{"id":11423,"date":"2019-10-18T15:15:28","date_gmt":"2019-10-18T18:15:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.amazoniasocioambiental.org\/?p=11423"},"modified":"2019-10-18T15:21:45","modified_gmt":"2019-10-18T18:21:45","slug":"o-mundo-sem-a-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/radar\/o-mundo-sem-a-amazonia\/","title":{"rendered":"O  mundo sem a Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Jo\u00e3o Moreira Salles e Bernardo Esteves<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Revista Piau\u00ed<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>17 de outubro de 2019<\/strong><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h4 class=\"bloco-chamada\" style=\"text-align: center;\"><em>Modelo clim\u00e1tico prev\u00ea efeitos da convers\u00e3o da floresta em pasto: diminui\u00e7\u00e3o de 25% das chuvas no Brasil e aumento da temperatura, com preju\u00edzo &#8220;catastr\u00f3fico&#8221; para agricultura e produ\u00e7\u00e3o de energia<\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se a Floresta Amaz\u00f4nica fosse toda convertida em pastagem, a quantidade m\u00e9dia de chuvas que cairia sobre o Brasil diminuiria 25%. A conclus\u00e3o \u00e9 de pesquisadores norte-americanos e brasileiros que simularam como seria o clima global caso a Amaz\u00f4nia fosse ocupada pela pecu\u00e1ria em parte ou no todo, em diferentes cen\u00e1rios. A diminui\u00e7\u00e3o das chuvas apontada pelo estudo se somaria \u00e0quela que j\u00e1 \u00e9 de se esperar em parte do territ\u00f3rio brasileiro por causa do aquecimento global.<\/p>\n<p>Baseado em modelos clim\u00e1ticos rodados em computador, o estudo d\u00e1 n\u00fameros ao argumento de que o agroneg\u00f3cio brasileiro depende da chuva gerada na Amaz\u00f4nia. \u00c9 a evapotranspira\u00e7\u00e3o das florestas que gera o vapor d\u2019\u00e1gua transportado continente adentro nos chamados rios voadores. Sem \u00e1rvores que os abaste\u00e7am, eles amea\u00e7am secar.<\/p>\n<p>A simula\u00e7\u00e3o mostrou que, al\u00e9m da pr\u00f3pria Amaz\u00f4nia, \u00e1reas de Cerrado nas regi\u00f5es Centro-Oeste e Sudeste \u2013 onde se concentra a maior parte da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola brasileira \u2013 est\u00e3o entre as que sentir\u00e3o com mais for\u00e7a a queda na precipita\u00e7\u00e3o. O agroneg\u00f3cio brasileiro \u00e9 dependente da chuva \u2013 s\u00f3 6% da \u00e1rea cultivada \u00e9 feita com irriga\u00e7\u00e3o. Caso n\u00e3o contenha o desmatamento da Amaz\u00f4nia, o Brasil vai ter dificuldade para se manter como uma pot\u00eancia agr\u00edcola global. A chuva n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico problema. \u201cO aumento de temperatura ser\u00e1 catastr\u00f3fico para o Brasil\u201d, afirmou Stephen Pacala, autor principal do estudo.<\/p>\n<p>Praticamente 20% da \u00e1rea original da Floresta Amaz\u00f4nica j\u00e1 foi derrubada, dos quais cerca de dois ter\u00e7os foram substitu\u00eddos por pastagens. De acordo com os alertas emitidos pelo Inpe, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a \u00e1rea derrubada acumulada entre janeiro e setembro deste ano, nos primeiros nove meses do governo Bolsonaro, foi 93% maior que o verificado no mesmo per\u00edodo em 2018 \u2013 ano em que a taxa anual de desmatamento chegou ao maior \u00edndice da d\u00e9cada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><b>A ideia<\/b><\/h3>\n<p>Em maio de 2019, tr\u00eas brasileiros entraram no gabinete de Stephen Pacala, professor de ecologia na Universidade de Princeton. Pacala, um dos grandes especialistas mundiais em mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, estava em p\u00e9 num canto da sala, fazendo caf\u00e9. Os tr\u00eas visitantes \u2013 Adalberto Ver\u00edssimo, ec\u00f3logo, Tasso Azevedo, engenheiro florestal, e Jo\u00e3o Biehl, antrop\u00f3logo \u2013 vinham convid\u00e1-lo para participar de uma confer\u00eancia sobre a Amaz\u00f4nia que se realizaria dentro de cinco meses ali mesmo, em Princeton. No encontro seria discutido o futuro da floresta.<\/p>\n<p>Pacala, aparentemente distra\u00eddo, ainda se ocupava do caf\u00e9 quando Adalberto Ver\u00edssimo come\u00e7ou a falar da situa\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia. Eram tempos dif\u00edceis para o bioma, a conjuntura pol\u00edtica n\u00e3o se mostrava favor\u00e1vel \u00e0 floresta \u2013 ela estava sob ataque. Havia viol\u00eancia, ocupa\u00e7\u00e3o ilegal de terras p\u00fablicas, queimadas. Pacala foi se interessando. Deixando o caf\u00e9 de lado, sentou-se de costas para as equa\u00e7\u00f5es que tomavam os quadros-negros atr\u00e1s dele. O relato dos brasileiros sugeria que, se a degrada\u00e7\u00e3o em curso prosseguisse, a floresta poderia se tornar invi\u00e1vel e corria o risco de desaparecer no prazo de algumas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma coisa que n\u00e3o est\u00e1 clara para a maioria das pessoas\u201d, observou o americano, dirigindo-se aos tr\u00eas colegas. Referia-se ao Acordo de Paris. \u201cQuando se diz que, para o aumento da temperatura n\u00e3o ultrapassar o intervalo de 1,5\u00b0C\u00a0a 2,0\u00b0C, a emiss\u00e3o de gases do efeito estufa nos pa\u00edses desenvolvidos precisa zerar at\u00e9 2050 e, no restante do mundo, at\u00e9 2100, subentende-se a\u00ed que os sumidouros naturais de carbono continuar\u00e3o a existir.\u201d Se eles desaparecessem, explicou, na pr\u00e1tica n\u00e3o bastaria reduzir as emiss\u00f5es, e isso significava que alcan\u00e7ar as metas de Paris dependia do fim do desmatamento e da continuidade da absor\u00e7\u00e3o natural de g\u00e1s carb\u00f4nico. \u201cA meu ver, ent\u00e3o, seria poss\u00edvel demonstrar que, desmatando a Amaz\u00f4nia, destruindo o sumidouro natural de carbono e provocando emiss\u00e3o de gases com inc\u00eandios florestais, o Brasil sozinho provavelmente tornaria imposs\u00edvel concretizar o Acordo de Paris num n\u00edvel global.\u201d<\/p>\n<p>Os cientistas brasileiros se entreolharam. Havia uma novidade ali. \u201cInteressante\u201d, disse Azevedo, j\u00e1 tendo ideias: \u201cE se n\u00f3s fiz\u00e9ssemos o seguinte? Vamos considerar que as leis ambientais brasileiras tenham sido alteradas para permitir desmatar mais 20% da floresta, e a\u00ed calculamos o impacto disso sobre o clima.\u201d Stephen Pacala, cada vez mais animado, meneou a cabe\u00e7a e contraprop\u00f4s: \u201cN\u00e3o, vamos ser draconianos: elimine-se a Amaz\u00f4nia! Toda ela vira soja. Assim n\u00f3s conseguimos calcular o valor desses recursos que queremos preservar. Mandamos embora um bom naco da biodiversidade do planeta, mandamos embora o h\u00e1bitat das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Em troca, ganhamos soja. Que valor isso tem? Qual o pre\u00e7o para o futuro da humanidade em termos de aquecimento global? \u00c9 isso, vamos transformar tudo em soja e calcular.\u201d<\/p>\n<p>(Quando fizeram o estudo, os pesquisadores acabaram optando por projetar como seria o clima no futuro caso a Amaz\u00f4nia fosse substitu\u00edda por pastagens, e n\u00e3o por soja, j\u00e1 que a maior parte da \u00e1rea desmatada acaba sendo destinada \u00e0 pecu\u00e1ria.)<\/p>\n<p>Poucos lugares no mundo seriam mais apropriados para aquele exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o. A cidade de Princeton, em Nova Jersey,\u00a0 sedia o Laborat\u00f3rio Geof\u00edsico de Din\u00e2mica dos Fluido (GFDL na sigla em ingl\u00eas), um centro avan\u00e7ado de modelagem clim\u00e1tica da Administra\u00e7\u00e3o Nacional Oce\u00e2nica e Atmosf\u00e9rica, a NOAA, \u00f3rg\u00e3o do governo americano respons\u00e1vel pela previs\u00e3o de intemp\u00e9ries. \u201cMais de 100 doutores trabalham l\u00e1\u201d, explicou Pacala. Os modelos de previs\u00e3o clim\u00e1tica foram inventados no GFDL por volta de 1960. \u201c\u00c9 o pessoal que prev\u00ea furac\u00f5es, ciclones. Seria relativamente simples adaptar esses modelos para outro tipo de cen\u00e1rio \u2013 a gente aniquila a\u00a0Amaz\u00f4nia e v\u00ea o que acontece.\u201d<\/p>\n<p>O encontro se encerrou com Pacala avisando que o modelo s\u00f3 poderia ser rodado se ele conseguisse convencer uma colega sua \u2013 a russa Elena Shevliakova, modeladora s\u00eanior do GFDL e codiretora do laborat\u00f3rio \u2013 a largar tudo o que estivesse fazendo para se dedicar ao exerc\u00edcio. \u201c\u00c9 que ela est\u00e1 sempre ocupad\u00edssima\u201d, explicou. \u201cCresceu na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, \u00e9 muito s\u00e9ria. Mas se eu pedir com jeito\u2026\u201d<\/p>\n<p>Duas semanas depois, Biehl, Ver\u00edssimo e Azevedo caminhavam pelo campus quando avistaram Pacala vindo na dire\u00e7\u00e3o deles de bicicleta. O cientista apeou e, com um sorriso, deu a not\u00edcia: \u201cElena topou. Vamos rodar o modelo.\u201d<\/p>\n<p>Os resultados seriam apresentados \u00e0s 16 horas do dia 17 de outubro de 2019, durante a confer\u00eancia sobre a Amaz\u00f4nia organizada por Jo\u00e3o Biehl e seus colegas de Princeton.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><b>O modelo<\/b><\/h3>\n<p>Para rodar o modelo, Pacala e Shevliakova dividiram o globo terrestre em pequenas unidades de an\u00e1lise para entender como o clima evoluiria em cada uma delas. Na parte continental do planeta, eles aplicaram sobre a superf\u00edcie uma ret\u00edcula de 1\u00b0 por um 1\u00b0 (latitude e longitude), correspondendo a blocos de 110 km por 110 km. Para os oceanos, usaram uma trama mais apertada, de 55 km por 55 km.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-11408\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/globo_interna.jpg\" alt=\"\" width=\"663\" height=\"453\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/globo_interna.jpg 1200w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/globo_interna-300x205.jpg 300w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/globo_interna-768x525.jpg 768w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/globo_interna-1024x701.jpg 1024w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/globo_interna-500x342.jpg 500w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/globo_interna-320x220.jpg 320w\" sizes=\"(max-width: 663px) 100vw, 663px\" \/><em>Um mundo em quadradinhos: modelo de pesquisa dividiu o globo em pequenas unidades e supercomputador analisou o que pode acontecer com o clima em cada uma delas<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O modelo leva em conta as condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de cada uma dessas unidades de an\u00e1lise. Assim, se uma c\u00e9lula da ret\u00edcula espelha um trecho do oceano, consideram-se correntes, temperatura da \u00e1gua e intera\u00e7\u00f5es geoqu\u00edmicas dessa \u00e1rea em particular; se espelha terra, trabalha-se com emiss\u00e3o de metano (da agricultura, de animais), carbono produzido pelas queimadas, evapotranspira\u00e7\u00e3o das plantas, aeross\u00f3is de carbono (part\u00edculas suspensas pelo fogo), aeross\u00f3is minerais (part\u00edculas de areia sopradas pelo vento), condensa\u00e7\u00e3o e evapora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A partir desses dados, o modelo retrocede at\u00e9 a idade pr\u00e9-industrial, ou seja, at\u00e9 meados do s\u00e9culo XIX, e calcula o que aconteceu e acontecer\u00e1\u00a0<i>c<\/i>om a temperatura e o carbono desde aquela data at\u00e9 o ano de 2050<i>.\u00a0<\/i>Cada rodada do modelo avan\u00e7a 30 minutos no c\u00e1lculo, e \u00e9 assim, de meia hora em meia hora, que se chega a 2050. Oito anos de transforma\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas fatiados em unidades de meia hora em\u00a0<i>cada<\/i>\u00a0quadrante do planeta \u2013 da Amaz\u00f4nia \u00e0 Sib\u00e9ria, do chifre da \u00c1frica a um canto vazio do Pac\u00edfico Sul \u2013, exigem um dia de uso intensivo do supercomputador operado por Shevliakova. O c\u00e1lculo requer o uso de 3 456 processadores no caso das \u00e1reas terrestres (para as unidades oce\u00e2nicas, que s\u00e3o menores, o n\u00famero de processadores cai pela metade).<\/p>\n<p>Pacala e Shevliakova rodaram o modelo aplicando-o a dois cen\u00e1rios previstos pelo Acordo de Paris. Mais otimista, o primeiro constructo, batizado de SSP1 \u2013 sigla de\u00a0<a href=\"https:\/\/unfccc.int\/sites\/default\/files\/part1_iiasa_rogelj_ssp_poster.pdf\"><i>Shared Socio-Economic Pathways<\/i><\/a>\u00a0 \u2013 trabalha com a hip\u00f3tese de que o mundo escolher\u00e1 o caminho da sustentabilidade, enquanto o segundo, SSP5, pessimista, presume que seguiremos at\u00e9 2050 sem alterar os padr\u00f5es atuais de emiss\u00e3o de gases.<\/p>\n<p>Tanto em SSP1 como em SSP5 a Amaz\u00f4nia existe. Na ocasi\u00e3o em que esses cen\u00e1rios foram desenhados, n\u00e3o havia raz\u00e3o por que imaginar que em algum momento a floresta estaria sob risco existencial. O exerc\u00edcio de Pacala e Shevliakova simula tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es: o mundo de SSP1 sem\u00a0<i>nenhuma<\/i>\u00a0Amaz\u00f4nia,\u00a0 o mundo de SSP1 e\u00a0 SPP5 sem\u00a0<i>metade<\/i>\u00a0da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Em termos de temperatura e chuva, qual o impacto disso sobre o Brasil e o mundo?<\/p>\n<h3><b>Os resultados<\/b><\/h3>\n<p>Os resultados s\u00e3o graves.<\/p>\n<p>Se a Amaz\u00f4nia desaparece por completo, mesmo no cen\u00e1rio mais otimista de SSP1\u00a0 \u2013 aquele em que o mundo consegue diminuir drasticamente a sua emiss\u00e3o de carbono \u2013 a temperatura m\u00e9dia global sobe 0,25\u00b0C\u00a0<i>al\u00e9m\u00a0<\/i>do aumento j\u00e1 previsto no cen\u00e1rio SSP1, que \u00e9 de 1,5\u00b0 a 2,5\u00b0C. Apenas trinta anos nos separam de 2050. Se o modelo fosse rodado at\u00e9 2100, ter\u00edamos provavelmente um aumento suplementar de meio grau.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 preciso ter em mente que se trata aqui de uma temperatura\u00a0<i>m\u00e9dia<\/i>, ou seja, obtida pela pondera\u00e7\u00e3o das varia\u00e7\u00f5es de todos os recantos do planeta. Ocorre que as pessoas n\u00e3o moram em localidades m\u00e9dias, mas em lugares com caracter\u00edsticas bem determinadas. O que importa, ent\u00e3o, \u00e9 a temperatura local. Para a regi\u00e3o Amaz\u00f4nica, por exemplo, o modelo indica que a elimina\u00e7\u00e3o total da floresta leva a um\u00a0<i>acr\u00e9scimo<\/i>\u00a0de at\u00e9 2,5\u00b0C\u00a0 \u00e0quele aumento de 1,5\u00b0 a 2,5\u00b0 j\u00e1 incorporado ao cen\u00e1rio SSP1. Ou seja, os term\u00f4metros marcariam at\u00e9 4,5\u00b0C a mais, o que tornaria a vida praticamente invi\u00e1vel. Quase toda a Am\u00e9rica do Sul \u00e9 afetada. S\u00f3 parte da Patag\u00f4nia e dos Andes se safam.<\/p>\n<p>Em SSP5 \u2013 o modelo \u201cvida-que-segue\u201d no qual n\u00e3o modificamos nossos atuais padr\u00f5es de emiss\u00e3o de gases \u2013, a exist\u00eancia de apenas 50% da floresta amaz\u00f4nica\u00a0 produz um quadro clim\u00e1tico quase t\u00e3o grave quanto o resultante de sua completa elimina\u00e7\u00e3o. Partes da regi\u00e3o Norte experimentar\u00e3o um aumento de temperatura semelhante, de\u00a02,0 a 2,5 graus al\u00e9m al\u00e9m dos 4\u00b0C a 5\u00b0C j\u00e1 contratados no cen\u00e1rio SSP5 mesmo que a floresta ficasse de p\u00e9. J\u00e1\u00a0o Centro-Oeste brasileiro ter\u00e1 de conviver com at\u00e9 1 grau adicional nos term\u00f4metros.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11414\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/grafico2_amazonia.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"717\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/grafico2_amazonia.jpg 1200w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/grafico2_amazonia-300x179.jpg 300w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/grafico2_amazonia-768x459.jpg 768w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/grafico2_amazonia-1024x612.jpg 1024w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/grafico2_amazonia-500x299.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>No mapa acima, as \u00e1reas em vermelho s\u00e3o aquelas que ter\u00e3o maiores aumentos de temperatura em diferentes cen\u00e1rios: 1) O mundo com menos emiss\u00f5es de carbono (SSP1) e sem a Amaz\u00f4nia; 2) O mundo com menos emiss\u00f5es de carbono (SSP1) sem metade da Amaz\u00f4nia; 3) O mundo com a mesma quantidade de emiss\u00e3o de carbono (SSP5) sem metade da Amaz\u00f4nia. O mapa abaixo mostra as varia\u00e7\u00f5es de precipita\u00e7\u00e3o nos mesmos cen\u00e1rios; as \u00e1reas em vermelho s\u00e3o aquelas com menor volume de chuvas.<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11417\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/grafico3_amazonia.jpg\" alt=\"\" width=\"1131\" height=\"646\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/grafico3_amazonia.jpg 1131w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/grafico3_amazonia-300x171.jpg 300w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/grafico3_amazonia-768x439.jpg 768w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/grafico3_amazonia-1024x585.jpg 1024w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/grafico3_amazonia-500x286.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 1131px) 100vw, 1131px\" \/><\/p>\n<p>Igualmente desastrosa \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o das chuvas.\u00a0Se a Amaz\u00f4nia se vai, mesmo no cen\u00e1rio otimista de SSP1, o estado de Goi\u00e1s, o norte de Mato Grosso, o norte da Bahia e boa parte do Sudeste brasileiro perdem de 0,6 a 1,8 mil\u00edmetro de chuva\u00a0<i>por dia<\/i>. No cora\u00e7\u00e3o da floresta, a queda pode chegar a 2 mil\u00edmetros, o que corresponde a quase 30% da precipita\u00e7\u00e3o anual. Na m\u00e9dia brasileira, chover\u00e1 menos 25% no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em escala global, no cen\u00e1rio SSP1 com desmate completo da floresta, ocorre um aumento acentuado de temperatura no meio-oeste americano, um aumento significativo ainda que mais brando na Europa e na Oceania, e um aumento agudo, de quase 2 graus, no \u00c1rtico. Isso significar\u00e1 degelo acelerado da calota polar e muito provavelmente uma mudan\u00e7a radical no regime dos ventos. A destrui\u00e7\u00e3o da floresta provocar\u00e1 de uma s\u00f3 vez um aumento de trinta partes por milh\u00e3o na concentra\u00e7\u00e3o de di\u00f3xido de carbono na atmosfera, o que corresponde a quinze anos do que o mundo acumula no atual padr\u00e3o de uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11411\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/gr\u00e1fico_amazonia.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"583\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/gr\u00e1fico_amazonia.jpg 1200w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/gr\u00e1fico_amazonia-300x146.jpg 300w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/gr\u00e1fico_amazonia-768x373.jpg 768w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/gr\u00e1fico_amazonia-1024x497.jpg 1024w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/gr\u00e1fico_amazonia-500x243.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>No mapa \u00e0 esquerda, as \u00e1reas em vermelho ter\u00e3o o maior aumento de temperatura; no da direita, o vermelho indica as regi\u00f5es com maior queda no volume de chuvas<\/em><\/p>\n<p>As mudan\u00e7as na precipita\u00e7\u00e3o pluvial ocorrer\u00e3o essencialmente na Am\u00e9rica do Sul e na Indon\u00e9sia, que tamb\u00e9m passar\u00e1 a sofrer de falta de chuva.<\/p>\n<p>Sem a Amaz\u00f4nia, seria virtualmente imposs\u00edvel limitar o aumento da temperatura global a 1,5\u00b0C, como prop\u00f5e o Acordo de Paris. O sofrimento maior, contudo, ser\u00e1 nosso e dos nossos vizinhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><b>As consequ\u00eancias<\/b><\/h3>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia por pastagens teria impacto direto sobre o abastecimento das usinas hidrel\u00e9tricas, que t\u00eam participa\u00e7\u00e3o preponderante na matriz energ\u00e9tica brasileira. Num futuro com menos chuvas, rios escassear\u00e3o e os fluxos h\u00eddricos se tornar\u00e3o d\u00e9beis, o que acarretar\u00e1 colapso sazonal na gera\u00e7\u00e3o de energia.<\/p>\n<p>A energia que as hidrel\u00e9tricas deixariam de produzir teria que ser compensada com a explora\u00e7\u00e3o de outras fontes, conforme explicou \u00e0\u00a0<b>piau\u00ed<\/b>\u00a0um especialista em planejamento energ\u00e9tico cujo contrato profissional n\u00e3o permite contatos com a imprensa. O pa\u00eds poderia optar por fontes renov\u00e1veis como a solar ou e\u00f3lica, mas \u00e9 improv\u00e1vel que abrisse m\u00e3o de construir novas usinas termel\u00e9tricas que sujariam sua matriz energ\u00e9tica e aumentariam suas emiss\u00f5es de gases do efeito estufa, realimentando a causa da defici\u00eancia h\u00eddrica.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 sobre a agricultura que os efeitos seriam mais duros. A\u00a0<b>piau\u00ed<\/b>\u00a0quis saber de Eduardo Assad, engenheiro agr\u00edcola que investiga o efeito das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas sobre o agroneg\u00f3cio brasileiro, o que representaria a queda de 25% na precipita\u00e7\u00e3o m\u00e9dia apontada pelo modelo computacional. \u201cUm desastre\u201d, disse Assad, que n\u00e3o participou do estudo e trabalha na Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria. Vai faltar \u00e1gua, continuou o cientista, e com isso haver\u00e1 mais veranicos e mais per\u00edodos secos durante a \u00e9poca de chuva, com impacto nas safras das\u00a0<i>commodities<\/i>\u00a0exportadas pelo Brasil. \u201cIsso j\u00e1 est\u00e1 acontecendo, e tende a ficar cada vez mais forte.\u201d<\/p>\n<p>Estudos feitos pela equipe de Assad desde 2007 v\u00eam mostrando que a soja, o milho e o caf\u00e9, nessa ordem, seriam os cultivos mais afetados pela diminui\u00e7\u00e3o das chuvas. \u201cO problema da soja n\u00e3o ser\u00e1 a temperatura elevada, mas sim a defici\u00eancia h\u00eddrica\u201d, afirmou. O pesquisador apontou duas solu\u00e7\u00f5es para combater o problema. \u201cA primeira \u00e9 parar de desmatar e revegetar, para poder voltar a ter o ciclo hidrol\u00f3gico.\u201d A segunda, continuou, \u00e9 adotar sistemas integrados de lavoura, pecu\u00e1ria e floresta, que ret\u00eam a \u00e1gua no solo e minimizam o estrago.<\/p>\n<p>Assad disse que os resultados do estudo se alinham com proje\u00e7\u00f5es feitas por outros grupos de pesquisa brasileiros. \u201cTem mais de quinze anos que estamos falando isso, mas a proposta do pa\u00eds hoje \u00e9 derrubar o conhecimento cient\u00edfico. Esse povo fica negando que est\u00e1 havendo mudan\u00e7a clim\u00e1tica e dizendo que desmatamento n\u00e3o tem problema nenhum\u201d, disse o pesquisador. \u201cSe continuarmos do jeito que est\u00e1, teremos muitos problemas no m\u00e9dio prazo.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fonte<\/strong>: <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/o-mundo-sem-amazonia\/\">https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/o-mundo-sem-amazonia\/<\/a>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>e a Floresta Amaz\u00f4nica fosse toda convertida em pastagem, a quantidade m\u00e9dia de chuvas que cairia sobre o Brasil diminuiria 25%. A conclus\u00e3o \u00e9 de pesquisadores norte-americanos e brasileiros que simularam como seria o clima global caso a Amaz\u00f4nia fosse ocupada pela pecu\u00e1ria em parte ou no todo, em diferentes cen\u00e1rios. A diminui\u00e7\u00e3o das chuvas apontada pelo estudo se somaria \u00e0quela que j\u00e1 \u00e9 de se esperar em parte do territ\u00f3rio brasileiro por causa do aquecimento global. <\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":11420,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-11423","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-radar","category-1","description-off"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11423"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11423\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11429,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11423\/revisions\/11429"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11420"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}