{"id":23661,"date":"2021-04-25T23:11:17","date_gmt":"2021-04-26T02:11:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.amazoniasocioambiental.org\/?p=23661"},"modified":"2021-04-27T13:25:30","modified_gmt":"2021-04-27T16:25:30","slug":"criacao-de-rodovia-na-amazonia-ameaca-disparar-a-violencia-no-lado-peruano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/radar\/criacao-de-rodovia-na-amazonia-ameaca-disparar-a-violencia-no-lado-peruano\/","title":{"rendered":"Cria\u00e7\u00e3o de rodovia na Amaz\u00f4nia amea\u00e7a disparar a viol\u00eancia no lado peruano"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Alexa V\u00e9lez, Vanessa Romo e Italo Garc\u00eda<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Folha de S\u00e3o Paulo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>25 de abril de 2025<\/strong><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<h3 class=\"c-content-head__subtitle\" style=\"text-align: center;\"><em>Projeto para conectar comercialmente o Peru e o Brasil teria consequ\u00eancias n\u00e3o s\u00f3 ambientais como pode levar ainda mais caos para a regi\u00e3o onde operam grupos ligados ao tr\u00e1fico de drogas<\/em><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"c-signature c-signature--left\" data-force-change-font-size=\"\"><strong class=\"c-signature__location\">LIMA E UCAYALI (PERU) | MONGABAY LATAM<\/strong><\/div>\n<div class=\"c-news__body\" data-share-text=\"\" data-news-content-text=\"\" data-disable-copy=\"\" data-continue-reading=\"\" data-continue-reading-hide-others=\".js-continue-reading-hidden\">\n<p>O sol ca\u00eda sobre o rio Abujao, pr\u00f3ximo \u00e0 fronteira do Peru com o Brasil, quando o barco do l\u00edder ind\u00edgena Jorge P\u00e9rez ficou sem combust\u00edvel. Eram 17h de uma tarde de novembro e s\u00f3 lhe restava remar at\u00e9 o povoado mais pr\u00f3ximo, para continuar no dia seguinte sua viagem at\u00e9 Pucallpa, capital da regi\u00e3o amaz\u00f4nica de Ucayali, no Peru. Quando a ponta do seu barco tocou a costa, quatro pessoas, entre jovens e adultos, sa\u00edram do matagal.<\/p>\n<p>&#8220;Quem \u00e9 voc\u00ea? Nunca te vi antes&#8221;, disse um dos mais jovens. &#8220;Eu vivo aqui. Acho que voc\u00ea est\u00e1 enganado. \u00c9 a primeira vez que eu te vejo, isso sim&#8221;, respondeu o l\u00edder ind\u00edgena, com a firmeza de quem percorre o rio Abujao h\u00e1 mais de 20 anos.<\/p>\n<p>P\u00e9rez narra que estava ciente do perigo quando percebeu que os quatro portavam armas de fogo de longo alcance. Ergueu o olhar e viu que no mato havia mais 20 pessoas. \u201cN\u00e3o sou o \u00fanico habitante que passou por isso, mas, como todas essas pessoas s\u00e3o de fora, est\u00e3o sempre averiguando se voc\u00ea \u00e9 policial\u201d, conta o l\u00edder ind\u00edgena, que, por seguran\u00e7a, nos pede para proteger seu nome.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos cinco anos, a presen\u00e7a de migrantes de Ayacucho e Apur\u00edmac se intensificou ao longo do rio Abujao, no distrito de Caller\u00eda, e tamb\u00e9m houve um aumento da invas\u00e3o das terras ind\u00edgenas ashaninkas e shipibas.<\/p>\n<div class=\"c-advertising c-advertising--300x250 u-hidden-xs rs_skip\">\n<div id=\"banner-300x250-area-materia\" class=\"c-advertising__banner-area\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Por que Jorge P\u00e9rez foi interceptado por esse grupo armado? Em um primeiro momento, ele n\u00e3o sabia ao certo com quem estava lidando, mas suas suspeitas se confirmaram no dia seguinte, quando, \u00e0s 5h da madrugada, ouviu um barulho constante de teco-tecos na regi\u00e3o.\u00a0<a href=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/mundo\/2020\/estado-alterado-as-politicas-para-drogas-pelo-mundo\/bolivia\/controle-da-area-cultivada\/\">Embora a presen\u00e7a de cultivos il\u00edcitos de folha de coca<\/a>\u00a0em Abujao remonte h\u00e1 aproximadamente 20 anos, os habitantes entrevistados por esta reportagem confirmam que, nos \u00faltimos cinco anos, a regi\u00e3o se tornou &#8220;zona vermelha&#8221;, como chamam o lugar onde operam grupos ligados ao tr\u00e1fico de drogas, especificamente de pasta b\u00e1sica de coca\u00edna.<\/p>\n<p>Suas declara\u00e7\u00f5es foram confirmadas pelos relat\u00f3rios da Comiss\u00e3o Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas (Devida), \u00f3rg\u00e3o do governo peruano.<\/p>\n<div class=\"player_dynad_tv rs_skip\"><\/div>\n<p>A esta regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia peruana, por\u00e9m, deve-se somar um risco a mais:\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ambiente\/2021\/04\/ressuscitada-por-bolsonaro-rodovia-ameaca-regiao-de-maior-biodiversidade-do-brasil.shtml\">a constru\u00e7\u00e3o da rodovia Pucallpa-Cruzeiro do Sul, um projeto vi\u00e1rio para conectar comercialmente o Peru e o Brasil.\u00a0<\/a>Uma interconex\u00e3o que evoca o fantasma da rodovia interoce\u00e2nica, uma das infraestruturas vi\u00e1rias mais caras do Peru e constru\u00edda pela empresa brasileira Odebrecht, envolvida em uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o pagamento de propinas para funcion\u00e1rios do governo peruano. Como o objetivo de conectar os dois pa\u00edses, provocou a perda de ao menos 177 mil hectares de florestas nativas, segundo o relat\u00f3rio do Projeto de Monitoramento da Amaz\u00f4nia Andina (MAAP, na sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>A proposta da rodovia Pucallpa-Cruzeiro do Sul j\u00e1 foi submetida a estudos, an\u00e1lises e cr\u00edticas de cientistas, organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e ambientais. A \u00faltima rota desenhada para essa via percorre paralelamente a bacia do rio Abujao e atravessa ao menos dez comunidades shipibas e ashaninkas, como Bethel, Betania, Santa Rosita de Abujao e San Mateo, na fronteira com o Brasil.<\/p>\n<p>Da mesma forma, segundo especialistas consultados por Mongabay Latam, esse trecho vi\u00e1rio cortaria um corredor de biodiversidade que come\u00e7a no Parque Nacional Sierra del Divisor (hom\u00f4nimo do parque brasileiro) e na Reserva Ind\u00edgena Isconahua e termina do outro lado do que seria essa rodovia, na zona de Influ\u00eancia da proposta da \u00c1rea de Conserva\u00e7\u00e3o Regional (ACR) de Alto Tamaya &#8211; Abujao.<\/p>\n<\/div>\n<p>Mas isso n\u00e3o impediu que, de tempos em tempos, volte a ser reativada. Desta vez, por interesses de autoridades regionais de Ucayali, como do governador Francisco Pezo Torres, e do Brasil. Sem contar o Congresso da Rep\u00fablica do Peru, onde um parlamentar de Ucayali apresentou um projeto de lei para declarar a rodovia de interesse nacional.<\/p>\n<p>Do lado do Brasil, o interesse por essa via aumentou com a chegada de Jair Bolsonaro \u00e0 presid\u00eancia em 2019. Ap\u00f3s 18 anos, n\u00e3o h\u00e1 fantasma no momento que detenha o avan\u00e7o desse projeto.<\/p>\n<p>Do lado peruano, chegaram a desenvolver at\u00e9 tr\u00eas trechos distintos, alguns deles contemplavam atravessar o Parque Nacional Sierra del Divisor ou a Reserva Territorial Isconahua, lar de ind\u00edgenas em isolamento volunt\u00e1rio. O governo regional de Ucayali decidiu a certa altura aguardar os estudos t\u00e9cnicos para avaliar qual seria a melhor rota. Sete anos depois, Provias Nacional, \u00f3rg\u00e3o do Minist\u00e9rio de Transportes e Comunica\u00e7\u00e3o do Peru, lan\u00e7ou uma convocat\u00f3ria para o desenvolvimento de um \u201cEstudo de pr\u00e9-investimento em n\u00edvel de perfil\u201d. Este foi aprovado em 2013 e prevalece o trecho que percorre paralelamente o rio Abujao. Administrativamente, esse foi o \u00faltimo cap\u00edtulo da rodovia.<\/p>\n<p>Luis D\u00e1valos, especialista de The Nature Conservancy, organiza\u00e7\u00e3o ambiental que analisou com outras institui\u00e7\u00f5es os poss\u00edveis impactos dessa via, explica que o projeto \u201cn\u00e3o avan\u00e7ou em termos t\u00e9cnicos, mas h\u00e1 avan\u00e7os, sim, em termos pol\u00edticos, promovidos principalmente pelo Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cVamos ter uma passagem para o Pac\u00edfico, onde chegaremos por via terrestre\u201d, disse Bolsonaro em outubro do ano passado. Em rea\u00e7\u00e3o, o vice-governador regional de Ucayali, \u00c1ngel Guti\u00e9rrez, respondeu dizendo aos meios de comunica\u00e7\u00e3o locais que &#8220;este era o momento de integra\u00e7\u00e3o&#8221;. Para Guti\u00e9rrez, os atrasos existentes se devem mais \u00e0 neglig\u00eancia das autoridades nacionais, ante o que considera uma obra importante para a economia nacional. \u201cMas n\u00f3s\u201d, destacou, \u201cestamos empenhados em pressionar, porque sen\u00e3o continuaremos [nos pr\u00f3ximos] 20 a 30 anos na mesma situa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">NOVA ZONA DE COCA<\/h3>\n<p>&#8220;Por que est\u00e3o aqui? Aqui ningu\u00e9m fala da coca, \u00e9 muito perigoso\u201d. Essa frase se repetia, com palavras diferentes, em cada comunidade do rio Abujao visitada por esta reportagem. O percurso pela regi\u00e3o, que devia durar quatro dias, precisou ser reduzido pela metade, por causa da chegada de pessoas estranhas \u00e0s comunidades, fazendo perguntas e pedindo explica\u00e7\u00f5es sobre a nossa presen\u00e7a na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 melhor irem embora, porque podem sair sem vida\u201d, disse o l\u00edder de uma das comunidades, que pediu para omitir seu nome. Ele tamb\u00e9m temia que as repres\u00e1lias pudessem afetar mais tarde os moradores da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A tens\u00e3o \u00e9 uma constante ao longo do Abujao. Por isso, embora muitos moradores queiram denunciar o que ocorre nessa bacia, ningu\u00e9m pode faz\u00ea-lo publicamente por medo da rea\u00e7\u00e3o dos traficantes de drogas. E a nova via seria instalada em meio a essa paisagem, onde os ind\u00edgenas e as popula\u00e7\u00f5es locais hoje aprendem a conviver com a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea n\u00e3o incomod\u00e1-los, estar\u00e1 a salvo\u201d, disse Edgar, um ind\u00edgena shipibo que vive na regi\u00e3o h\u00e1 mais de 50 anos. A mudan\u00e7a foi abrupta, assegura, pois deixaram de se sentir livres para viver em uma esp\u00e9cie de pris\u00e3o, sob vigil\u00e2ncia constante. Nada do que acontece em Abujao passa despercebido aos colonos que se instalaram na regi\u00e3o nos \u00faltimos anos. \u201cEles s\u00e3o os que vieram derrubar a floresta e plantar coca. E n\u00e3o semeiam um hectare, mas 20 a 50 hectares\u201d, relata Ernesto, ind\u00edgena shipibo.<\/p>\n<p>Por isso repetem que agora vivem no &#8220;Novo Vraem&#8221;. O Vale dos rios Apur\u00edmac, Ene e Mantaro (Vraem) \u00e9 a regi\u00e3o de maior produ\u00e7\u00e3o de cultivos ilegais de folhas de coca no Peru, onde o narcotr\u00e1fico opera e se aliou a terroristas remanescentes do Sendero Luminoso. \u00c9 tamb\u00e9m conhecida como uma zona livre, pois, apesar das opera\u00e7\u00f5es militares e policiais, os cultivos il\u00edcitos n\u00e3o foram completamente erradicados.<\/p>\n<p>Para o l\u00edder ashaninka Reyder Sebasti\u00e1n, a constru\u00e7\u00e3o da rodovia traria ainda mais caos para a regi\u00e3o, sobretudo porque, at\u00e9 o momento, os ind\u00edgenas n\u00e3o foram consultados sobre o projeto. \u201cN\u00f3s queremos trabalhar com o Estado para ver de que maneira podemos encontrar uma melhor solu\u00e7\u00e3o para conectar nossos povos, sem prejudic\u00e1-los\u201d, disse Reyder, o pinkatsari, como s\u00e3o conhecidos os grandes chefes da sua etnia. Ao contr\u00e1rio dos representantes da comunidade shipibo do rio Abujao, ele pode falar com maior tranquilidade, pois vive na cidade de Pucallpa.<\/p>\n<p>Reyder destaca que denunciou mais de uma vez a falta de seguran\u00e7a presente no Abujao, mas as autoridades n\u00e3o fazem nada. Mesmo agora, com a possibilidade de uma rodovia naquela regi\u00e3o, tamb\u00e9m somos ignorados. \u201cEles n\u00e3o nos olham como sujeitos com direitos, mas sim como objetos\u201d, diz o pinkatsari.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros retratam em branco e preto o que Reyder Sebasti\u00e1n aponta. Segundo a Comiss\u00e3o Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas (Devida), no distrito de Caller\u00eda, onde se encontra o rio Abujao, foram registrados 847 hectares de cultivos ilegais de folha de coca em 2019, um valor um pouco menor do que os 991 hectares de 2018, mas ainda significativamente alto, diante dos 271 existentes em 2016. O Instituto del Bien Com\u00fan (IBC) estimou que 30% desse total estaria concentrado na bacia de Abujao.<\/p>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">A HIST\u00d3RIA SE REPETE<\/h3>\n<p>De acordo com os depoimentos coletados, a maior parte do plantio e do processamento da droga ou da pasta b\u00e1sica de coca\u00edna \u00e9 realizada pelos colonos. No entanto existem povos ind\u00edgenas ashaninkas e shipibos que possuem pequenos peda\u00e7os de terra com planta\u00e7\u00f5es de folhas de coca e que vendem suas colheitas para esses terceiros, tamb\u00e9m conhecidos como \u2018forasteiros\u2019. \u201cFazem isso por necessidade. Por exemplo, na pandemia do ano passado, n\u00e3o pod\u00edamos comer apenas o milho e a banana que plant\u00e1vamos. Isso ajudou muitos irm\u00e3os a sobreviverem\u201d, aponta Eduardo, ind\u00edgena ashaninka.<\/p>\n<p>No \u00faltimo relat\u00f3rio completo de monitoramento da Devida publicado em 2018, a bacia de Abujao j\u00e1 era citada como uma nova \u00e1rea de expans\u00e3o da coca. O rio era inclusive considerado uma das principais rotas usadas pelos narcotraficantes para levar a droga para Cruzeiro do Sul. Segundo fontes da Dire\u00e7\u00e3o Antidrogas da Pol\u00edcia Nacional do Peru (Dirandro), a rota Abujao &#8211; Cruzeiro do Sul \u00e9 usada ao menos desde o in\u00edcio de 2010 para esse fim.<\/p>\n<p>Quanto mais voc\u00ea se aproxima da fronteira com o Brasil, maior o perigo. No entanto em toda a bacia de Abujao s\u00e3o sentidos os efeitos do tr\u00e1fico de drogas. \u201cTodos os dias vemos os traficantes de drogas passando pela comunidade\u201d, diz Juan, um ind\u00edgena shipibo que vive pr\u00f3ximo da entrada do rio Abujao. \u201c\u00c0s vezes atracam seus barcos para nos pedir peixe ou para comprar comida e nos pagam em d\u00f3lares. Temos de aceitar. Mas a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 piorando.\u201d<\/p>\n<p>Jorge P\u00e9rez, um ind\u00edgena ashaninka, se lembra de que algumas comunidades pensavam que o cultivo da folha de coca resolveria seus problemas. \u201c\u2018Voc\u00eas s\u00e3o pobres porque s\u00e3o tolos, com isso v\u00e3o ter dinheiro\u2019, diziam-lhes.\u201d Para ele, est\u00e1 acontecendo a mesma coisa hoje em Abujao.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s vezes, encontramos mochileiros (carregadores) que levam a droga at\u00e9 o Brasil ou vamos ca\u00e7ar e encontramos uma pista [clandestina]. Se ouvirmos o som do teco-teco, \u00e9 melhor sair dali. Inclusive temos medo de encontrar um po\u00e7o de macera\u00e7\u00e3o, porque achamos que podem nos ferir\u201d, diz Edmundo, um ind\u00edgena shipibo.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea acredita que nossa situa\u00e7\u00e3o vai melhorar com a rodovia?\u201d, pergunta Jorge P\u00e9rez. \u201cPor exemplo, em Satipo, onde a rodovia chega, serviu para trazer \u00e1gua e luz, o que \u00e9 bom. Mas e o resto? N\u00e3o vi nada al\u00e9m da pobreza\u201d, acrescenta. Para P\u00e9rez, a rodovia foi utilizada para retirar os recursos naturais com maior rapidez e para promover a migra\u00e7\u00e3o de pessoas atra\u00eddas pelo cultivo da folha de coca. &#8220;N\u00e3o t\u00eam nem \u00e1rvores para fazerem suas casas\u201d.<\/p>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">IMPACTO AMBIENTAL<\/h3>\n<p>David Salisbury, da Universidade de Richmond (EUA), aponta que a via planejada cruzaria at\u00e9 17 vezes rios e encostas do lado peruano. \u201cSabemos qual \u00e9 o impacto desse tipo de constru\u00e7\u00e3o pelo que aconteceu em outras \u00e1reas rurais e fronteiri\u00e7as amaz\u00f4nicas, onde o desmatamento, o tr\u00e1fico de terras, a extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira e a ca\u00e7a ilegal da fauna aumentaram\u201d, afirma Salisbury.<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos ver a regi\u00e3o como um ecossistema cont\u00ednuo. As \u00e1reas naturais n\u00e3o podem mais ser vistas como ilhas\u201d, acrescenta Pedro Tipula, do Instituto del Bien Com\u00fan (IBC).<\/p>\n<p>A isso se acrescenta que as comunidades ind\u00edgenas shibipas e ashaninkas que seriam afetadas ao longo da via at\u00e9 a data n\u00e3o foram inclu\u00eddas nas discuss\u00f5es, diz Berlin Diques, presidente da Organiza\u00e7\u00e3o Regional Aidesep Ucayali (ORAU). \u201cSe temos conhecimento de algo, \u00e9 pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Sabemos que este governo regional iniciou um acordo com as autoridades do Brasil, que at\u00e9 apresentou o caso no Congresso, mas os povos ind\u00edgenas ainda n\u00e3o foram consultados\u201d, garante o l\u00edder.<\/p>\n<p>Jorge P\u00e9rez lembra que a maioria da popula\u00e7\u00e3o ashaninka e shipiba n\u00e3o concorda com a rodovia, por isso exige a presen\u00e7a imediata do Estado em Abujao. \u201cEssa regi\u00e3o era tranquila, mas sempre vivemos com uma press\u00e3o sobre o pesco\u00e7o. H\u00e1 20 anos, eram os madeireiros, depois chegaram os mineradores ilegais e agora os narcotraficantes\u201d, enumera Jorge. \u201cEm breve, ser\u00e1 a rodovia. E o que acontece com a popula\u00e7\u00e3o?\u201d.<\/p>\n<p class=\"tagline\">Este projeto tem o apoio de InquireFirst e do Departamento de Educa\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica do Instituto M\u00e9dico Howard Hughes (HHMI).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ambiente\/2021\/04\/criacao-de-rodovia-na-amazonia-ameaca-disparar-a-violencia-no-lado-peruano.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ambiente\/2021\/04\/criacao-de-rodovia-na-amazonia-ameaca-disparar-a-violencia-no-lado-peruano.shtml<\/a>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sol ca\u00eda sobre o rio Abujao, pr\u00f3ximo \u00e0 fronteira do Peru com o Brasil, quando o barco do l\u00edder ind\u00edgena Jorge P\u00e9rez ficou sem combust\u00edvel. Eram 17h de uma tarde de novembro e s\u00f3 lhe restava remar at\u00e9 o povoado mais pr\u00f3ximo, para continuar no dia seguinte sua viagem at\u00e9 Pucallpa, capital da regi\u00e3o amaz\u00f4nica de Ucayali, no Peru. Quando a ponta do seu barco tocou a costa, quatro pessoas, entre jovens e adultos, sa\u00edram do matagal.<\/p>\n<p>&#8220;Quem \u00e9 voc\u00ea? Nunca te vi antes&#8221;, disse um dos mais jovens. &#8220;Eu vivo aqui. Acho que voc\u00ea est\u00e1 enganado. \u00c9 a primeira vez que eu te vejo, isso sim&#8221;, respondeu o l\u00edder ind\u00edgena, com a firmeza de quem percorre o rio Abujao h\u00e1 mais de 20 anos.<\/p>\n<p>P\u00e9rez narra que estava ciente do perigo quando percebeu que os quatro portavam armas de fogo de longo alcance. Ergueu o olhar e viu que no mato havia mais 20 pessoas. \u201cN\u00e3o sou o \u00fanico habitante que passou por isso, mas, como todas essas pessoas s\u00e3o de fora, est\u00e3o sempre averiguando se voc\u00ea \u00e9 policial\u201d, conta o l\u00edder ind\u00edgena, que, por seguran\u00e7a, nos pede para proteger seu nome.<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":23658,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-23661","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-radar","category-1","description-off"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23661","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23661"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23661\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23667,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23661\/revisions\/23667"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23658"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23661"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23661"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23661"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}