{"id":16711,"date":"2020-07-19T15:18:48","date_gmt":"2020-07-19T18:18:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.amazoniasocioambiental.org\/?p=16711"},"modified":"2020-07-21T15:30:06","modified_gmt":"2020-07-21T18:30:06","slug":"desmatar-e-acabar-com-o-futuro-da-lucro-a-poucos-por-pouco-tempo-diz-carlos-nobre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/radar\/desmatar-e-acabar-com-o-futuro-da-lucro-a-poucos-por-pouco-tempo-diz-carlos-nobre\/","title":{"rendered":"\u2018Desmatar \u00e9 acabar com o futuro. D\u00e1 lucro a poucos por pouco tempo\u2019, diz Carlos Nobre"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Ana Lucia Azevedo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>O Globo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>19 de julho de 2020<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Amaz\u00f4nia brasileira<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Estudioso da Floresta Amaz\u00f4nica e sua rela\u00e7\u00e3o com o clima, cientista explica porque permitir o avan\u00e7o de lavouras e pastos sobre a mata n\u00e3o faz sentido e amea\u00e7a o agroneg\u00f3cio em todo o pa\u00eds<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Considerado um dos maiores especialistas do mundo na Amaz\u00f4nia e seus efeitos sobre o planeta, o climatologista Carlos Nobre viu nas\u00a0<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/amazonia-fundos-globais-que-administram-us-375-tri-pressionam-por-reducao-de-desmatamento-24493136\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/amazonia-fundos-globais-que-administram-us-375-tri-pressionam-por-reducao-de-desmatamento-24493136&amp;source=gmail&amp;ust=1595426172486000&amp;usg=AFQjCNEVMxhDnUdpoa-77pyQr-8ITl84gQ\">cartas recentes de fundos de investimentos internacionais<\/a>\u00a0e de\u00a0<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/empresarios-cobram-mas-mourao-diz-que-governo-ainda-nao-tem-plano-para-reduzir-desmatamento-24526564\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/empresarios-cobram-mas-mourao-diz-que-governo-ainda-nao-tem-plano-para-reduzir-desmatamento-24526564&amp;source=gmail&amp;ust=1595426172486000&amp;usg=AFQjCNHe0OZGqF8iNCPvM0-meVT8thZqAw\">empres\u00e1rios brasileiros ao governo Bolsonaro<\/a>\u00a0cobrando informa\u00e7\u00f5es sobre a pol\u00edtica de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia um momento hist\u00f3rico de virada.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Autor de uma teoria que prev\u00ea o risco de savaniza\u00e7\u00e3o da floresta, ele avalia que a economia entendeu que sem ela n\u00e3o h\u00e1 clima, chuva, agropecu\u00e1ria e nem futuro. O avan\u00e7o da fronteira agr\u00edcola \u00e9 uma das principais amea\u00e7as \u00e0 Amaz\u00f4nia, mas o cientista demonstra, em entrevista ao GLOBO, que o desmatamento p\u00f5e em risco o pr\u00f3prio agroneg\u00f3cio exportador, respons\u00e1vel por um quinto do PIB nacional e o \u00fanico setor que tem resistido \u00e0s crises econ\u00f4micas recentes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Um dos ganhadores do Pr\u00eamio Nobel em 2008, quando integrou o Painel Intergovernamental de Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica (IPCC) por seus trabalhos nessa \u00e1rea, Nobre diz que a Amaz\u00f4nia em p\u00e9, associada a uma nova ind\u00fastria, trar\u00e1 riquezas muito maiores que a gerada por sua destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>Qual o impacto da Floresta Amaz\u00f4nica na economia?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ela integra o sistema clim\u00e1tico que sustenta a agricultura e o PIB. Vem da Amaz\u00f4nia boa parte da umidade, as chuvas, das quais dependem o Brasil e a Am\u00e9rica do Sul. \u00c9 um sistema que existe h\u00e1 milh\u00f5es de anos e est\u00e1 sob ataque.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>Qual o papel dos chamados rios voadores?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Os rios voadores s\u00e3o canais de umidade que se formam quando os ventos vindos do Atl\u00e2ntico atravessam a Amaz\u00f4nia e s\u00e3o encharcados pela umidade gerada pela floresta. Eles seguem por um corredor junto aos Andes e descem em dire\u00e7\u00e3o ao sul do continente. S\u00e3o intera\u00e7\u00f5es complexas na atmosfera. Mas h\u00e1 evid\u00eancias de que a umidade da floresta chega at\u00e9 o Sul.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16691\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/image.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"740\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/image.png 450w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/image-182x300.png 182w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/strong><\/h3>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>H\u00e1 sinais de altera\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sim. Quando h\u00e1 seca, a correla\u00e7\u00e3o \u00e9 clara. Em anos de seca na Amaz\u00f4nia, reduz a chuva no Sul do Brasil no inverno, na esta\u00e7\u00e3o seca, \u00e9poca em que a agricultura e o abastecimento de \u00e1gua mais precisam dela, porque naturalmente chove menos. E h\u00e1 fortes ind\u00edcios de que \u00e9 a umidade da Floresta Amaz\u00f4nica que permite a exist\u00eancia da Mata Atl\u00e2ntica no Oeste do Paran\u00e1, das matas do Parque Nacional do Igua\u00e7u e de toda a \u00e1gua que vem dali. N\u00e3o h\u00e1 estudos conclusivos sobre o Sudeste. Mas os rios voadores n\u00e3o s\u00e3o o \u00fanico mecanismo ligado a desmatamento e mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>O que o senhor destaca?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A rela\u00e7\u00e3o entre a floresta e o equil\u00edbrio t\u00e9rmico necess\u00e1rio \u00e0 agricultura. A Amaz\u00f4nia \u00e9 um ar-condicionado. \u00c9 ela que resfria o norte do Cerrado e torna vi\u00e1vel a agricultura no Matopiba (acr\u00f4nimo para Maranh\u00e3o, Tocantins, Piau\u00ed e Bahia), a \u00faltima grande fronteira agr\u00edcola da Terra. Mas, com o desmatamento, a Amaz\u00f4nia esquenta. Os ventos da floresta chegam 2\u00b0C mais quentes. Isso pode inviabilizar a agropecu\u00e1ria no norte do Cerrado.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>Como o desmatamento esquenta a floresta?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A floresta tropical \u00e9 extremamente ativa, 70% da radia\u00e7\u00e3o solar s\u00e3o absorvidos por ela na evapotranspira\u00e7\u00e3o, na qual as \u00e1rvores usam a energia do sol para transformar a \u00e1gua que absorvem do solo em vapor, que devolvem para a atmosfera. Isso gera a chuva, faz da floresta uma usina de \u00e1gua. Quando as \u00e1rvores s\u00e3o derrubadas, sobra energia para aquecer o ar. A regi\u00e3o esquenta. Em per\u00edodos de onda de calor, o vento que chega ao Cerrado pode ser at\u00e9 3\u00b0C mais quente. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>Qu\u00e3o cr\u00edtica?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ao ponto de inviabilizar a agricultura no Matopiba. O norte do Cerrado j\u00e1 \u00e9 mais quente que a Amaz\u00f4nia. Soja e milho l\u00e1 est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o limite. O pr\u00f3prio desmatamento do Cerrado agrava a situa\u00e7\u00e3o. Rompe a estabilidade t\u00e9rmica, j\u00e1 delicada, e traz mais calor a uma regi\u00e3o t\u00f3rrida.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>A floresta \u00e9 exuberante. Por que sem ela s\u00f3 h\u00e1 terra arrasada?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A floresta s\u00f3 existe porque existe a floresta. Ela recicla vida e \u00e1gua, num sistema extremamente eficiente em que nada \u00e9 desperdi\u00e7ado. Oitenta por cento do solo s\u00e3o paup\u00e9rrimos, exauridos por milh\u00f5es de anos de chuvas torrenciais. Quando uma simples folha cai, ela \u00e9 imediatamente reciclada. Nada se perde. A floresta recicla a \u00e1gua, e cerca de 25% de toda a chuva da Amaz\u00f4nia s\u00e3o produzidos por ela pr\u00f3pria. Essa din\u00e2mica fren\u00e9tica, complexa e delicada s\u00f3 come\u00e7ou a ser conhecida nos anos 1970.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>Qual o pre\u00e7o da ignor\u00e2ncia?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Terra arrasada e pobreza. O \u201cem se plantando tudo d\u00e1\u201d de Pero Vaz de Caminha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Mata Atl\u00e2ntica, estendido \u00e0 Amaz\u00f4nia, \u00e9 uma vis\u00e3o superficial, equivocada. Mas parte do Brasil insiste em permanecer agarrada \u00e0 ignor\u00e2ncia do passado. E vemos o resultado nas \u00e1reas desmatadas.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>Qual o resultado?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A soja na Amaz\u00f4nia, para ser vi\u00e1vel, precisa de enorme quantidade de fertilizantes e defensivos qu\u00edmicos. E h\u00e1 as pragas. Insetos perdem os predadores e viram pragas.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>E para o gado?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Usam a terra por sete, 15 anos no m\u00e1ximo, e abandonam. N\u00e3o serve mais para pasto, fica degradada. Estima-se que 23% dos 800 mil km2 desmatados foram abandonados.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>E depois?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Desmatar \u00e9 acabar com o futuro. D\u00e1 lucro a poucos por pouco tempo, um modo de ganhar dinheiro colonial, de vis\u00e3o curta. A floresta n\u00e3o voltar\u00e1 a ser como \u00e9, ela \u00e9 muito dif\u00edcil de restaurar. Nem ela, nem o mundo que existe gra\u00e7as a ela.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>O que o senhor pensa em estudar agora?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quando propus a teoria da savaniza\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia devido a mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, h\u00e1 30 anos, n\u00e3o imaginei que o processo pudesse se estender. Mas agora h\u00e1 sinais de que as savanas poderiam ocupar parte do Sul, mais precisamente o Oeste do Paran\u00e1, que mencionei anteriormente. A regi\u00e3o onde est\u00e1 Foz teria uma vegeta\u00e7\u00e3o de Cerrado, parecida com a do Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>E por qu\u00ea?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Desde 2012 sabemos que o fluxo de umidade da Amaz\u00f4nia \u00e9 fundamental para o regime h\u00eddrico de parte do Sul do Brasil no inverno. O problema \u00e9 que se h\u00e1 menos \u00e1rvores devido ao desmatamento, haver\u00e1 menos vapor d\u2019\u00e1gua indo para o Sul. E s\u00f3 chove um pouco mais no inverno nessa \u00e1rea do Paran\u00e1 devido a esse fluxo. Ent\u00e3o, a savaniza\u00e7\u00e3o associada ao desmatamento da Amaz\u00f4nia, um fen\u00f4meno radical, cujo risco levantei nos anos 90, tornou-se plaus\u00edvel bem distante da Floresta Amaz\u00f4nica.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16688\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/image-1.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"740\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/image-1.png 450w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/image-1-182x300.png 182w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16685\" src=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/image-2.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"740\" srcset=\"https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/image-2.png 450w, https:\/\/www.raisg.org\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/image-2-182x300.png 182w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/strong><\/h3>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>No ano passado, o senhor publicou um estudo alertando que o chamado ponto sem volta para a savaniza\u00e7\u00e3o estava mais perto do que nunca. O qu\u00e3o pr\u00f3ximo estamos agora?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Bem na beira do abismo. Os modelos clim\u00e1ticos indicavam a transforma\u00e7\u00e3o quando o desmatamento chegasse a entre 20% e 25% da floresta. Estamos em 17%, continua a esquentar. A previs\u00e3o \u00e9 que restariam menos de 40% da floresta tropical, o resto seria uma savana pobre. E os sinais de que as mudan\u00e7as aceleraram e a floresta est\u00e1 a ponto de dar lugar a uma savana, n\u00e3o como a do Cerrado, mas mais pobre, s\u00e3o vis\u00edveis e mensur\u00e1veis.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>Onde est\u00e3o?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Em todo o sul da Amaz\u00f4nia, uma \u00e1rea que vai do sul de Rond\u00f4nia ao Oceano Atl\u00e2ntico, exatamente no Arco do Desmatamento. A savaniza\u00e7\u00e3o, como adverti em 1990, \u00e9 resultado do desmatamento, da eleva\u00e7\u00e3o da temperatura global e local e do uso do fogo.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>E que sinais s\u00e3o esses?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Um \u00e9 o aumento da mortalidade das \u00e1rvores nativas da Amaz\u00f4nia, adaptadas ao clima \u00famido. E elas morrem porque a esta\u00e7\u00e3o seca est\u00e1 tr\u00eas semanas mais longa em rela\u00e7\u00e3o aos anos 80 do s\u00e9culo XX. Em \u00e1reas mais desmatadas, temos quatro semanas extras. Na hora em que a esta\u00e7\u00e3o seca, que tem tr\u00eas meses, chegar a quatro, estar\u00e1 estabelecida a transi\u00e7\u00e3o para a savana.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>E que outros sinais?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A temperatura aumentou 3\u00b0C na esta\u00e7\u00e3o seca, e as \u00e1rvores est\u00e3o transpirando menos e, com isso, liberando menos umidade para gerar chuva. \u00c9 um ciclo vicioso e n\u00e3o tem volta, uma vez iniciado. A floresta fica cada vez mais vulner\u00e1vel.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>E n\u00e3o h\u00e1 nada que se possa se fazer?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Primeiro, parar de desmatar. Al\u00e9m disso, restaurar pelo menos 30% dos cerca de 800 mil km2 desmatados e dos quais 23% est\u00e3o abandonados. \u00c9 muito dif\u00edcil recuperar a Amaz\u00f4nia. Mas parar a savaniza\u00e7\u00e3o, uma vez iniciada, ser\u00e1 imposs\u00edvel.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>Qual a perspectiva para o desmatamento este ano?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Aumentar. De janeiro a junho de 2020, em compara\u00e7\u00e3o com mesmo per\u00edodo de 2019, segundo o Deter (Inpe), que\u00a0<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/desmatamento-da-amazonia-bate-recorde-em-junho-alerta-inpe-24525686\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/desmatamento-da-amazonia-bate-recorde-em-junho-alerta-inpe-24525686&amp;source=gmail&amp;ust=1595426172486000&amp;usg=AFQjCNFHGuWlCXOO4XDNxHNxk5ztz1ov4g\">indica uma tend\u00eancia, houve alta de 26%<\/a>. Isso indica que o Prodes (tamb\u00e9m do Inpe, com dados consolidados), que fecha no fim do m\u00eas, deve chegar a uma \u00e1rea desmatada de 13 mil km2 a 13,5 mil km2 de agosto de 2019 a julho de 2020, um aumento imenso, na casa dos 30%. Tudo leva a crer que deve explodir.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>E por qu\u00ea?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Porque reflete a pol\u00edtica ambiental do governo federal, que empodera desmatadores.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>E a a\u00e7\u00e3o dos militares?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Militares foram enviados \u00e0 Amaz\u00f4nia em 2019 para apagar inc\u00eandio. Combateram o fogo, mas n\u00e3o o crime organizado por tr\u00e1s do desmatamento. O crescimento do desmatamento em maio e junho, com o Ex\u00e9rcito na floresta, leva \u00e0 conclus\u00e3o \u00f3bvia de que n\u00e3o \u00e9 efetivo. O crime organizado continua empoderado.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>O Brasil combateu o desmatamento com sucesso antes. A receita \u00e9 a mesma?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sim. Monitoramento com sat\u00e9lites, fiscaliza\u00e7\u00e3o severa, a\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia e desarticula\u00e7\u00e3o do crime organizado.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>A press\u00e3o externa aumentou. Qu\u00e3o vulner\u00e1vel o Brasil \u00e9?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Cresceu muito, e o Brasil, por mais que o governo negue, \u00e9 totalmente vulner\u00e1vel. Precisa de investidores e compradores. Nunca vi o agroneg\u00f3cio, seja o moderno ou o conservador, t\u00e3o preocupado.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>Como se sente, ap\u00f3s d\u00e9cadas de trabalho em prol da Amaz\u00f4nia, vendo grandes grupos econ\u00f4micos se mobilizarem contra a destrui\u00e7\u00e3o da floresta?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nunca aconteceu antes. Percebi um momento de virada. Vejo como s\u00edmbolo hist\u00f3rico disso a\u00a0<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/amazonia-fundos-globais-que-administram-us-375-tri-pressionam-por-reducao-de-desmatamento-24493136\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/amazonia-fundos-globais-que-administram-us-375-tri-pressionam-por-reducao-de-desmatamento-24493136&amp;source=gmail&amp;ust=1595426172486000&amp;usg=AFQjCNEVMxhDnUdpoa-77pyQr-8ITl84gQ\">carta enviada a embaixadas brasileiras por 29 fundos de investimento e pens\u00e3o internacionais<\/a>, que administram mais de US$ 4 trilh\u00f5es. Eles t\u00eam a\u00e7\u00f5es de empresas do setor agro, como JBS, Marfrig. Podem fazer despencar o valor das empresas. H\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental na posi\u00e7\u00e3o deles, que mudou tudo.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>Qual?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eles falam em zerar o desmatamento. Zerar, n\u00e3o importa se legal ou ilegal. \u00c9 zero. A carta de empresas brasileiras enviada ao governo fala em desmatamento ilegal. N\u00e3o basta. O Brasil \u00e9 pr\u00f3digo em adequar a lei aos interesses de grupos econ\u00f4micos e legalizar ilegalidades com projetos de lei como o 2.633\/20, que substitui a MP 910, que regulariza ocupa\u00e7\u00f5es em terras da Uni\u00e3o. Isso fez o setor se mexer.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>Como assim?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O agroneg\u00f3cio dito moderno, silencioso at\u00e9 agora, come\u00e7a a se mexer. A inc\u00f3gnita \u00e9 o que far\u00e1 o agro conservador, maioria da bancada ruralista no Congresso. O cen\u00e1rio muda. Mas para onde vai? N\u00e3o adianta o governo pensar que resolver\u00e1 com propaganda. Esses fundos t\u00eam suas pr\u00f3prias fontes de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>\u00c9 poss\u00edvel conciliar agroneg\u00f3cio e floresta em p\u00e9?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Claro que sim. Nos anos em que o desmatamento despencou, caiu quase 80%, a produ\u00e7\u00e3o do setor dobrou e triplicou de valor econ\u00f4mico. H\u00e1 terra livre demais para a produ\u00e7\u00e3o. Pense que 23% da \u00e1rea desmatada est\u00e3o abandonados. Temos que acabar com a pr\u00e1tica expansionista, de lucrar com a posse de mais terra, e investir em aumento de produtividade. Tem muita gente fazendo isso com sucesso.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>A floresta em p\u00e9 vale mais do que no ch\u00e3o? O que \u00e9 o conceito de Amaz\u00f4nia 4.0 que o senhor desenvolveu?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 muito mais valiosa. Desmatar \u00e9 desperdi\u00e7ar. A Amaz\u00f4nia 4.0 \u00e9 um conceito em que a riqueza da regi\u00e3o amaz\u00f4nica est\u00e1 na biodiversidade e na manuten\u00e7\u00e3o da floresta. \u00c9 uma alus\u00e3o \u00e0 quarta Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, com o uso de tecnologias digitais, biotecnologia e ci\u00eancia de materiais. A base \u00e9 a ind\u00fastria altamente tecnol\u00f3gica e agregadora de valor dos produtos da mata. \u00c9 floresta em p\u00e9 e rios fluindo.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>Tecnologia de vanguarda pode coexistir com a maior selva do planeta?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Pode e deve. Hoje essas tecnologias s\u00e3o mais baratas, acess\u00edveis, dur\u00e1veis e de baixo impacto. Podem agregar valor aos produtos da floresta, que j\u00e1 s\u00e3o lucrativos. O a\u00e7a\u00ed \u00e9 um exemplo. S\u00f3 a polpa \u00e9 vendida e, ainda assim, o Par\u00e1 ganha com ele US$ 1,4 bilh\u00e3o por ano, beneficiando 400 mil pessoas. Isso \u00e9 mais que a madeira e s\u00f3 perde para a carne e a minera\u00e7\u00e3o, mas estas usam \u00e1rea muito maior. Em valores relativos, o a\u00e7a\u00ed \u00e9 at\u00e9 dez vezes mais lucrativo que a pecu\u00e1ria. Situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0s do cacau e da castanha, todos mais produtivos que soja e gado.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>E o que \u00e9 preciso para que a Amaz\u00f4nia 4.0 seja realidade?<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Vontade pol\u00edtica, com incentivo \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e pesquisa. E investimento privado. H\u00e1 toda uma nova economia na floresta em p\u00e9.<\/p>\n<h3 style=\"font-weight: 400;\"><strong>O que pensa o governo<\/strong><\/h3>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que as cr\u00edticas \u00e0 sua pol\u00edtica ambiental s\u00e3o parte de uma\u00a0<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/bolsonaro-fala-em-guerra-de-informacao-diz-que-europa-uma-seita-ambiental-24536968\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/bolsonaro-fala-em-guerra-de-informacao-diz-que-europa-uma-seita-ambiental-24536968&amp;source=gmail&amp;ust=1595426172486000&amp;usg=AFQjCNECeiUfFlOBaXPNKVvYe5W-rjYnYw\">\u201cguerra de informa\u00e7\u00e3o\u201d e de uma \u201cbriga comercial\u201d internacional<\/a>\u00a0que tem como alvo o agroneg\u00f3cio brasileiro.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Reunido com empres\u00e1rios, o vice-presidente Hamilton Mour\u00e3o admitiu que o governo ainda\u00a0<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/mourao-pede-financiamento-para-amazonia-em-reuniao-mas-investidores-querem-ver-resultados-24523711\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/mourao-pede-financiamento-para-amazonia-em-reuniao-mas-investidores-querem-ver-resultados-24523711&amp;source=gmail&amp;ust=1595426172486000&amp;usg=AFQjCNGzYktxPhYDfTJYpmV_rlUe2zdg8w\">n\u00e3o tem um plano para a queda do desmatamento<\/a>, mas\u00a0<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/2270-mourao-projeta-reducao-de-queimadas-em-2020-avalia-que-isso-trara-de-volta-investidores-24530209\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/2270-mourao-projeta-reducao-de-queimadas-em-2020-avalia-que-isso-trara-de-volta-investidores-24530209&amp;source=gmail&amp;ust=1595426172486000&amp;usg=AFQjCNEO1aepYGOQ3u-VMzRAV6eI5twoow\">previu redu\u00e7\u00e3o das queimadas na Amaz\u00f4nia<\/a>\u00a0no segundo semestre.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O Globo, 19\/07\/2020, Economia, p. 23-24<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/desmatar-acabar-com-futuro-da-lucro-poucos-por-pouco-tempo-diz-carlos-nobre-24540086\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/desmatar-acabar-com-futuro-da-lucro-poucos-por-pouco-tempo-diz-carlos-nobre-24540086&amp;source=gmail&amp;ust=1595426172486000&amp;usg=AFQjCNFJlGT8o_8QKyU8fm_xZyVh15mIAg\">https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/desmatar-acabar-com-futuro-da-lucro-poucos-por-pouco-tempo-diz-carlos-nobre-24540086<\/a><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Considerado um dos maiores especialistas do mundo na Amaz\u00f4nia e seus efeitos sobre o planeta, o climatologista Carlos Nobre viu nas\u00a0cartas recentes de fundos de investimentos internacionais\u00a0e de\u00a0empres\u00e1rios brasileiros ao governo Bolsonaro\u00a0cobrando informa\u00e7\u00f5es sobre a pol\u00edtica de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia um momento hist\u00f3rico de virada.<\/p>\n<p>Autor de uma teoria que prev\u00ea o risco de savaniza\u00e7\u00e3o da floresta, ele avalia que a economia entendeu que sem ela n\u00e3o h\u00e1 clima, chuva, agropecu\u00e1ria e nem futuro. O avan\u00e7o da fronteira agr\u00edcola \u00e9 uma das principais amea\u00e7as \u00e0 Amaz\u00f4nia, mas o cientista demonstra, em entrevista ao GLOBO, que o desmatamento p\u00f5e em risco o pr\u00f3prio agroneg\u00f3cio exportador, respons\u00e1vel por um quinto do PIB nacional e o \u00fanico setor que tem resistido \u00e0s crises econ\u00f4micas recentes.<\/p>\n<p>Um dos ganhadores do Pr\u00eamio Nobel em 2008, quando integrou o Painel Intergovernamental de Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica (IPCC) por seus trabalhos nessa \u00e1rea, Nobre diz que a Amaz\u00f4nia em p\u00e9, associada a uma nova ind\u00fastria, trar\u00e1 riquezas muito maiores que a gerada por sua destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":16693,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16711","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-radar","category-1","description-off"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16711","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16711"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16711\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16717,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16711\/revisions\/16717"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16693"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}