{"id":28563,"date":"2021-11-17T15:06:55","date_gmt":"2021-11-17T18:06:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.amazoniasocioambiental.org\/?p=28563"},"modified":"2021-11-18T16:07:21","modified_gmt":"2021-11-18T19:07:21","slug":"siga-o-couro-da-amazonia-aos-eua-como-estofados-para-carros-de-luxo-influenciam-o-desmatamento-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/radar\/siga-o-couro-da-amazonia-aos-eua-como-estofados-para-carros-de-luxo-influenciam-o-desmatamento-no-brasil\/","title":{"rendered":"Siga o couro: Da Amaz\u00f4nia aos EUA, como estofados para carros de luxo influenciam o desmatamento no Brasil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>O Globo<\/strong><br \/>\n<strong>17 de novembro de 2021 <\/strong><br \/>\n<strong>Amaz\u00f4nia Brasileira<\/strong><\/p>\n<h3 class=\"article__subtitle\" style=\"text-align: center;\"><em><strong>Investiga\u00e7\u00e3o do New York Times acompanha o caminho do item para estofados entre produtores irregulares de gado na Amaz\u00f4nia e montadoras americanas<\/strong><\/em><\/h3>\n<p>BURITIS \u2014 Certa manh\u00e3, Odilon Caetano Felipe, um fazendeiro que cria gado em terras desmatadas ilegalmente na Amaz\u00f4nia, reuniu-se com um comerciante e vendeu mais de 72 animais engordados.<\/p>\n<p>Com uma canetada, deu ao seu gado uma ficha limpa e apagou sua a\u00e7\u00e3o na destrui\u00e7\u00e3o da maior floresta tropical do mundo. Durante o almo\u00e7o, logo ap\u00f3s a venda realizada em 14 de julho, Felipe falou abertamente sobre o neg\u00f3cio que o enriqueceu ao jornal The New York Times.<\/p>\n<p><strong>Quer ser carbono zero?<\/strong>\u00a0 <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/um-so-planeta\/quer-ser-carbono-zero-ja-possivel-comprar-credito-de-projetos-na-amazonia-para-compensar-emissoes-25163799\">J\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel comprar cr\u00e9dito de projetos na Amaz\u00f4nia para compensar emiss\u00f5es pessoais. Saiba como<\/a><\/p>\n<p>Ele reconheceu o corte da densa Floresta Amaz\u00f4nica e que n\u00e3o pagou pela terra. Tamb\u00e9m disse que estruturou suas vendas para esconder as verdadeiras origens de seu gado, vendendo para um intermedi\u00e1rio e produzindo uma papelada que indicava, falsamente, que seus animais eram provenientes de uma fazenda legal.<\/p>\n<p>Outros fazendeiros da regi\u00e3o fazem o mesmo, disse ele.<\/p>\n<p>Uma investiga\u00e7\u00e3o do New York Times sobre a r\u00e1pida expans\u00e3o da ind\u00fastria de frigor\u00edficos no Brasil identificou lacunas em seus sistemas de monitoramento que permitem que peles de gado mantido em terras desmatadas ilegalmente na Amaz\u00f4nia sejam comercializadas, sem ser detectadas pelos curtumes do Brasil, para compradores em todo o mundo.<\/p>\n<div style=\"width: 1275px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"lazyload article__picture-image image--loaded\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/25281262-0c6-9c0\/FT1086A\/760\/xBRAZIL-DEFORESTATION-16.jpg.pagespeed.ic.pcj1495JQr.jpg\" alt=\"Fragmentos de pele de bovinos destinados a curtumes na Amaz\u00f4nia s\u00e3o manipulados por funcion\u00e1rio Foto: VICTOR MORIYAMA \/ NYT\" width=\"1265\" height=\"760\" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/25281262-0c6-9c0\/FT1086A\/760\/xBRAZIL-DEFORESTATION-16.jpg.pagespeed.ic.pcj1495JQr.jpg\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Fragmentos de pele de bovinos destinados a curtumes na Amaz\u00f4nia s\u00e3o manipulados por funcion\u00e1rio Foto: VICTOR MORIYAMA \/ NYT<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa ind\u00fastria vende n\u00e3o apenas carne para o mundo, mas toneladas de couro anualmente para grandes empresas nos Estados Unidos e em outros pa\u00edses.<\/p>\n<h2>Um carro de luxo pode demandar uma d\u00fazia de peles<\/h2>\n<p>A fazenda de Felipe \u00e9 uma das mais de 600 que operam em uma \u00e1rea da Amaz\u00f4nia conhecida como Jaci-Paran\u00e1, uma reserva ambiental especialmente protegida onde o desmatamento \u00e9 restrito.<\/p>\n<p>E transa\u00e7\u00f5es como a dele s\u00e3o os pilares de um complexo com\u00e9rcio global que liga o desmatamento da Amaz\u00f4nia a um apetite crescente nos Estados Unidos por luxuosos bancos de couro em picapes, SUVs e outros ve\u00edculos vendidos por algumas das maiores montadoras do mundo, entre elas a General Motors, Ford e Volkswagen.<\/p>\n<p>Um ve\u00edculo de luxo pode exigir uma d\u00fazia ou mais de peles, e os fornecedores nos Estados Unidos compram cada vez mais seu couro do Brasil.<\/p>\n<div style=\"width: 1275px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"lazyload article__picture-image image--loaded\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/25281266-c7f-9f8\/FT1086A\/760\/xBRAZIL-DEFORESTATION-6.jpg.pagespeed.ic.mNMp4nYmlA.jpg\" alt=\"Boi em confinamento em fazenda de Rond\u00f4nia Foto: VICTOR MORIYAMA \/ NYT\/14-7-2021\" width=\"1265\" height=\"760\" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/25281266-c7f-9f8\/FT1086A\/760\/xBRAZIL-DEFORESTATION-6.jpg.pagespeed.ic.mNMp4nYmlA.jpg\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Boi em confinamento em fazenda de Rond\u00f4nia Foto: VICTOR MORIYAMA \/ NYT\/14-7-2021<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A regi\u00e3o amaz\u00f4nica \u00e9 um dos maiores fornecedores mundiais de carne bovina. Mas as peles desses milh\u00f5es de animais tamb\u00e9m abastecem um lucrativo mercado internacional de couro avaliado em centenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares anualmente.<\/p>\n<h2>Consumo dos pa\u00edses ricos afeta a Amaz\u00f4nia<\/h2>\n<p>Este com\u00e9rcio de couro mostra como os h\u00e1bitos de consumo em pa\u00edses ricos est\u00e3o ligados \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o ambiental nos pa\u00edses em desenvolvimento. E, neste caso, ajudam a financiar a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia apesar de sua valiosa biodiversidade e do consenso cient\u00edfico de que proteg\u00ea-la ajudaria a desacelerar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>Agroneg\u00f3cio:<\/strong><a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/bolhas-de-riqueza-no-oeste-da-bahia-mostram-como-agronegocio-torna-regioes-do-interior-do-pais-imunes-crise-25125190\">Bolhas de riqueza&#8217; no Oeste da Bahia mostram como agroneg\u00f3cio torna regi\u00f5es do interior do pa\u00eds imunes \u00e0 crise<\/a><\/p>\n<p>Para rastrear o com\u00e9rcio global de couro desde as fazendas ilegais na floresta tropical brasileira at\u00e9 os assentos em ve\u00edculos americanos, o Times entrevistou fazendeiros, comerciantes, promotores e reguladores no Brasil, e visitou curtumes, fazendas e outras instala\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div style=\"width: 1275px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"lazyload article__picture-image image--loaded\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/25281267-3a9-0cd\/FT1086A\/760\/xBRAZIL-DEFORESTATION-9.jpg.pagespeed.ic.VU_2WzCCa-.jpg\" alt=\"Vista a\u00e9rea de uma regi\u00e3o de floresta no estado de Rond\u00f4nia onde fazendeiros abordados pela reportagem do NYT atuam Foto: VICTOR MORIYAMA \/ NYT\/11-7-2021\" width=\"1265\" height=\"760\" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/in\/25281267-3a9-0cd\/FT1086A\/760\/xBRAZIL-DEFORESTATION-9.jpg.pagespeed.ic.VU_2WzCCa-.jpg\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Vista a\u00e9rea de uma regi\u00e3o de floresta no estado de Rond\u00f4nia onde fazendeiros abordados pela reportagem do NYT atuam Foto: VICTOR MORIYAMA \/ NYT\/11-7-2021<\/p><\/div>\n<p>O jornal falou com participantes de todos os n\u00edveis do com\u00e9rcio il\u00edcito na Reserva Extrativista Jaci-Paran\u00e1, uma \u00e1rea no Estado de Rond\u00f4nia que recebeu prote\u00e7\u00f5es especiais por abrigar comunidades de pessoas que, por gera\u00e7\u00f5es, viveram da terra por extra\u00e7\u00e3o de seringueiras.<\/p>\n<h2>Fazendeiros avan\u00e7am sobre terras de comunidades<\/h2>\n<p>Essas comunidades agora est\u00e3o sendo expulsas por fazendeiros que querem terras para o gado.<\/p>\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, os fazendeiros expandiram significativamente sua presen\u00e7a na reserva, e hoje cerca de 56% dela foram desmatados, de acordo com dados compilados pelo \u00f3rg\u00e3o ambiental estadual.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio tamb\u00e9m se baseia na an\u00e1lise de dados corporativos e de com\u00e9rcio internacional em diversos pa\u00edses e em milhares de certificados de transporte de gado emitidos pelo governo brasileiro.<\/p>\n<p>Os certificados foram obtidos pela Ag\u00eancia de Investiga\u00e7\u00e3o Ambiental, um grupo de defesa em Washington. O Times verificou independentemente os certificados e obteve milhares de certificados adicionais separadamente.<\/p>\n<p>Isso possibilitou o rastreamento do couro de fazendas ilegais na Amaz\u00f4nia at\u00e9 os frigor\u00edficos operados pelas tr\u00eas maiores empresas do setor de prote\u00edna animal do Brasil \u2014 JBS, Marfrig e Minerva \u2014 e depois para os curtumes que eles fornecem. A JBS, por exemplo, se autodenomina a maior processadora de couro do mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Dar apar\u00eancia de legalidade ao gado<\/h2>\n<p>Segundo a Aidee Maria Moser, procuradora aposentada de Rond\u00f4nia que passou quase duas d\u00e9cadas lutando contra a pecu\u00e1ria ilegal na reserva Jaci-Paran\u00e1, a pr\u00e1tica de vender animais criados na reserva para intermedi\u00e1rios comerciantes sugere a inten\u00e7\u00e3o de ocultar sua origem.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma forma de dar uma apar\u00eancia de legalidade ao gado \u2014 disse ela, acrescentando que \u00e9 uma forma dos frigor\u00edficos negarem que \u201chaja algo ilegal\u201d.<\/p>\n<h2>MP identifica aquisi\u00e7\u00e3o de gado irregular pela JBS<\/h2>\n<p>O problema n\u00e3o se limita a Rond\u00f4nia. No m\u00eas passado, uma auditoria conduzida por procuradores do Estado vizinho do Par\u00e1, onde se encontra o segundo maior rebanho bovino da Amaz\u00f4nia, constatou que a JBS comprou 301 mil animais, o equivalente a 32% de suas compras no estado, entre janeiro de 2018 e junho de 2019 de fazendas que violaram os compromissos de prevenir o desmatamento ilegal.<\/p>\n<p>A JBS discordou dos crit\u00e9rios utilizados pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico e concordou em aprimorar seu sistema de monitoramento, bloquear fornecedores sinalizados pela auditoria e doar US $ 900 mil.<\/p>\n<h2>Investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica comparou mapas<\/h2>\n<p>Para ter uma ideia da escala das fazendas que operam em \u00e1reas vulner\u00e1veis na Amaz\u00f4nia brasileira, o Times sobrep\u00f4s mapas do governo de terras protegidas da Amaz\u00f4nia, \u00e1reas desmatadas e limites de fazendas com as localiza\u00e7\u00f5es das fazendas que a JBS listou publicamente como fornecedoras de seus matadouros em 2020.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise mostrou que, entre os fornecedores da JBS, fazendas que cobrem cerca de quatro mil quil\u00f4metros quadrados se sobrep\u00f5em significativamente a terras ind\u00edgenas, uma zona de conserva\u00e7\u00e3o ou uma \u00e1rea que foi desmatada ap\u00f3s 2008, quando as leis que regulamentam o desmatamento foram implementadas no Brasil.<\/p>\n<div style=\"width: 1275px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"lazyload article__picture-image image--loaded\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/economia\/25280580-fd3-f39\/FT1086A\/760\/xleather-2.jpg.pagespeed.ic.oXdnMHDXAp.jpg\" alt=\"Gado da fazenda de Odilon Felipe foi recolhido para enviar a um matadouro Foto: New York Times\" width=\"1265\" height=\"760\" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/economia\/25280580-fd3-f39\/FT1086A\/760\/xleather-2.jpg.pagespeed.ic.oXdnMHDXAp.jpg\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Gado da fazenda de Odilon Felipe foi recolhido para enviar a um matadouro Foto: New York Times<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A metodologia e os resultados foram examinados e verificados por uma equipe de pesquisadores e acad\u00eamicos independentes que estudam o uso do solo na Amaz\u00f4nia brasileira.<\/p>\n<p>Os dados do com\u00e9rcio internacional mostraram que as empresas propriet\u00e1rias de curtumes abastecidos com as peles enviaram couro para f\u00e1bricas no M\u00e9xico administradas pela Lear, uma grande fabricante de assentos que abastece montadoras de autom\u00f3veis nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A Lear disse em 2018 que estava adquirindo cerca de 70% de suas peles in natura do Brasil. As peles brasileiras tamb\u00e9m v\u00e3o para outros pa\u00edses, incluindo It\u00e1lia, Vietn\u00e3 e China, para uso nas ind\u00fastrias automotiva, de moda e de m\u00f3veis, mostraram os dados comerciais.<\/p>\n<h2>Desmatamento vem crescendo<\/h2>\n<p>O desmatamento na Amaz\u00f4nia aumentou nos \u00faltimos anos, \u00e0 medida que os fazendeiros corriam para atender \u00e0 crescente demanda por carne bovina, especialmente da China.<\/p>\n<p>Representantes da ind\u00fastria do couro afirmam que, enquanto houver demanda, eles simplesmente usar\u00e3o peles que, de outra forma, seriam enviadas para aterros sanit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Raoni Raj\u00e3o, que estuda as cadeias produtivas da Amaz\u00f4nia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), disse que, como a ind\u00fastria do couro torna a pecu\u00e1ria mais lucrativa, ela compartilha a responsabilidade por qualquer desmatamento.<\/p>\n<p>\u2014 O couro pode ter alto valor agregado \u2014 disse ele.<\/p>\n<p>A perda de florestas est\u00e1 destruindo a capacidade da Amaz\u00f4nia de absorver di\u00f3xido de carbono, que as \u00e1rvores retiram do ar.<\/p>\n<p>O di\u00f3xido de carbono da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis \u00e9 o principal motor das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. O Brasil foi uma das mais de 100 na\u00e7\u00f5es que se comprometeram a acabar com o desmatamento at\u00e9 2030 na recente c\u00fapula do clima das Na\u00e7\u00f5es Unidas em Glasgow.<\/p>\n<p>Embora a maioria das fazendas na regi\u00e3o amaz\u00f4nica n\u00e3o esteja ligada ao desmatamento ilegal, as descobertas mostram como o couro ilegal est\u00e1 entrando na cadeia de abastecimento global, contornando um sistema que os pr\u00f3prios frigor\u00edficos e empresas de couro criaram nos \u00faltimos anos para tentar mostrar que seu gado vem apenas de fazendas que cumprem as regras.<\/p>\n<div class=\"block block--advertising\">\n<div class=\"block__advertising\">\n<div class=\"block__advertising-header\">\n<p>Em Jaci-Paran\u00e1, a demanda global por couro est\u00e1 ajudando a sustentar um rebanho crescente de 120 mil bovinos onde a floresta existia.<\/p>\n<p>Dados do governo analisados pelo Times mostram o apetite por terras na \u00e1rea. De acordo com os n\u00fameros, entre janeiro de 2018 e junho de 2021 fazendas operando em Jaci-Paran\u00e1 em terras desmatadas ilegalmente venderam pelo menos 17,7 mil cabe\u00e7as de gado para fazendas intermedi\u00e1rias.<\/p>\n<p>Os compradores eram fornecedores dos tr\u00eas grandes frigor\u00edficos, JBS, Marfrig e Minerva, segundo dados governamentais e corporativos.<\/p>\n<p>Quase metade desse gado, 17.700 cabe\u00e7as, foi comprado por Armando Castanheira Filho, um comerciante local que tem sido um dos maiores compradores em Jaci-Paran\u00e1 e fornecedor direto para os tr\u00eas grandes frigor\u00edficos. As vendas para ele criaram uma trilha de papel que ocultava que o gado era origin\u00e1rio de fazendas ilegais.<\/p>\n<h2>Rep\u00f3rter testemunhou transa\u00e7\u00e3o envolvendo Marfrig<\/h2>\n<p>Um rep\u00f3rter do Times testemunhou tal transa\u00e7\u00e3o quando Felipe, o fazendeiro que reconheceu envolvimento no desmatamento, vendeu seus 72 bovinos este ano. O comprador naquele dia foi Castanheira.<\/p>\n<p>O Times ent\u00e3o rastreou os animais. Onze horas depois, eles foram parar em um matadouro da Marfrig.<\/p>\n<div style=\"width: 1275px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"lazyload article__picture-image image--loaded\" src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/economia\/25280576-983-8dc\/FT1086A\/760\/xleather-3.jpg.pagespeed.ic.E_Ce-IYOsw.jpg\" alt=\"Pasto em chamas perto de Porto Velho, capital de Rond\u00f4nia Foto: New York Times\" width=\"1265\" height=\"760\" data-src=\"https:\/\/ogimg.infoglobo.com.br\/economia\/25280576-983-8dc\/FT1086A\/760\/xleather-3.jpg.pagespeed.ic.E_Ce-IYOsw.jpg\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Pasto em chamas perto de Porto Velho, capital de Rond\u00f4nia Foto: New York Times<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Marfrig mant\u00e9m um site que lista a proced\u00eancia de seu gado, em um esfor\u00e7o para mostrar que adquire gado de forma respons\u00e1vel. Para a remessa de 14 de julho rastreada pelo Times, a fazenda de Felipe n\u00e3o est\u00e1 listada no site. Mas a lista das fazendas que forneceram gado para o abate do dia seguinte inclui a fazenda do Sr. Castanheira, que fica fora da reserva.<\/p>\n<p>No final daquele dia, no matadouro da Marfrig, um caminh\u00e3o com o nome de um curtume, Bluamerica, saiu do matadouro carregando peles. O Bluamerica \u00e9 um curtume que abastece a Lear.<\/p>\n<p>Castanheira confirmou que parte do gado que compra da reserva vai diretamente para o abate, n\u00e3o passando tempo na sua est\u00e2ncia, embora a papelada indique que passaram primeiro pela sua pr\u00f3pria quinta. Ele negou ter feito isso para esconder a origem do gado.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o fa\u00e7o isso para &#8216;lavar&#8217; nada\u201d, escreveu ele em uma mensagem de texto. Ele disse que sua inten\u00e7\u00e3o era simplesmente lucrar com a diferen\u00e7a entre o que ele paga por cada animal e o que pode receber no matadouro.<\/p>\n<p>No geral, uma an\u00e1lise dos dados do governo sobre a movimenta\u00e7\u00e3o de gado em Jaci-Paran\u00e1 e \u00e1reas pr\u00f3ximas entre 2018 e 2021 identificou 124 transa\u00e7\u00f5es que mostram sinais de lavagem de gado, dizem os especialistas.<\/p>\n<p>As transa\u00e7\u00f5es mostram que pelo menos 5.600 cabe\u00e7as de gado foram transferidas das fazendas da reserva para intermedi\u00e1rios que, no mesmo dia, venderam gado para os tr\u00eas grandes frigor\u00edficos.<\/p>\n<h2>&#8216;Enorme lacuna&#8217;<\/h2>\n<p>Holly Gibbs, ge\u00f3grafa da Universidade de Wisconsin-Madison que pesquisa o agroneg\u00f3cio na Amaz\u00f4nia h\u00e1 uma d\u00e9cada, disse que, embora os intermedi\u00e1rios leg\u00edtimos muitas vezes comprem e vendam gado no mesmo dia, o fato de as transa\u00e7\u00f5es n\u00e3o serem monitoradas de perto &#8220;\u00e9 uma enorme lacuna\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Eles est\u00e3o trazendo animais que foram criados em uma \u00e1rea protegida para as cadeias de abastecimento nacionais e internacionais \u2014 disse ela.<\/p>\n<p>A cadeia de suprimentos, da fazenda ao showroom de autom\u00f3veis, \u00e9 complexa.<\/p>\n<p>As peles dos frigor\u00edficos Minerva e JBS v\u00e3o para curtumes pr\u00f3prios da JBS, enquanto as peles da Marfrig s\u00e3o processadas principalmente pela Vancouros e Viposa, segundo dados corporativos e entrevistas.<\/p>\n<p>Dados comerciais compilados pela Panjiva, unidade de pesquisa de cadeia de suprimentos da S&amp;P Global Market Intelligence, mostram que o fabricante de assentos Lear, com sede em Southfield, no estado americano de Michigan, \u00e9 o maior comprador americano de peles da JBS, Vancouros e Viposa.<\/p>\n<p>Em maio passado, fazendeiros ilegais em Jaci-Paran\u00e1 conquistaram uma importante vit\u00f3ria. O governador de Rond\u00f4nia sancionou uma medida que reduziu o tamanho da reserva em 90%.<\/p>\n<p>A lei, que os promotores est\u00e3o lutando na Justi\u00e7a, abre caminho para que fazendeiros em terras desmatadas ilegalmente legalizem seus neg\u00f3cios. Os cr\u00edticos da lei disseram que ela poderia abrir um precedente para mais desmatamento em outras reservas protegidas.<\/p>\n<h2>Rastreabilidade desde o nascimento \u00e9 a chave<\/h2>\n<p>Todos os tr\u00eas grandes frigor\u00edficos t\u00eam sistemas projetados para rastrear a \u00faltima fazenda de onde veio o gado que abateram. No entanto, todos os tr\u00eas t\u00eam a mesma falha: eles n\u00e3o levam em considera\u00e7\u00e3o o fato de que o gado normalmente n\u00e3o passa a vida inteira em uma \u00fanica fazenda.<\/p>\n<p>Portanto, eles n\u00e3o consideram que um fornecedor direto possa estar vendendo gado que na verdade foi criado por outra pessoa, em terras desmatadas ilegalmente.<\/p>\n<p>Os sistemas de rastreamento foram criados ap\u00f3s um relat\u00f3rio do Greenpeace de 2009 que relacionou os fornecedores brasileiros de carne e couro ao desmatamento ilegal. Hoje, as tr\u00eas principais empresas afirmam que t\u00eam pol\u00edticas de desmatamento de toler\u00e2ncia zero para todos os fornecedores diretos.<\/p>\n<p>\u2014 Apenas a rastreabilidade do nascimento ao abate para animais individuais ser\u00e1 suficiente para garantir que n\u00e3o haja desmatamento nessas cadeias de suprimento de alto risco na Amaz\u00f4nia \u2014 disse Rick Jacobsen, da Ag\u00eancia de Investiga\u00e7\u00e3o Ambiental, o grupo sem fins lucrativos.<\/p>\n<p>JBS, Marfrig e Minerva se comprometeram publicamente a melhorar o rastreamento das fazendas que vendem gado a seus fornecedores diretos. A JBS disse que rastrear\u00e1 uma camada de fornecedores indiretos at\u00e9 2025.<\/p>\n<p>A Marfrig prometeu rastrear todos os seus fornecedores indiretos na Amaz\u00f4nia at\u00e9 2025 e a Minerva disse que teria cadeias de suprimentos totalmente rastre\u00e1veis na Am\u00e9rica do Sul at\u00e9 2030.<\/p>\n<h2>O que dizem as empresas<\/h2>\n<p>A JBS reconheceu que quase tr\u00eas quartos das fazendas identificadas na an\u00e1lise do Times se sobrep\u00f5em a terras que o governo classifica como desmatadas ilegalmente, ou como terras ind\u00edgenas ou uma zona de conserva\u00e7\u00e3o. Mas informou que todas as fazendas cumpriam as regras para evitar o desmatamento quando a JBS comprou delas.<\/p>\n<p>A empresa ainda informou que, nos casos de sobreposi\u00e7\u00e3o, as fazendas foram autorizadas a operar em \u00e1reas protegidas ou desmatadas, ou tiveram seus limites alterados, ou seguiram regras para corrigir suas viola\u00e7\u00f5es ambientais. A pecu\u00e1ria \u00e9 permitida em algumas \u00e1reas protegidas no Brasil, desde que siga pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis.<\/p>\n<p>Em nota, a JBS informou que mant\u00e9m h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada um sistema de monitoramento que verifica o cumprimento da pol\u00edtica ambiental dos fornecedores.<\/p>\n<p><strong>COP26<\/strong>: <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/um-so-planeta\/cop-26-empresarios-defendem-que-brasil-faca-concessoes-para-destravar-mercado-de-carbono-25237170\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Empres\u00e1rios defendem que Brasil fa\u00e7a concess\u00f5es para destravar mercado de carbono<\/a><\/p>\n<p>\u201cMais de 14.000 fornecedores foram bloqueados por n\u00e3o cumprimento desta pol\u00edtica\u201d, disse a empresa ao Times.<\/p>\n<p>No entanto, a companhia afirmou que \u201co grande desafio da JBS, e da cadeia produtiva da pecu\u00e1ria de corte em geral, \u00e9 monitorar os fornecedores de seus fornecedores, uma vez que a empresa n\u00e3o tem informa\u00e7\u00f5es sobre eles\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da JBS, Marfrig e Minerva disseram n\u00e3o saber que o gado da reserva Jaci-Paran\u00e1 estava entrando em suas cadeias de abastecimento.<\/p>\n<p>As tr\u00eas empresas afirmaram ter sistemas para monitorar fazendas que abastecem diretamente seus frigor\u00edficos e que excluem fazendas que n\u00e3o cumprem as leis ambientais. Mas elas reconheceram que n\u00e3o podem rastrear fornecedores indiretos, como Felipe, que vende gado por meio de intermedi\u00e1rios, mascarando suas origens.<\/p>\n<h2>Montadoras dizem exigir legalidade dos fornecedores<\/h2>\n<p>A Lear disse que usou &#8220;um processo de fornecimento robusto&#8221; que garantiu que funcionasse &#8220;com os fornecedores mais capazes e avan\u00e7ados que est\u00e3o comprometidos com a compra de peles de gado criado em fazendas compat\u00edveis&#8221;.<\/p>\n<p>A empresa disse que se os fornecedores violassem suas pol\u00edticas, tomaria medidas que poderiam incluir o cancelamento de seus contratos \u201ce \/ ou a\u00e7\u00e3o legal contra o fornecedor\u201d.<\/p>\n<p>A GM disse que espera que os fornecedores \u201ccumpram as leis, regulamentos e ajam de maneira consistente com os princ\u00edpios e valores\u201d da montadora.<\/p>\n<p><strong>A\u00e7\u00f5es corporativas:<\/strong>\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/falta-de-padronizacao-dificulta-avaliacao-de-dados-esg-das-empresas-25185371\">Falta de padroniza\u00e7\u00e3o dificulta avalia\u00e7\u00e3o de dados ESG das empresas<\/a><\/p>\n<p>A Ford disse que aspirava &#8220;fornecer apenas mat\u00e9rias-primas produzidas de maneira respons\u00e1vel&#8221;. A Volkswagen disse que seus fornecedores j\u00e1 aderiram a um alto n\u00edvel de sustentabilidade.<\/p>\n<p>Marfrig, Minerva e JBS afirmam n\u00e3o despachar caminh\u00f5es para coleta de gado na reserva Jaci-Paran\u00e1, ou em qualquer local que n\u00e3o seja de seus fornecedores diretos. Os advogados da Marfrig tamb\u00e9m entraram com um relat\u00f3rio na pol\u00edcia que relaciona os fatos descritos pelo Times, chamando-os de \u201cposs\u00edveis crimes de natureza criminal\u201d.<\/p>\n<p>Castanheira agora sustenta que o rep\u00f3rter do Times testemunhou o \u00fanico caso deste tipo de transa\u00e7\u00e3o feita por ele. Todos os tr\u00eas frigor\u00edficos disseram que agora exclu\u00edram o Sr. Castanheira de seu rol de fornecedores.<\/p>\n<p>Dois dos propriet\u00e1rios do Bluamerica, empresas chamadas Viposa e Vancouros, disseram que seus fornecedores est\u00e3o sujeitos a auditorias regulares e reconheceram os desafios de rastrear fornecedores indiretos. Ambas as empresas disseram estar trabalhando com o World Wide Fund for Nature, um grupo ambientalista com sede na Su\u00ed\u00e7a, para melhorar seus sistemas.<\/p>\n<\/div>\n<p><strong>Texto original dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/siga-couro-da-amazonia-aos-eua-como-estofados-para-carros-de-luxo-influenciam-desmatamento-no-brasil-25280446\">https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/siga-couro-da-amazonia-aos-eua-como-estofados-para-carros-de-luxo-influenciam-desmatamento-no-brasil-25280446<\/a><\/strong><\/p>\n<div class=\"block__advertising-header\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Globo 17 de novembro de 2021 Amaz\u00f4nia Brasileira Investiga\u00e7\u00e3o do New York Times acompanha o caminho do item para estofados entre produtores irregulares de gado na Amaz\u00f4nia e montadoras americanas BURITIS \u2014 Certa manh\u00e3, Odilon Caetano Felipe, um fazendeiro que cria gado em terras desmatadas ilegalmente na Amaz\u00f4nia, reuniu-se com um comerciante e vendeu&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":333,"featured_media":28564,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-28563","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-radar","category-1","description-off"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28563","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/333"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28563"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28563\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28570,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28563\/revisions\/28570"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28564"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28563"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28563"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.raisg.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28563"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}