuar a partir de agora. Ap\u00f3s a medida, cerca de 2.000 homens deixaram a \u00e1rea por falta de abastecimento para suas atividades.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de suspender a opera\u00e7\u00e3o militar, em dezembro passado, e a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro, que fez da cr\u00edtica \u00e0s reservas ind\u00edgenas uma das plataformas de campanha, foram um sinal verde para os garimpeiros.<\/p>\n<p>Desde a posse do novo governo federal, aproximadamente 10 mil novos garimpeiros chegaram \u00e0 regi\u00e3o, segundo os l\u00edderes ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>O clima de tens\u00e3o na \u00e1rea se acirrou no final de junho, quando uma embarca\u00e7\u00e3o de garimpeiros resistiu \u00e0 ordem de parada dada por uma patrulha e arremeteu contra o barco do Ex\u00e9rcito. No incidente, um militar foi ferido e perdeu parte da m\u00e3o. Um garimpeiro foi preso.<\/p>\n<p>A nova a\u00e7\u00e3o da Funai atende a uma decis\u00e3o judicial que definia o m\u00eas de junho como prazo para o restabelecimento das bases implantadas no in\u00edcio da d\u00e9cada e suspensas em 2015 devido a cortes no or\u00e7amento.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9281\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-sobem-as-escadas.jpg\" alt=\"\" width=\"1369\" height=\"2048\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-sobem-as-escadas.jpg 1369w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-sobem-as-escadas-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-sobem-as-escadas-768x1149.jpg 768w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-sobem-as-escadas-684x1024.jpg 684w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-sobem-as-escadas-500x748.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 1369px) 100vw, 1369px\" \/><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><em>&#8216;Formigas&#8217; sobem as escadas<\/em><\/h5>\n<p>No ano passado, decis\u00e3o da Primeira Vara da Justi\u00e7a Federal em Boa Vista, em a\u00e7\u00e3o iniciada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, determinou que a Funai, a Uni\u00e3o e o governo de Roraima implantem e mantenham as bases, garantindo o or\u00e7amento necess\u00e1rio para seu funcionamento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de um posto na calha do Uraricoera, devem ser implantados em seguida dois outros, um no rio Mucaja\u00ed e o terceiro na serra da Estrutura, pr\u00f3ximo a um local habitado por um grupo yanomami isolado, chamado \u201cmoxihatetea\u201d em l\u00edngua yanomami. Em julho do ano passado, houve um conflito entre garimpeiros e membros desse grupo.<\/p>\n<p>Os garimpos ilegais t\u00eam provocado grande impacto ambiental na \u00e1rea. A concentra\u00e7\u00e3o de merc\u00fario no corpo dos moradores se tornou excessiva, e as aldeias localizadas pr\u00f3ximas de rios est\u00e3o sendo levadas a perfurar po\u00e7os artesianos para evitar o consumo da \u00e1gua polu\u00edda. Al\u00e9m disso, os \u00edndios t\u00eam sido obrigados a evitar o consumo de peixes.<\/p>\n<p>Um estudo publicado pela Fiocruz (Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz) em 2016 apontou n\u00edveis alarmantes do metal na popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena da Terra Ind\u00edgena Yanomami. Em algumas aldeias, o excesso do metal no corpo atinge 92% dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>O garimpo em Roraima \u00e9 todo clandestino. N\u00e3o h\u00e1 uma mina ou lavra oficializada em todo o estado, dentro ou fora de \u00e1reas ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Ao longo dos \u00faltimos cinco anos, esse garimpo se tornou mais intenso, profissional e organizado.<\/p>\n<p>E, mais recentemente, a atividade se internacionalizou: o \u00f3rg\u00e3o do governo federal que acompanha as exporta\u00e7\u00f5es (Comex) aponta que Roraima exportou 200 quilos de ouro para a \u00cdndia desde setembro de 2018, mesmo sem ter minas registradas.<\/p>\n<p>Os sinais de aumento da minera\u00e7\u00e3o ilegal s\u00e3o evidentes pelo tamanho da devasta\u00e7\u00e3o e pelos equipamentos utilizados, como o rep\u00f3rter constatou ao visitar a Terra Ind\u00edgena Yanomami nos anos de 2014, 2015, 2018 e 2019.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de causar todos esses problemas, o garimpo tamb\u00e9m favorece a expans\u00e3o da mal\u00e1ria. A doen\u00e7a ainda est\u00e1 presente em toda a Amaz\u00f4nia, especialmente na periferia das cidades e nas pequenas vilas ribeirinhas. A sua incid\u00eancia \u00e9 potencializada com o desmatamento.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9305\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Apuradores-usam-bateia-para-lavar-a-terra-em-busca-de-ouro.jpg\" alt=\"\" width=\"2200\" height=\"1469\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Apuradores-usam-bateia-para-lavar-a-terra-em-busca-de-ouro.jpg 2200w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Apuradores-usam-bateia-para-lavar-a-terra-em-busca-de-ouro-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Apuradores-usam-bateia-para-lavar-a-terra-em-busca-de-ouro-768x513.jpg 768w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Apuradores-usam-bateia-para-lavar-a-terra-em-busca-de-ouro-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Apuradores-usam-bateia-para-lavar-a-terra-em-busca-de-ouro-500x334.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 2200px) 100vw, 2200px\" \/><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><em>&#8216;Apuradores&#8217; usam bateia para lavar a terra em busca de ouro<\/em><\/h5>\n<p>Quando se corta a floresta, a popula\u00e7\u00e3o de mosquitos cresce, porque desaparecem seus predadores. Somem tamb\u00e9m os animais que os mosquitos atacam. Os garimpeiros e os \u00edndios, portanto, se tornam os seus alvos. E, ao picar mineradores contaminados, os mosquitos transmitem a doen\u00e7a a outras pessoas.<\/p>\n<p>Quando a mal\u00e1ria se espalha, os garimpeiros procuram os postos da Secretaria de Sa\u00fade Ind\u00edgena das aldeias pr\u00f3ximas, consumindo os kits de testes e rem\u00e9dios. O \u00f3rg\u00e3o que deve cuidar da sa\u00fade dos \u00edndios acaba, assim, destinando parte de seu or\u00e7amento para tratar invasores brancos que levam doen\u00e7a para a \u00e1rea ind\u00edgena.<\/p>\n<h3>SUCESSO DE MAJOR CURI\u00d3 NO PAR\u00c1 INSPIROU OCUPA\u00c7\u00c3O EM RORAIMA<\/h3>\n<p>Foi tamanha a popularidade do major Curi\u00f3, o interventor enviado pelo governo \u00e0 Serra Pelada quando ali explodiu o garimpo, que ele acabou atuando como \u201cprefeito\u201d da Vila Trinta, bairro que os garimpeiros passaram a chamar de Curion\u00f3polis. Em 2002, quando a vila se transformou em munic\u00edpio -e foi batizada mesmo com o nome de Curion\u00f3polis\u2013, o major foi eleito de fato como seu primeiro prefeito.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9272\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-carregam-sacos-com-terra-para-fora-da-mina-1.jpg\" alt=\"\" width=\"2200\" height=\"1469\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-carregam-sacos-com-terra-para-fora-da-mina-1.jpg 2200w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-carregam-sacos-com-terra-para-fora-da-mina-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-carregam-sacos-com-terra-para-fora-da-mina-1-768x513.jpg 768w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-carregam-sacos-com-terra-para-fora-da-mina-1-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-carregam-sacos-com-terra-para-fora-da-mina-1-500x334.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 2200px) 100vw, 2200px\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9275\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-carregam-sacos-com-terra-para-fora-da-mina-2.jpg\" alt=\"\" width=\"2200\" height=\"1469\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-carregam-sacos-com-terra-para-fora-da-mina-2.jpg 2200w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-carregam-sacos-com-terra-para-fora-da-mina-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-carregam-sacos-com-terra-para-fora-da-mina-2-768x513.jpg 768w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-carregam-sacos-com-terra-para-fora-da-mina-2-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Formigas-carregam-sacos-com-terra-para-fora-da-mina-2-500x334.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 2200px) 100vw, 2200px\" \/><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><em>&#8216;Formigas&#8217; carregam sacos com terra para fora da mina<\/em><\/h5>\n<p>Segundo a Folha apurou na \u00e9poca, o sucesso em fazer dos garimpeiros uma for\u00e7a popular de apoio ao regime militar entusiasmou generais que, anos depois, quiseram ocupar a chamada Calha Norte da Amaz\u00f4nia. A ideia era afastar o fantasma das invas\u00f5es estrangeiras e reduzir a porosidade das fronteiras.<\/p>\n<p>Muitos militares entenderam que, se o Ex\u00e9rcito n\u00e3o conseguisse ocupar as fronteiras, os garimpeiros poderiam servir de tropa.<\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio do governo de Jos\u00e9 Sarney (1985-89), militares ligados ao gabinete da Presid\u00eancia decidiram fomentar o garimpo de ouro em Roraima. Baseada em estudos do projeto Radam (Radar da Amaz\u00f4nia), realizado na d\u00e9cada de 1970, uma concilia\u00e7\u00e3o entre militares, pol\u00edticos, empres\u00e1rios e garimpeiros desenhou um plano cuja eclos\u00e3o coincidiu com a decad\u00eancia de Serra Pelada. Milhares de garimpeiros rumaram, ent\u00e3o, para Roraima.<\/p>\n<p>Quando a produ\u00e7\u00e3o em Serra Pelada atingia o fundo do po\u00e7o, em 1989, os garimpos no que hoje \u00e9 a Terra Ind\u00edgena Yanomami somavam 40 mil pessoas -quase tr\u00eas vezes a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Depoimentos de garimpeiros com 50 anos ou mais contemplam sempre esses dois momentos: a busca do ouro em Serra Pelada, no Par\u00e1, e, posteriormente, a corrida para a \u00e1rea dos \u00edndios, no estado de Roraima.<\/p>\n<h3>T\u00c9CNICA DE ENFERMAGEM GANHA R$\u00a09.000 POR M\u00caS COMO COZINHEIRA NO GARIMPO ILEGAL<\/h3>\n<p>Ant\u00f4nia, 43, \u00e9 t\u00e9cnica de enfermagem, mas no garimpo \u00e9 cozinheira. A experi\u00eancia em tratar doentes fez tocar r\u00e1pido seu alarme quando sentiu os primeiros sintomas de mal\u00e1ria. Preocupada em fazer o teste para saber que tipo da doen\u00e7a havia contra\u00eddo -falciparum, mais grave, ou vivax, mais simples\u2013, buscou atendimento no posto m\u00e9dico da Secretaria Especial de Sa\u00fade ind\u00edgena (Sesai), na comunidade Ye\u2019kwana de Waik\u00e1s, na Terra Ind\u00edgena Yanomami (Roraima). Ela n\u00e3o quis revelar seu sobrenome.<\/p>\n<p>Nascida em Caititu, no Maranh\u00e3o, diz que j\u00e1 \u201crodou a Amaz\u00f4nia inteira\u201d. Na Prefeitura de Maraj\u00e1 do Sena (tamb\u00e9m Maranh\u00e3o), ela \u00e9 concursada e recebia um sal\u00e1rio m\u00ednimo como enfermeira, mais um adicional por ocupar cargo de confian\u00e7a. Em 2016, com a mudan\u00e7a do prefeito, perdeu o adicional, e decidiu tentar refor\u00e7ar o caixa com o bico no garimpo ilegal.<\/p>\n<p>Depois de uma experi\u00eancia no Suriname, com uma amiga que ganha a vida viajando de barco e vendendo mercadorias aos garimpeiros, Ant\u00f4nia pediu licen\u00e7a no trabalho. Deixou os tr\u00eas filhos -de 24, 21 e 8 anos\u2013 no Maranh\u00e3o e foi para o Tatuz\u00e3o do Mutum (ou Mutum), onde cozinha para uma equipe de 11 pessoas. Dorme pouco, trabalha muito, mas faz um bom dinheiro, diz. Prepara o caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7o, jantar e merenda para os trabalhadores, e s\u00f3 descansa das 22h as 4h. Em seis meses, calcula, dever\u00e1 ganhar o correspondente a quase seis anos de trabalho na Prefeitura.<\/p>\n<p>Ela recebe R$\u00a09 mil por m\u00eas em gramas de ouro ao pre\u00e7o menor. O sal\u00e1rio \u00e9 l\u00edquido: n\u00e3o paga para comer e nem para dormir. \u201cEu tenho meu rabo-de-jacu l\u00e1 e durmo\u201d, diz, referindo-se \u00e0 tenda onde pendura a rede. Recebe assim, a cada m\u00eas, cerca de 70 gramas de ouro.<\/p>\n<p>Quando consegue que a amiga, que passa oferecendo suas mercadorias no Mutum, leve seu ouro para vender em Boa Vista, aumenta a receita em cerca de R$\u00a01,3 mil. Isso porque, no garimpo, o ouro vale cerca de 15% menos do que na capital.<\/p>\n<p>Quem paga seu sal\u00e1rio \u00e9 o \u201cchef\u00e3o\u201d, mas ele fica em Boa Vista, n\u00e3o vai at\u00e9 o Mutum. No garimpo n\u00e3o tem pista de pouso. Os avi\u00f5es pousam na pista da comunidade ind\u00edgena, que usam com uma anu\u00eancia for\u00e7ada dos \u00edndios. \u201cNo Mutum, pousa helic\u00f3ptero. De vez em quando ele baixa l\u00e1, para buscar o ouro e deixar dinheiro\u201d.<\/p>\n<p>Agora a mal\u00e1ria amea\u00e7ava atrapalhar seus planos. Diz que pegou a doen\u00e7a no esconderijo, na selva, onde todos ficaram entocados durante v\u00e1rios dias para fugir a uma das a\u00e7\u00f5es policiais de combate ao garimpo clandestino. Conta que nessas oportunidades, levam comida suficiente para 10 a 15 dias, per\u00edodo que conseguem esticar com a ca\u00e7a. Mas todos ficam ainda mais expostos aos mosquitos e, por isso, \u00e0 mal\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cPassamos 12 dias no esconderijo, um total de 15 pessoas, e ningu\u00e9m nos achou. A gente aguenta o tempo que a pol\u00edcia ficar na corrutela (a vila) do garimpo, 7, 9, 10 dias\u201d. Enquanto conta a hist\u00f3ria, mostra a foto de um bicho que fez no celular quando estava escondida na floresta. Uma esp\u00e9cie de gafanhoto que mimetiza direitinho o galho da madeira onde est\u00e1 escondido, ningu\u00e9m consegue v\u00ea-lo. Ela se compara ao inseto.<\/p>\n<p>A mal\u00e1ria havia aparecido semanas antes. Sem receita m\u00e9dica, tomou por alguns dias comprimidos comprados na pr\u00f3pria vila do garimpo. Sarou, mas a febre voltou e ela n\u00e3o sabia se era a mesma mal\u00e1ria, que havia sido mascarada pelos rem\u00e9dios, ou uma nova. Por isso procurou atendimento m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Depois de fazer o exame na Sesai, Ant\u00f4nia foi embora. De canoa a remo, levaria cerca de uma hora e meia para chegar ao Mutum, e depois ainda teria que caminhar 15 minutos. Levou uma cartela de rem\u00e9dios para a mal\u00e1ria detectada: a vivax, menos agressiva.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=\u00bb9302&#8243; img_size=\u00bbfull\u00bb alignment=\u00bbcenter\u00bb css_animation=\u00bbfadeIn\u00bb][vc_column_text]<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><em>A cratera de Serra Pelada dividida em lotes marcados pelas cordas; \u00e0 direita, os lotes pendurados nas paredes de terra, e, \u00e0 esquerda, os \u2018formigas\u2019<\/em><\/h5>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h2><strong>Extra\u00e7\u00e3o de ouro destr\u00f3i floresta com merc\u00fario e desmatamento<\/strong><\/h2>\n<p>O garimpo e o desmatamento caminham lado a lado na destrui\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica, como fen\u00f4menos que se refor\u00e7am. A degrada\u00e7\u00e3o que a minera\u00e7\u00e3o desordenada provoca jamais \u00e9 revertida.<\/p>\n<p>Os trabalhadores dessas explora\u00e7\u00f5es geram uma demanda por alimentos e por servi\u00e7os que levam \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o e ao desmatamento das regi\u00f5es do entorno das minas.<\/p>\n<p>Pr\u00f3ximo \u00e0 Serra Pelada, na ent\u00e3o vila de Curion\u00f3polis, que vivia do dinheiro dos garimpeiros, a popula\u00e7\u00e3o tinha o dobro do total de pessoas envolvidas diretamente na minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O garimpo na \u00e1rea yanomami, em Roraima, que atraiu \u00e0 regi\u00e3o cerca de 40 mil trabalhadores no fim dos anos 1980, provocou \u00e0 \u00e9poca um crescimento semelhante na popula\u00e7\u00e3o da capital, Boa Vista.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9290\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mapas-desmatamento-acumulado.jpg\" alt=\"\" width=\"918\" height=\"302\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mapas-desmatamento-acumulado.jpg 918w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mapas-desmatamento-acumulado-300x99.jpg 300w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mapas-desmatamento-acumulado-768x253.jpg 768w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mapas-desmatamento-acumulado-500x164.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 918px) 100vw, 918px\" \/><\/p>\n<p>Hoje, muito tempo ap\u00f3s o auge do ouro em Serra Pelada, quando 100 mil pessoas trabalhavam direta ou indiretamente na extra\u00e7\u00e3o do metal, os munic\u00edpios de Curion\u00f3polis e Eldorado dos Caraj\u00e1s t\u00eam somados 50 mil habitantes. Parauapebas tem 200 mil.<\/p>\n<p>Os mapas tamb\u00e9m apontam que a intensifica\u00e7\u00e3o do desmatamento no Par\u00e1 coincide com o ciclo do ouro dos anos 1980. Desde aquela \u00e9poca, o Par\u00e1 perdeu 148,3 mil km\u00b2 de floresta, segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o equivalente \u00e0 \u00e1rea do estado do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>O final do garimpo em Serra Pelada espalhou homens por outras \u00e1reas de minera\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia. Desde ent\u00e3o, Reden\u00e7\u00e3o (Par\u00e1), as reservas dos \u00edndios yanomamis e mundurukus (Roraima e Par\u00e1) e a \u00e1rea de Louren\u00e7o (Amap\u00e1) frequentam o notici\u00e1rio por conta de problemas causados pelo garimpo, entre eles a ocorr\u00eancia de trabalho em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cO garimpo e a devasta\u00e7\u00e3o andam juntos em toda a bacia amaz\u00f4nica, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil. A minera\u00e7\u00e3o ilegal \u00e9 um fen\u00f4meno presente em todos os pa\u00edses, o que gera s\u00e9rios impactos ambientais nesse ecossistema, bem como impactos econ\u00f4micos e sociais, configurando um cen\u00e1rio de viola\u00e7\u00e3o tanto dos direitos ambientais das popula\u00e7\u00f5es que dependem diretamente destes ecossistemas para sua subsist\u00eancia como dos direitos de todos os habitantes da regi\u00e3o que s\u00e3o afetados pela destrui\u00e7\u00e3o desse patrim\u00f4nio\u201d, diz Beto Ricardo, coordenador da RAISG (Rede Amaz\u00f4nica de Informa\u00e7\u00e3o Socioambiental Georreferenciada), que re\u00fane cientistas e entidades de v\u00e1rios pa\u00edses da regi\u00e3o. Em dezembro passado, a entidade lan\u00e7ou um estudo in\u00e9dito sobre o que denominou \u201cepidemia de garimpo ilegal\u201d na Amaz\u00f4nia, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil mas tamb\u00e9m nos outros pa\u00edses da bacia.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Em dezembro do ano passado, a entidade lan\u00e7ou um estudo in\u00e9dito sobre o que denominou \u201cepidemia de garimpo ilegal\u201d na Amaz\u00f4nia, n\u00e3o apenas no Brasil mas nos demais pa\u00edses da bacia amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Os garimpos na calha do rio Tapaj\u00f3s atra\u00edram nos \u00faltimos anos milhares de pessoas. Em torno do munic\u00edpio de Itaituba, no Par\u00e1, por exemplo, existem garimpos h\u00e1 cerca de 50 anos. Mas a minera\u00e7\u00e3o ilegal atingiu escala industrial com a eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os do ouro no mercado internacional, no in\u00edcio desta d\u00e9cada.<\/p>\n<h3>A CADA ANO, RIO TAPAJ\u00d3S RECEBE 7 MILH\u00d5ES DE TONELADAS DE DETRITOS<\/h3>\n<p>Em 2018, como parte da Opera\u00e7\u00e3o Leviga\u00e7\u00e3o, de combate ao garimpo ilegal, a Pol\u00edcia Federal promoveu um estudo sobre a quantidade de detritos que a atividade vem jogando no rio Tapaj\u00f3s.<\/p>\n<p>Segundo o laudo do perito Gustavo Geiser, publicado em setembro, s\u00e3o jogadas nas \u00e1guas do rio a cada ano cerca de 7 milh\u00f5es de toneladas de sedimentos com alto \u00edndice de merc\u00fario.<\/p>\n<p>Essa lama t\u00f3xica corresponde a mais da metade do que foi despejado na regi\u00e3o de Brumadinho, em Minas Gerais, com o rompimento da barragem no in\u00edcio deste ano. Significa que, sozinho, o garimpo na \u00e1rea do rio Tapaj\u00f3s produz uma trag\u00e9dia como aquela a cada dois anos.<\/p>\n<p>O garimpo clandestino causa essa grande quantidade de dejetos porque \u00e9 um fen\u00f4meno muito raro aparecer uma pepita grande. O normal \u00e9 que sejam encontrados pequenos tra\u00e7os de ouro em grandes toneladas de pedra ou de terra.<\/p>\n<p>Uma mina industrial, por exemplo, pode ser rent\u00e1vel se obtiver dois gramas de ouro por tonelada de pedra triturada. O mesmo acontece com garimpos nas barrancas dos rios: toneladas de terra s\u00e3o transformadas em lama e jogadas na \u00e1gua para um resultado de alguns gramas de ouro.<\/p>\n<p>Usando bombas, os garimpeiros lan\u00e7am jatos de \u00e1gua nas barrancas, que se desfazem em represas de lama; em seguida, outras bombas sugam e peneiram a lama em busca das pequenas pedrinhas que poder\u00e3o conter ouro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessa destrui\u00e7\u00e3o, os garimpeiros usam merc\u00fario, um metal pesado, t\u00f3xico para os seres vivos e que pode provocar problemas neurol\u00f3gicos e m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o fetal (a chamada doen\u00e7a de Minamata).<\/p>\n<p>Quando em contato com o ouro, o merc\u00fario se junta a ele, formando um am\u00e1lgama. \u00c9 essa propriedade que o faz \u00fatil aos garimpeiros. O processo consiste em separar da terra o cascalho com ouro e pass\u00e1-lo em uma esteira forrada de merc\u00fario. O ouro vai grudar no merc\u00fario, separando-se do cascalho.<\/p>\n<p>Depois, o am\u00e1lgama \u00e9 colocado em uma placa sobre o fogo. Os dois metais reagem de forma diferente \u00e0 alta temperatura. Quando o merc\u00fario atinge 357 \u00baC, ele se transforma em um g\u00e1s escuro. J\u00e1 o ouro nem chega a derreter (seu ponto de fus\u00e3o \u00e9 aos 1.064 \u00baC). Livre do merc\u00fario que a separou das impurezas, surge uma bela pepita dourada.<\/p>\n<p>O merc\u00fario que tinha virado fuma\u00e7a vai condensar e se tornar l\u00edquido novamente. Mas, fora do ambiente de laborat\u00f3rio, como nos garimpos, aquela fuma\u00e7a que se afastou do local vai pingar como merc\u00fario mais adiante, no mais das vezes no rio ou na \u00e1gua usada para lavar o ouro.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h2><strong>Imagens da febre do ouro chocam o mundo e reabilitam o preto e branco<\/strong><\/h2>\n<p>O fot\u00f3grafo brasileiro Sebasti\u00e3o Salgado, que estava exilado na Fran\u00e7a durante a ditadura militar, s\u00f3 obteve autoriza\u00e7\u00e3o para registrar o que ocorria em Serra Pelada em 1986.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, a cena na fotografia era desfavor\u00e1vel ao preto e branco. Se antes a foto colorida era associada a publicidade e \u00e1lbuns de fam\u00edlia, ela ganhou status depois de 1976, quando o prestigiado fot\u00f3grafo norte-americano William Eggleston -antes ele pr\u00f3prio fiel ao preto e branco\u2013 fez a primeira grande exposi\u00e7\u00e3o de imagens coloridas da hist\u00f3ria do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York. Al\u00e9m disso, o mercado editorial se rendia mais e mais \u00e0 cor, posto que jornais e revistas j\u00e1 podiam ser impressos em cores com mais velocidade e precis\u00e3o.<\/p>\n<p>O preto e branco parecia destinado ao esquecimento quando, em mar\u00e7o de 1987, Neil Burgess, ent\u00e3o diretor do escrit\u00f3rio de Londres da ag\u00eancia de imagens Magnum, recebeu as fotos de Serra Pelada feitas por Salgado. Imediatamente, ele as levou ao diretor de arte da revista do Sunday Times, refer\u00eancia no jornalismo brit\u00e2nico. A publica\u00e7\u00e3o daquelas fotos causou grande impacto n\u00e3o apenas na Europa, mas no mundo.<\/p>\n<p>Vieram outras reportagens que comporiam \u201cTrabalhadores\u201d, o primeiro dos projetos de longo curso que o fot\u00f3grafo produziu nas \u00faltimas d\u00e9cadas, sempre em preto e branco.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9296\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Serra-Pelada-em-1986.jpg\" alt=\"\" width=\"1369\" height=\"2048\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Serra-Pelada-em-1986.jpg 1369w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Serra-Pelada-em-1986-201x300.jpg 201w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Serra-Pelada-em-1986-768x1149.jpg 768w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Serra-Pelada-em-1986-685x1024.jpg 685w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Serra-Pelada-em-1986-500x748.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 1369px) 100vw, 1369px\" \/><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><em>Serra Pelada em 1986<\/em><\/h5>\n<p>Salgado conta que, ao chegar a Serra Pelada, procurou um conterr\u00e2neo de seu pai, um empres\u00e1rio de garimpo e nascido, tamb\u00e9m, no vale do Rio Doce, em Minas Gerais. A coincid\u00eancia fez correr entre os garimpeiros o boato de que um estranho \u201cda Vale do Rio Doce\u201d estava ali para espionar, expulsar garimpeiros e recuperar a mina para a estatal.<\/p>\n<p>Ao entrar na cratera, diz que sentiu \u00f3dio emanando de 100 mil olhos. Os escavadores bateram suas ferramentas para fazer um barulho de protesto. Nas primeiras horas de trabalho, tomou empurr\u00f5es e esbarr\u00f5es que o amea\u00e7avam e tentavam faz\u00ea-lo trope\u00e7ar e cair no buraco.<\/p>\n<p>Quando j\u00e1 estava sujo de lama como os trabalhadores, Salgado foi detido por um policial, que o julgou um estrangeiro contrabandista. Foi solto ao provar ser brasileiro. Ao mesmo tempo, os garimpeiros souberam que era rep\u00f3rter e tamb\u00e9m mudaram o sentimento. Na volta \u00e0 cratera, foi aplaudido: havia sido aceito.<\/p>\n<p>\u201cO ouro \u00e9 um amante imprevis\u00edvel. Enquanto alguns partiram de Serra Pelada com dinheiro e nunca se sentiram tra\u00eddos, outros perderam tudo. O amigo de meu pai achou 97 quilos, reinvestiu em mais lotes e equipes adicionais de pe\u00f5es para deixar a mina de m\u00e3os vazias\u201d, conta.<\/p>\n<p>Com a mulher, L\u00e9lia Wanick Salgado, o fot\u00f3grafo decidiu revisitar todos os originais de Serra Pelada, com um olhar diferente daquele de d\u00e9cadas atr\u00e1s. Ao final do trabalho, tinha um conjunto novo de imagens que se somou \u00e0s que haviam sido mostradas nos anos 1980.<\/p>\n<p>Coincidindo com os 40 anos da descoberta do ouro em Serra Pelada, essa nova sele\u00e7\u00e3o de imagens foi editada para o livro \u201cGold\u201d e para a exposi\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 aberta em S\u00e3o Paulo em 17 de julho, no Sesc Paulista.<\/p>\n<p>Livro e exposi\u00e7\u00e3o t\u00eam estreia internacional no Brasil e seguem depois para Estocolmo, em setembro; Madri, em novembro; Talin (Est\u00f4nia), em dezembro; Mil\u00e3o, em abril, e Londres, em maio de 2020.<\/p>\n<p>O fot\u00f3grafo se dedica atualmente a \u201cAmaz\u00f4nia\u201d, projeto que a reportagem da Folha tem acompanhado e que vai resultar tamb\u00e9m em um livro e uma exposi\u00e7\u00e3o em 2021. Parte do conte\u00fado tem sido antecipada em especiais como este.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/sebastiao-salgado\/serra-pelada\/40-anos-depois-de-serra-pelada-garimpo-e-fonte-de-conflito-e-devastacao\/\">https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/sebastiao-salgado\/serra-pelada\/40-anos-depois-de-serra-pelada-garimpo-e-fonte-de-conflito-e-devastacao\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/FSP-Sebasti\u00e3o-Salgado-_40-anos-depois-de-Serra-Pelada-garimpo-\u00e9-fonte-de-conflito-e-devasta\u00e7\u00e3o-1-8.pdf\"><strong>Leia AQUI o especial em PDF<\/strong><\/a>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Serra Pelada. Em 1979, a descoberta de ouro no interior do Par\u00e1 arrastou multid\u00f5es de sonhadores para aquela que foi a maior mina a c\u00e9u aberto do globo; da saga resultaram um buraco na terra arrasada, a minera\u00e7\u00e3o clandestina em \u00e1rea ind\u00edgena e este documento visual que comoveu o mundo.<\/p>\n<p>\u201cO garimpo e a devasta\u00e7\u00e3o andam juntos em toda a bacia amaz\u00f4nica, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil. A minera\u00e7\u00e3o ilegal \u00e9 um fen\u00f4meno presente em todos os pa\u00edses, o que gera s\u00e9rios impactos ambientais nesse ecossistema, bem como impactos econ\u00f4micos e sociais, configurando um cen\u00e1rio de viola\u00e7\u00e3o tanto dos direitos ambientais das popula\u00e7\u00f5es que dependem diretamente destes ecossistemas para sua subsist\u00eancia como dos direitos de todos os habitantes da regi\u00e3o que s\u00e3o afetados pela destrui\u00e7\u00e3o desse patrim\u00f4nio\u201d, diz Beto Ricardo, coordenador da RAISG (Rede Amaz\u00f4nica de Informa\u00e7\u00e3o Socioambiental Georreferenciada), que re\u00fane cientistas e entidades de v\u00e1rios pa\u00edses da regi\u00e3o. Em dezembro passado, a entidade lan\u00e7ou um estudo in\u00e9dito sobre o que denominou \u201cepidemia de garimpo ilegal\u201d na Amaz\u00f4nia, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil mas tamb\u00e9m nos outros pa\u00edses da bacia.<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":9283,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-9326","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-radar","category-2","description-off"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9326","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9326"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9326\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9332,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9326\/revisions\/9332"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9283"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9326"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9326"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9326"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}