{"id":27183,"date":"2021-10-21T15:51:54","date_gmt":"2021-10-21T18:51:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.amazoniasocioambiental.org\/?p=27183"},"modified":"2021-10-22T16:14:10","modified_gmt":"2021-10-22T19:14:10","slug":"o-amigo-garimpeiro-do-capitao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/radar\/o-amigo-garimpeiro-do-capitao\/","title":{"rendered":"O amigo garimpeiro do capit\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><span class=\"noticia__header--autor--nome\">Revista Piau\u00ed<br \/>\nPor Marta Salomon<br \/>\n<\/span><\/strong><span class=\"noticia__header--autor--data\"><span class=\"bold\"><strong>21 de outubro de 2021<\/strong><br \/>\n<strong>Amaz\u00f4nia brasileira<\/strong><br \/>\n<\/span><\/span><\/p>\n<h4 class=\"main__noticia--desc noticia__header--info\" style=\"text-align: center;\"><em>Militar da Funai que deveria proteger kayap\u00f3s abre caminho para a minera\u00e7\u00e3o ilegal em terra ind\u00edgena no Par\u00e1<\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">E<\/span>ra 10 de novembro de 2020 quando um dos coordenadores regionais da Funai no Par\u00e1, capit\u00e3o Raimundo Pereira dos Santos Neto, escreveu um of\u00edcio informando que criara uma base avan\u00e7ada de apoio aos ind\u00edgenas kayap\u00f3s \u00e0s margens do Rio Iriri. O pretexto era atender a necessidades emergenciais daquela etnia no Sul do Par\u00e1, dizia Santos Neto no documento endere\u00e7ado ao ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade). Pouco mais de oito meses depois, em 20 de julho deste ano, o galp\u00e3o que abrigava a tal base foi destru\u00eddo por fiscais do Ibama ap\u00f3s ter sido identificado como estrutura de apoio a atividades il\u00edcitas de garimpo na Terra Ind\u00edgena Menkragnoti.<\/p>\n<p>No of\u00edcio ao instituto respons\u00e1vel por \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o ambiental, Santos Neto, coordenador da regional Kayap\u00f3 Sul do Par\u00e1, escreveu que o galp\u00e3o havia sido cedido por um \u201ccolaborador\u201d, Ant\u00f4nio J\u00falio Martins de Oliveira. O colaborador, no caso, j\u00e1 era alvo havia mais de uma d\u00e9cada de autua\u00e7\u00f5es de \u00f3rg\u00e3os ambientais, por ocupa\u00e7\u00e3o irregular da Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica Terra do Meio, uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o integral criada em 2005, na sequ\u00eancia do assassinato da religiosa Dorothy Stang, v\u00edtima da violenta disputa de terras na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>No of\u00edcio, o capit\u00e3o da Funai forneceu a coordenada geogr\u00e1fica do local onde instalara a base que deveria apoiar os ind\u00edgenas, S 06\u00b045\u201920.0\u2033 W 053\u00b053\u201906.5, a mesma localiza\u00e7\u00e3o que aparece na foto do galp\u00e3o destru\u00eddo pelos fiscais ambientais, na Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica, que faz divisa com a terra ind\u00edgena. A foto acompanha um dos relat\u00f3rios a que a <b>piau\u00ed<\/b> teve acesso. A Menkragnoti \u00e9 uma das terras ind\u00edgenas da etnia Kayap\u00f3 e ocupa uma \u00e1rea de mais de 49 mil km\u00b2 no Mato Grosso e no Par\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_407148\" style=\"width: 741px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-407148\" class=\"wp-image-407148\" src=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/galpao_191021_interna1200.jpg\" alt=\"\" width=\"731\" height=\"411\" \/><p id=\"caption-attachment-407148\" class=\"wp-caption-text\">Galp\u00e3o erguido pela Funai e destru\u00eddo pelo Ibama por servir de base para garimpo ilegal em terra ind\u00edgena; fiscais do Ibama em a\u00e7\u00e3o \u2013 Fotos: Ibama<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-407152 aligncenter\" src=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/icmbio_191021_interna.jpg\" alt=\"\" width=\"731\" height=\"492\" \/><\/p>\n<p>Entre a cria\u00e7\u00e3o da base de apoio a ind\u00edgenas pela Funai, em novembro, e a destrui\u00e7\u00e3o do galp\u00e3o pelo Ibama, em julho, Ant\u00f4nio J\u00falio Martins de Oliveira, conhecido no local como Cheiro, foi multado pela posse de 4 quilos de merc\u00fario e pela destrui\u00e7\u00e3o de 50 hectares de floresta para a explora\u00e7\u00e3o de ouro no interior da terra ind\u00edgena. As multas aplicadas pelo Ibama neste ano a Cheiro somam quase 1,4 milh\u00e3o de reais, sem considerar outras duas multas no valor de 6 milh\u00f5es reais aplicadas pelos fiscais por explora\u00e7\u00e3o ilegal de garimpo e cria\u00e7\u00e3o de gado em \u00e1rea protegida.<\/p>\n<p>Em junho, fiscais do ICMBio embargaram uma estrada de 49 km de extens\u00e3o constru\u00edda por Cheiro, que ligava o galp\u00e3o ao Rio Catet\u00e9 e \u00e0 \u00e1rea de garimpo. A abertura da estrada destruiu mais 29 hectares de floresta, contabilizaram os fiscais. Imagens de sat\u00e9lite mostram que a abertura da estrada e a expans\u00e3o do garimpo ganharam f\u00f4lego ap\u00f3s o of\u00edcio em que o coordenador regional Kayap\u00f3 Sul do Par\u00e1 chama o garimpeiro de \u201ccolaborador\u201d.<\/p>\n<p>Questionada sobre a instala\u00e7\u00e3o de uma base avan\u00e7ada em local que serviu de apoio ao garimpo ilegal, a Funai n\u00e3o respondeu at\u00e9 o fechamento desta reportagem. O coordenador regional Santos Neto recusou o pedido de entrevista. A <b>piau\u00ed <\/b>n\u00e3o conseguiu contato com Ant\u00f4nio J\u00falio Martins de Oliveira. O caso \u00e9 investigado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal em Altamira, mas est\u00e1 sob sigilo.<\/p>\n<p>A \u00e1rea de floresta onde o \u201ccolaborador\u201d do chefe local da Funai atuava foi identificada como uma das regi\u00f5es cr\u00edticas de desmatamento neste ano na Amaz\u00f4nia. A devasta\u00e7\u00e3o total deve somar mais de 10 mil km2 pelo terceiro ano seguido, com a divulga\u00e7\u00e3o da taxa oficial, prevista para ocorrer at\u00e9 o in\u00edcio de dezembro. Os alertas de desmatamento registrados pelo Inpe entre agosto e a primeira semana de outubro somam 2,2 mil km2. Nesse intervalo de pouco mais de dois meses do per\u00edodo de coleta da nova taxa anual, a minera\u00e7\u00e3o responde por 17 km2 de abate da floresta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span class=\"capitalize\">H<\/span>avia tr\u00eas caminhonetes da Funai<\/strong> estacionadas no galp\u00e3o do garimpeiro \u201ccolaborador\u201d em 20 de julho desde ano, data da destrui\u00e7\u00e3o das instala\u00e7\u00f5es. Uma quarta caminhonete encontrada no local pertenceria a Ant\u00f4nio J\u00falio Martins de Oliveira, anotaram os fiscais do Ibama.<\/p>\n<p>\u201cAssim, mais uma vez, ficou evidente a continuidade de uso das instala\u00e7\u00f5es de Ant\u00f4nio J\u00falio e do galp\u00e3o irregularmente ali constru\u00eddo como apoio a atividades il\u00edcitas de garimpo na Terra Ind\u00edgena Menkrangnoti\u201d, relataram. Os fiscais tamb\u00e9m destacaram que o galp\u00e3o havia sido constru\u00eddo pouco tempo antes, no segundo semestre de 2020, com madeira da esp\u00e9cie Castanheira, cujo corte est\u00e1 proibido. No local, encontraram equipamentos de internet usados na atividade ilegal na terra ind\u00edgena.<\/p>\n<p>No mesmo dia, os fiscais conseguiram flagrar duas retroescavadeiras e tr\u00eas caminh\u00f5es que haviam sido escondidos na floresta na incurs\u00e3o anterior do Ibama \u00e0 regi\u00e3o, em maio, segundo informaram os trabalhadores encontrados no local conhecido como garimpo Irara ou garimpo do Cheiro. O relat\u00f3rio de maio informa que os agentes vasculharam a \u00e1rea sem encontrar m\u00e1quinas nem garimpeiros. \u201cConstatou-se que o garimpo havia destru\u00eddo em torno de 50 hectares de vegeta\u00e7\u00e3o e havia destru\u00eddo todos os cursos d\u2019\u00e1gua\u201d, diz o relat\u00f3rio de maio.<\/p>\n<p>Em 25 maio, na primeira incurs\u00e3o do Ibama \u00e0 \u00e1rea, os fiscais destru\u00edram acampamentos, apreenderam tr\u00eas espingardas e 4 quilos de merc\u00fario divididos em oito frascos. O <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/mal-invisivel\/\">merc\u00fario <\/a>\u00e9 metal usado para extrair ouro no garimpo, respons\u00e1vel pela <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/desensinando-a-pescar\/\">contamina\u00e7\u00e3o de peixes<\/a> nos rios da Amaz\u00f4nia. Nessa primeira incurs\u00e3o, os fiscais tamb\u00e9m localizaram no galp\u00e3o ent\u00e3o rec\u00e9m-constru\u00eddo documentos de Ant\u00f4nio J\u00falio Martins de Oliveira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span class=\"capitalize\">C<\/span>inco dias antes da primeira fiscaliza\u00e7\u00e3o do Ibama,<\/strong> ind\u00edgenas de quatro aldeias da Menkragnoti se reuniram com o dono do garimpo e pediram a retirada dos garimpeiros do territ\u00f3rio. Uma delega\u00e7\u00e3o de dezoito ind\u00edgenas reuniu-se com Ant\u00f4nio J\u00falio na noite de 21 de maio. Na ocasi\u00e3o, ele disse que, na falta de apoio dos ind\u00edgenas ao garimpo, retiraria as m\u00e1quinas da regi\u00e3o. Mas n\u00e3o o fez.<\/p>\n<p>V\u00eddeos a que a <b>piau\u00ed<\/b> teve acesso mostram que o garimpeiro tentou o apoio dos ind\u00edgenas para explorar ouro, em troca do pagamento de uma \u201cporcentagem\u201d do que fosse extra\u00eddo. \u201cT\u00f4 pedindo de cora\u00e7\u00e3o, se voc\u00eas puderem entrar num acordo, eu acharia bom\u2026 Cabe aos senhores dizer assim, que v\u00e3o dar essa oportunidade pra n\u00f3s. Uma das melhores amizades que voc\u00ea pode pensar\u201d, disse o garimpeiro.<\/p>\n<p>Nessa mesma conversa, Ant\u00f4nio J\u00falio citou o nome do coordenador regional da Funai ao mencionar que a inten\u00e7\u00e3o do governo \u00e9 \u201cregularizar os ind\u00edgenas trabalharem. Regularizar minera\u00e7\u00e3o, projeto de manejo, pecu\u00e1ria, plantar soja, que \u00e9 o que Bolsonaro fala\u201d.<\/p>\n<p>O presidente Jair Bolsonaro apresentou projeto de lei ao Congresso em fevereiro de 2020 para regulamentar a minera\u00e7\u00e3o em terras ind\u00edgenas. Desde ent\u00e3o, <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/garimpando-com-o-cocar-alheio\/\">aumentaram os pedidos de pesquisa mineral<\/a> e explora\u00e7\u00e3o de lavra garimpeira nessas \u00e1reas. Nenhum desses pedidos registrados pela ANM (Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o) at\u00e9 o final de setembro tem o nome do \u201ccolaborador\u201d do coordenador da Funai.<\/p>\n<p>A proposta de Bolsonaro est\u00e1 parada na C\u00e2mara dos Deputados h\u00e1 mais de um ano e oito meses. Mas o garimpo ilegal em terras ind\u00edgenas aumentou 495% desde 2010, revela estudo divulgado em agosto pelo MapBiomas, com base em imagens de sat\u00e9lite. Outro estudo publicado neste ano identificou ind\u00edcios de irregularidades em 28% da produ\u00e7\u00e3o nacional de ouro em 2019 e 2020, correspondentes a 48,9 toneladas de ouro ou 9,1 bilh\u00f5es de reais. Feito em parceria do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal com a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), o levantamento\u00a0 identificou que 96% das \u00e1reas desmatadas para minera\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia est\u00e3o fora das permiss\u00f5es de lavra garimpeira que lastreiam o ouro comercializado no pa\u00eds no per\u00edodo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Texto original:<\/strong> <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/o-amigo-garimpeiro-do-capitao\/\">https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/o-amigo-garimpeiro-do-capitao\/ <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revista Piau\u00ed Por Marta Salomon 21 de outubro de 2021 Amaz\u00f4nia brasileira Militar da Funai que deveria proteger kayap\u00f3s abre caminho para a minera\u00e7\u00e3o ilegal em terra ind\u00edgena no Par\u00e1 &nbsp; Era 10 de novembro de 2020 quando um dos coordenadores regionais da Funai no Par\u00e1, capit\u00e3o Raimundo Pereira dos Santos Neto, escreveu um of\u00edcio&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":333,"featured_media":27184,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-27183","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-radar","category-1","description-off"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27183","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/333"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27183"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27183\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27192,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27183\/revisions\/27192"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/27184"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27183"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27183"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27183"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}